
LabSim oferece cursos de dissecação. Na imagem, em corpos conservados com técnicas tradicionais (Fotos: Gustavo Diehl)
Uma forma inovadora e praticamente inédita entre universidades do Brasil para conservar o corpo humano após a morte vai dar mais realismo e precisão a profissionais da saúde em treinamento na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Chamada de Fresh Frozen Cadaver, a técnica é o foco de atuação do novo Laboratório de Práticas Simuladas em Fresh Frozen Cadaver (LabSim) do Centro de Ciências Biológicas (CCB).
A técnica foi trazida a UFSC pelo técnico em anatomia Thiago Medeiros Rocha. Em 2005, quando atuava em outra instituição, ele teve contato com um médico que utilizava a simulação de cirurgias como prática. À época ele precisava fazer um procedimento complexo e solicitou que fosse simulado em um corpo. “Foi aí que vi a possibilidade de utilizar corpos não só para o estudo de anatomia, mas também para práticas simuladas cirúrgicas”, conta.
Thiago é técnico em anatomia há 23 anos, o que lhe conferiu o conhecimento necessário sobre técnicas de conservação e montagem para viabilizar um projeto adequado à UFSC e pioneiro no Estado e no Brasil. Em nível nacional, encontrou na Universidade Federal de Minas Gerais um modelo semelhante ao que pretendia implantar. Já em Santa Catarina, um instituto privado era o único a possibilitar o treinamento em cadáveres.
O técnico explica que logo após a pandemia decidiu buscar recursos para montar o laboratório de práticas simuladas. Movido pelo conhecimento e pela cooperação com a UFMG, por meio dos professores Kennedy Martinez de Oliveira e Rafael Leite Alvez, e com o apoio de professores e da direção do centro, o LabSim “foi concebido com o propósito de fortalecer o ensino, o treinamento técnico e o aperfeiçoamento profissional na área da saúde”.
A técnica de conservação dos cadáveres utilizada pela UFSC faz com que o corpo permaneça praticamente idêntico a um organismo com vida, faltando apenas a pulsação cardíaca, que pode ser simulada com ventilação mecânica. Até mesmo o sangue humano pode ser simulado no laboratório, favorecendo uma prática realista.

Thiago aprendeu a técnica e incorporou às rotinas do laboratório da UFSC
Segundo Thiago, como a pele e as articulações ficam mantidas tal qual a de um corpo vivo, cirurgias ortopédicas e também procedimentos estéticos podem ser alvo de práticas simuladas. Cirurgias complexas, como transplante de pulmão, também já foram alvo dessa técnica. A UFMG, por exemplo, treinou uma equipe do Hospital das Clínicas de Belo Horizonte, permitindo que a instituição retomasse a realização de transplantes de pulmão.
Nas técnicas tradicionais dos laboratórios de anatomia, formol e glicerina são os compostos utilizados na conservação. Já no Fresh Frozen Cadaver, compostos químicos são diferentes, assim como o tipo de conservação, em ambiente de temperaturas baixas, com câmaras frias a -20 °C.
Nas simulações, também abre-se a possibilidade de parcerias com a indústria médica no fornecimento de equipamentos e de tecnologia de ponta. Empresas representantes de equipamentos cirúrgicos (como artroscópios e microscópios) podem levar seus aparelhos para o laboratório durante os cursos, o que reduz o investimento necessário da universidade.
Procedimentos bastante complexos, como o rastreio de Flutter Atrial, cirurgia cardíaca para tratar arritmias congênitas, podem ser simuladas de forma realista. Hoje, médicos brasileiros precisam ir para os EUA para treinar em corpos sob esta técnica. O fresh frozen cadaver também pode ser usado em treinamento de cirurgia de redução de estômago por videolaparoscopia.
Doações e aproveitamento
Os corpos que fazem parte do LabSim são fruto de doações voluntárias. Isso pode ocorrer tanto em vida, quando a própria pessoa manifesta a intenção de doação após o óbito, quanto por parte de um familiar. Mesmo no caso das doações em vida, um parente deve ser notificado para iniciar o processo. O site https://doacaodecorpos.ufsc.br/como-doar/ traz mais informações a respeito.
Nesse processo, é a universidade quem assume os custos de manejo pós-morte e transporte, desonerando os familiares de gastos com enterro ou cremação. Thiago explica que o cadáver fresh frozen pode servir à ciência por muito tempo, e depois também pode resultar em ossos preparados para o ensino do sistema esquelético.

Professor Rui, Thiago e Diego destacam pioneirismo da UFSC que vai beneficiar formação profissional
Na preparação dos corpos para a técnica é aplicada uma substância que permite que o cadáver mantenha a mobilidade articular mesmo em temperaturas baixíssimas. Já para preservar o corpo durante um curso, a técnica consiste em enrolar as partes que não estão sendo operadas em mantas frias, expondo apenas a área de interesse cirúrgico.
Público-alvo
O LabSim tem a capacidade de atender a um público vasto, tanto da área das ciências biológicas, como da saúde. Além de servir às atividades de ensino e pesquisa, seu foco estará na formação de profissionais da área. “Também há uma procura crescente de profissionais da odontologia, biomedicina e estética, que buscam segurança para evitar deformações faciais em procedimentos como aplicação de ácido hialurônico que podem ser simuladas”, explica Thiago.
Segundo o diretor do CCB, professor Rui Prediger, o LabSim é o primeiro laboratório que vai permitir essa comunicação com profissionais de diferentes áreas. “Será um laboratório de referência para oferta desses cursos e também é uma importante forma de aumentar a captação de recursos”, comenta.
Um dos primeiros cursos do novo espaço foi realizado já no início de março, com o tema Técnicas Anatômicas Avançadas: Abdome. A estudante da terceira fase de Medicina, Ana Luíza Verkamper Volpato Alano, aproveitou para aprimorar os aprendizados da faculdade.
“Estudando a gente precisa ter uma ideia de como é o corpo inteiro e agora no início do curso a gente vê mais a parte sistêmica, tudo separadinho. E eu imaginei que se eu fizesse eu mesma, além de ser diferente de só ver e encostar, talvez fosse uma didática mais aprofundada e interessante”, disse.

Cursos de várias áreas são executados no LabSim
Já a pesquisadora Beatriz Correia Rodrigues, enfermeira e professora de curso técnico, veio do Rio de Janeiro especialmente para participar da atividade do LabSim.
“Eu vi, pela organização do curso, que tinha bastante proposta de prática. Dissecação é algo que a gente não tem muito acesso nas universidades em geral do Brasil. Aqui tem um conteúdo forte acompanhado de prática, por isso vim com essa ideia de conseguir aprofundar mais e ver estruturas que a gente não consegue ver em peças que já foram dissecadas”.
O professor Diego Martins, do departamento de Ciências Morfológicas e professor de Anatomia, ressalta a importância do espaço, que conta com um corpo docente e de técnicos muito qualificados para poder oferecer esses cursos, além de estrutura para alavancar ainda mais a formação dos profissionais. “Isso tudo é muito importante para poder abarcar essa lacuna de conhecimento na formação de profissionais”.
Amanda Miranda | jornalista da Agecom
amanda.souza.miranda@ufsc.br