O Brasil sob o viés da poesia: livro abrange de Vargas a Lula

21/05/2018 10:07

Ex-diretor da Editora da UFSC, professor voluntário da instituição e poeta, Alcides Buss lança nesta quarta-feira, 23, a partir das 18 horas, no Centro Cultural Nau Catarineta, em Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis, o livro Em nome da poesia, que abrange o ciclo da vida nacional que vai da queda de Getúlio Vargas ao apogeu do Governo Lula. A obra vem com o selo da Caminho de Dentro Edições, tem 352 páginas e custa R$49,90. livroalcidesfoto

Tudo começa na pequena Trombudo Central, no Vale do Itajaí, passa por Medianeira, na tríplice fronteira de Foz do Iguaçu, alarga-se em Joinville, na região industrial catarinense, e desemboca enfim na Ilha de Santa Catarina. Mas não se atém apenas a estas regiões. No fluxo do tempo, desponta inesperadamente nas mais importantes cidades do País, em várias capitais da Europa, da América Central e da América do Sul. Em cada lugar, reconstrói os liames entre o esquecimento e a memória, entre o passado e o presente. Dentro do tempo, cada etapa da vida segue em paralelo com as demais, causando a impressão de simultaneidade.
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Confraria Literária do Colégio de Aplicação promove encontro sobre Pablo Neruda

22/05/2017 15:50

O poeta chileno Pablo Neruda será o tema principal do próximo debate da “Sobremesa Literária”, promovida pela “Confraria Literária” do Colégio de Aplicação (CA). O evento, que ocorre nesta sexta-feira, 26 de maio, será coordenado pela professora Arlyse Ditter. A atividade é aberta a todos os interessados.

Serviço

Data: 26 de maio, sexta-feira.

Hora: das 12h20 às 13h30.

Local: Laboratório de Linguagem do Colégio de Aplicação.

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Evento ‘Um estudo acerca da P O E S I A’ tem conferência e minicurso nesta quarta

26/09/2016 09:31

O Departamento de Língua e Literatura Estrangeiras e o Programa de Pós-Graduação em Literatura promovem, nesta quarta-feira, 28 de setembro, o evento “Um estudo acerca da P O E S I A”. A programação conta com a presença do professor convidado Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) em conferência e minicurso.

Programação:
9h
Conferência: A Presença (subterrânea) da Poesia – José Leonílson e Leila Danziger
Local: Sala 252, Bloco A – CCE/UFSC

14h30
Minicurso: Poéticas da extinção – os meios e os fins na arte do Brasil contemporâneo
Local: Sala Harry Laus – Biblioteca Universitária/UFSC

Mais informações:
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Escritora portuguesa finaliza temporada na UFSC com lançamento de livro

06/06/2016 16:15
Ana Luísa Amaral durante o lançamento do livro "Ara", na última segunda-feira, dia 30. (Foto: Herique Almeida/Agecom/UFSC)

Ana Luísa Amaral durante o lançamento do livro “Ara”, na última segunda-feira, dia 30. (Foto: Herique Almeida/Agecom/UFSC)

Ana Luísa Amaral esteve na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) por 21 dias durante o mês de maio. Segundo ela mesmo define, um período “nevrálgico” para o Brasil, no qual o país assistiu à votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no Senado e o seu afastamento. Além disso, mobilizações por todo o Brasil contra o machismo após a divulgação de um caso de uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro que sofreu estupro coletivo. Foi nesse cenário que a escritora, pesquisadora e tradutora portuguesa, premiada internacionalmente e referência na área de estudos feministas e de gênero, visitou a UFSC.

Ana Luísa veio ao Brasil lançar seu romance “Ara”, publicado em Portugal desde 2013 e já premiado. Em sua temporada na UFSC, ministrou uma aula aberta sobre linguagem e estudos de gênero, um minicurso, uma palestra na biblioteca itinerante Barca dos Livros, e um evento de lançamento de seu livro. Em todas as ocasiões, houve grande público, e Ana Luísa foi rodeada de acadêmicos, pesquisadores, leitores e curiosos.

Muitos a perguntavam sobre o que achava do cenário político e social no Brasil. Em seus diálogos, Ana Luísa falou de feminismo, de impunidade e de política com a mesma poesia que aborda o amor, as diferenças e as linguagens em seus livros. No Brasil ela tem publicados os livros: “Vozes”, “Escuro”, “A Gênese do Amor”, e agora “Ara”. É autora de mais de 20 livros, de diversos gêneros, como poesia, livros infantis, traduções, entre outros. Os seus livros estão editados em vários países como França, Suécia, Holanda, Venezuela, Itália, Colômbia, México e Alemanha. Professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Ana Luísa integra a direção do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e coordena o Grupo Intersexualidades.

