UFSC investiga como medicamentos chegam em regiões remotas da Amazônia
Seu João é um morador ribeirinho que vive em uma comunidade isolada no coração do Amazonas. Com dor, tem uma única forma de acessar medicamentos para tratá-las: navegar por uma hora, se tiver sorte, ou por mais do que isso a depender das condições do clima e geográficas do dia.
A comunidade em que João vive não tem farmácias, como tantas outras na mesma região. Um flutuante comercial vende analgésicos junto com açúcar e farinha, mas no dia em que ele precisava, havia apenas xarope. Na unidade de saúde mais próxima, um Agente Comunitário de Saúde lhe informou que não havia remédios na unidade: a seca dificultou o abastecimento.
A história de Seu João é uma metáfora das tantas realidades que a pesquisa de doutorado de Genize Kaoany Alves Vasconcelos no Programa de Pós Graduação em Assistência Farmacêutica da Universidade Federal de Santa Catarina encontrou pelo caminho. Em um programa interinstitucional, ela navegou águas de uma região distante da UFSC para entender as complexidades do acesso à medicação em dezoito municípios do Amazonas.
As barreiras da realidade geográfica regional podem ser um limitador da equidade no acesso à saúde. “O modelo atual é um pouco rígido e acaba não considerando muitas vezes a geografia das nossas águas, os banzeiros, que a gente fala que são as ondas. Ele não consegue se moldar a esse movimento”, comenta a pesquisadora.
De acordo com o estudo, a Política Nacional de Assistência Farmacêutica (PNAF) é adequada à terra firme. Isso faz, por exemplo, com que características sazonais de territórios cercados por águas não sejam considerados em sua especificidade. Além disso, o modelo não prevê recursos para os altos custos logísticos da região. O transporte de insulina, por exemplo, pode exigir 26 horas de barco sob temperaturas de 40ºC.
Essas particularidades fazem com que os próprios profissionais envolvidos com a assistência tenham que criar mecanismos para chegar à população. Foi assim que Genize conheceu e descreveu aquelas que chama de “cunhãs” , mulheres que representam 73,3% da força de trabalho nessa área. Ao utilizar o termo indígena que significa mulher, o estudo registra que 89,3% são amazonenses e 69,3% do interior do estado.
“As cunhãs, na nossa pesquisa, são farmacêuticas que atuam na rede pública de saúde, na maioria das vezes não são estatutárias, são contratadas. E são mulheres que nasceram na terra onde trabalham. São mulheres que fizeram ensino médio na sua na sua cidade natal, onde nasceram, foram para a capital, pagaram pelo curso superior, se formaram, se tornaram farmacêuticas e voltaram paro seu lar”.
De acordo com Genize, o que se consegue ver é o papel dessa mulher que cria redes de apoio e que também sustenta o sistema de saúde na atenção primária. “Essas profissionais também atuam em uma jornada que envolve subir, descer barrancos e também a responsabilidade de gerir estoques em locais onde o próximo barco e suprimento podem demorar semanas para chegar. Então elas são as garantidoras do acesso à ponta”, comenta.
Para Genize, o resultado da pesquisa que mais chama atenção está relacionado à força dos profissionais de saúde e das redes informais que a ausência do estado ou que a dificuldade logística geram. “Esses profissionais fazem com que a assistência à saúde ou medicamento chegue a essa população, fazendo às vezes muito mais do que a sua atribuição”, comenta.
Segundo ela, uma das experiências que mais se destacam é a atuação dos agentes comunitários de saúde. “Eles levam mensalmente caixinhas de medicamentos com um analgésico, um antiinflamatório, um expectorante, um material para curativo”, comenta. Isso porque, nas comunidades distantes, que muitas vezes exigem três dias de viagem de barcos para se chegar à sede do município, o acesso em caso de urgência e emergência é dificultado.
“Foi muito muito presente isso na maioria dos municípios, a presença da atuação, por exemplo, do agente comunitário, mas também em outros municípios nós tivemos profissionais carregando a sua comida, os medicamentos, água. O médico, o enfermeiro em cima de uma caçamba para ir até um ponto de acesso”.
O estudo abrangeu 18 municípios que representam nove regionais de saúde do estado, incluindo sempre o município-polo e o de menor IDHM de cada região. A coleta de dados em campo foi planejada para coincidir com a estação chuvosa para garantir navegabilidade e o acesso às comunidades ribeirinhas mais isoladas. No total, a avaliação teve a participação de 780 pessoas (378 profissionais e 402 usuários) e a visita a 136 estabelecimentos de saúde.
Documentário
Os estudos da UFSC sobre o tema deram origem ao documentário AmazôniAF – Assistência Farmacêutica na Amazônia, resultado direto da pesquisa Acesso à medicamentos na Amazônia: influência do fator amazônico sobre a assistência farmacêutica, desenvolvido pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com financiamento das fundações de pesquisa do Amazonas, Pará e Santa Catarina e do CNPQ.
O documentário retrata como se dá o acesso aos medicamentos pelas pessoas que moram no interior do Amazonas e Pará. Na UFSC, é coordenado pela professora Mareni Rocha Farias, que conta que a orientação da tese de Genize foi uma das etapas iniciais do processo junto ao Amazônia+10, uma proposta organizada pelo Conselho Nacional de Fundações de Amparo à Pesquisa Estaduais com a participação de Fundações Estaduais, entre elas a Fapesc.
O objetivo era apoiar pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico em instituições de ensino e pesquisa e em empresas sobre os problemas da Amazônia para um desenvolvimento sustentável e inclusivo da região. As propostas deveriam envolver pelo menos pesquisadores de três estados, sendo que um deles deveria ser obrigatoriamente da Região Amazônica.
Amanda Miranda | amanda.souza.miranda@ufsc.br
Jornalista | Agecom| UFSC
