A visita de Ana Luísa Amaral à UFSC foi possibilitada por meio do Núcleo Literatual de pesquisa em literatura do Centro de Comunicação e Expressão (CCE), em parceria com o Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Na última segunda-feira, dia 30, ela conversou com a Agência de Comunicação da UFSC sobre a sua visita, o cenário político brasileiro e sua obra. 
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Seminário sobre Joan Miró ocorre na segunda-feira

03/11/2015 13:09

Cartaz MiróA Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sedia, nesta segunda-feira, 9 de novembro, o seminário “Miró, poesia é pintura”. O evento é promovido no contexto da exposição “Joan Miró, a força da matéria”, realizada no Museu de Arte de Santa Catarina (Masc) até 15 de novembro. As palestras, organizadas pelo curso de Pós-Graduação em Literatura da UFSC , ocorrem às 9h, na sala Drummond, Bloco B do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) da UFSC.

Participam do seminário Paulo Miyada, curador do Instituto Tomie Ohtake de São Paulo; Raquel Stolf, artista plástica e professora do curso de Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc); Byron Vélez Escallón, doutor em Teoria Literária pela UFSC; Rosângela Cherem, professora do curso de Artes Visuais da Udesc; e Raúl Antelo, professor do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas (DLLE) da UFSC. A mediação das mesas será feita por Artur de Vargas Giorgi, professor na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul); e Bianca Tomaselli, professora do curso de Artes Visuais da Udesc.

Mais informações: (48) 3721-3790 || (48) 3721-9582

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Livro ‘O duplo estado da poesia’ será lançado nesta quinta

03/11/2015 12:25

convite_duplo_wdefO livro O duplo estado da poesia: modernidade e contemporaneidade, será lançado nesta quinta-feira, 5 de novembro, às 17h. A professora Susana Scramim, do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas (DLLV) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é uma das organizadoras da obra.

O lançamento ocorrerá no hall do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) – Bloco B.

 

Sobre o livro

A inquietude diante das questões da poesia moderna e contemporânea é a órbita em torno da qual giram os ensaios reunidos neste livro. Foi justamente essa disposição, interessada simultaneamente nos aspectos intrínsecos da poesia e na posição que ela ocupa no mundo, que reuniu os colaboradores deste volume para refletir sobre a criação poética.

Uma das inquietações que se destaca entre as preocupações desse grupo de pesquisadores é da relação entre poesia e prosa que não se restringe a um levantamento da história do poema em prosa, nem revela seus aspectos mais decisivos por meio dela; tampouco estaria acomodada à mera inversão da hierarquia, pela exposição de casos em que a prosa poética promoveria a apropriação da “poesia” em uma tradição de prosa.

Evitando pensar em termos de distinção e de hierarquia de gêneros, a abordagem comum a alguns dos textos aqui publicados entrevê a possibilidade de um hibridismo entre a poesia e a prosa.

Outra inquietação relevante entre os textos do grupo é a do pensamento relacional entre o corpo e a poesia. Nele destaca-se a experiência do contato do corpo e para o corpo na qual o trânsito das palavras dizíveis pode mostrar-se interrompido, fazendo com que a ponte entre a linguagem e o corpo pareça estar partida. Compreende-se, com essas reflexões, que a vida que o corpo resguarda é exatamente a que, desde o corpo, não se pode dizer, colocando-os numa zona de mutismo nunca passível de ser completamente ultrapassada nem totalizada, apenas sutilmente entrevista e somente ouvida como um murmúrio balbuciante.

O caráter ambivalente da poesia frente aos reclames de sua especificidade como discurso poético e o seu desejado abandono à abertura ao mundo é uma questão que igualmente reaparece em vários textos.  Em alguns momentos retoma-se o estudo sobre a imagem dialética de Benjamin, para considerar que ali reside um movimento produtor de deformações, já que ela implica a ambivalência.  Nesse sentido, negar essa ambivalência, ainda que isso seja algo difícil de ser pensado no contemporâneo, produz o efeito de devolver a literatura àquela idealidade de sua autonomia.

A vitalidade demonstrada pelas inquietações acima destacadas é a marca comum mais visível entre os textos reunidos nesse livro. Ele é resultado de dois anos de trabalho no grupo composto por importantes pesquisadores da poesia no Brasil. É a partir dessa vitalidade que se pode constatar a dimensão ética e política da literatura, tornando mais uma vez pública a potência reflexiva e crítica que vem acompanhando a poesia moderna e contemporânea.

Mais informações no site da editora.

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UFSC sedia colóquio internacional sobre poesia moderna e contemporânea

03/11/2015 11:15

coloquio-internacional2coloquio-internacionalA partir desta terça-feira, 3 de novembro, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) recebe o colóquio internacional “Poesia: linhas de fuga”, com a participação de pesquisadores de universidades brasileiras e estrangeiras. Entre os convidados estão  Silvio Mattoni, da Universidad Nacional de Córdoba (Argentina); Nanne Timmer, da Leiden University (Holanda); Florencia Garramuño, da Universidad de San Andrés (Argentina); Osvaldo Manuel Silvestre, da Universidade de Coimbra (Portugal). O evento marca o encerramento das atividades do Programa Nacional de Cooperação Acadêmica (Procad) do projeto de pesquisa “Por uma teoria da poesia moderna e contemporânea”, coordenado pela professora da UFSC Susana Scramim, e dos professores Marcos Antonio Siscar (Unicamp) e Alberto Pucheu Neto (UFRJ).

A abertura do colóquio será às 14h, na Sala Drummond, bloco B do Centro de Comunicação e Expressão (CCE). A seguir, às 15h, ocorrerá a conferência inaugural “O tempo, um pharmakon que libera e purifica”, com o professor Raúl Antelo, do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas (DLLE), e mediação de Maria Lúcia de Barros Camargo, coordenadora do Programa Pós-Graduação em Literatura (PPGLit). A programação segue até sexta-feira, 6 de novembro, e está aberta a todos os interessados.

Mais informações: (48) 3721-3790 || (48) 3721-9582 || E-mail: 

Tags: Colóquio InternacionalDepartamento de Língua e Literatura VernáculaspoesiaUFSC

O florescimento da poesia na capital mundial da guerra

20/03/2012 10:39

Seis décadas da lírica alemã são apresentadas nessa seleção de 64 poemas organizados e traduzidos pelos professores do curso de Alemão RosvithaFriesenBlume e MarkusWeininger. Em um trabalho de antologia inédito no Brasil, a obra contempla talentos da poesia em língua alemã desde o Pós-Guerra até o início do século XXI. A amostra selecionada tem um caráter panorâmico, embora sem a pretensão de abranger a totalidade de nomes, eixos temáticos, especificidades formais e tendências estéticas do período. A obra está sendo lançada pela editora da UFSC no dia 21, às 17 horas, na Feira de Livros da editora da UFSC, na Praça da Cidadania, em frente ao prédio da Reitoria.
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Duda Machado, música na memória, poesia no punhal

15/03/2012 09:51

Como anotações repetidas num diário

Não há mais nada para ser adiado.

No ar coberto pelo pó, a memória

esbarra nos rastros do que pôde ser

vivido como revelação e início.

O espelho que aguarda,

o mar de antes,

a miséria tão certa como a esquina,

o que os corvos sabem (?).

 Dentro da falha que persiste,

a persistência em querer ver.

A surpresa ante o próprio

 entusiasmo repentino.

 E a escuridão – desejada feito música.

 (Adivinhação da Leveza, Editora Azouge, 2011)

Encontro de Duda Machado, Rodrigo de Haro e Sérgio Medeiros
Duda (primeiro à esquerda), Rodrigo e Sérgio:
conversa sobre música e poesia

Em visita à Editora da UFSC, Duda Machado, poeta, ensaísta, tradutor e professor universitário, conversa com editor Sérgio Medeiros e poeta Rodrigo de Haro sobre relações entre música e poesia

Ele foi, ao lado de Waly Salomão, o letrista predileto das fases mais vanguardistas de Gal Costa e JardsMacalé na década de 60. Mas nunca tocou um instrumento, a não ser “três anos infelizes de sanfona” para atender a um desejo do pai. Quem esquece Gal cantando “Doce amor”, com sua garra vocal e performática, “como um punhal que brilha”? E a voz de Elis Regina também assina uma comovente gravação de “Doente Morena”. Antes da experiência musical, ele já havia investido seu talento na arte cinematográfica. Cinéfilo colecionador e frequentadorcompulsivo de salas de projeções, com pouco mais de 20 anos estava decidido pela carreira de diretor. Chegou a realizar um curta-metragem e alguns esboços de roteiro que acabou deixando na gaveta, intimidado pelo trabalho prático exigido pelo aparato de produção. Embora as incursões na música e no cinema não o tivessem satisfeito inteiramente, encorajaram-no para umterceiro projeto: escrever poesia e dar vazão a uma intensa leitura do gênero. Dessas experiências artísticas produtivamente frustrantes o Brasil viu nascer um de seus mais expressivos poetas contemporâneos.

Foi, portanto, o trabalho poético que ganhou definitivamente o artista Carlos Eduardo Lima Machadoe colheu os frutos de sua passagem por essa variedade de linguagens artísticas sobre as quais a obra do poeta baiano se constrói. Em visita a Florianópolis antes do Carnaval, Duda Machado se reuniu com o multiartista Rodrigo de Haro em um encontro promovido pelo amigo e também poeta, Sérgio Medeiros, diretor da Editora UFSC. Com o objetivo de planejar, em parceria com o Curso de Cinema da UFSC, uma grande mostra de filmes que exploram a questão do inumano, a ser realizada em abril, a pequena confraria dedicou-se a uma longa tarde de revisitação à memória da história cultural brasileira. A empatia entre o poeta catarinense Rodrigo de Haro e o baiano Duda Machado, que ainda não se conheciam, mas compartilharam esses momentos históricos, foi imediata e faiscante como o encontro entre dois velhos amigos.

Além de poeta, ensaísta e tradutor, Duda Machado é professor de teoria literária na Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais. Sua primeira obra poética veio em 1977, aos 33 anos, já morando no Rio de Janeiro, sob o sugestivo nome Zil, gíria que significa miscelânea. A segunda, intitulada Crescente, foi publicada somente uma década depois. Em 1997 escreveu Margem de uma onda (1997) e, em parceria com Guto Lacaz, Histórias com poesia, alguns bichos &cia., divertido livro de poemas para crianças. Transitando entre a docência e a produção poética, Duda fala nesta entrevista sobre a relação entre música e poesia e sobre seu último livro, Adivinhação da leveza, pela Azougue Cultural. Aborda ainda, com eloquência, a importância da efervescente Salvador dos anos de 60 e 70na sua formação e na de outros expressivos artistas nacionais. Conta como esse movimento conseguiu driblar o golpe de 64 e a sociedade conservadora para instaurar na capital baiana um polo de vanguarda na produção cultural para o País.

Raquel Wandelli: Teremos algum desdobramento poético desta conversa, além do projeto da I Mostra Internacional do Bestiário no Cinema?

Duda: Não chegamos ainda à mesa de anatomia [risos]. Por enquanto estamos nos divertindo em nossas conversas, evocando diversas situações onde, embora não tenhamos vivido juntos, fomos contemporâneos. O humor prevalece.

Raquel Wandelli: Você é professor, poeta, tradutor. Como se dá a articulação nessas diferentes, esferas de atuação na sua produção?

Duda: Seria ilusório dizer que essas atividades se articulam de forma harmoniosa. Em primeiro lugar, porque fazer poesia é algo muito exigente e ainda que possa se tornarcompatível com as outras atividades às vezes torna a relação entre elas muito tensas, sobretudo pela necessidade de concentração.

Raquel Wandelli. A teoria ajuda a atividade poética e vice-versa?

Duda: Aparentemente poderia ajudar, mas assim como as minúcias da realidade concreta costumam dissolver as ideias que fazíamos em relação à própria realidade, as minúcias do ato de compor poemas (e tudo no poema é minúcia, capaz de arrastar consigo aestrutura de composição) dissolvem a possibilidade de uma ligação entre a parte teórica e a prática de escrever.  Em termos intelectuais, não vejo essas atividades como opostas ou capazes de criar antagonismos. A atividade crítica de muitos poetas mostra mais do que compatibilidade, pois expõe certa interação entre crítica e poesia. Mas nem sempre a atividade de escrever crítica se transpõe para a crítica que é inerente ao ato de escrever poemas. Ambas trazem consigo fortes exigências. Muitas vezes, as exigências de escrever crítica com densidade pode se chocar com as exigências mais fortes (quando se é poeta) de compor poesia.

Raquel Wandelli. E essa contradição tem consequências produtivas para o poeta?

Duda. São consequências muito variáveis. Desde momentos de exclusão de uma das atividades, até um convívio precário que tem de ser pacientemente elaborado e mantido. Há momentos em que você queria ter disponibilidade de tempo completa para o poema, mas isso não quer dizer, no entanto, que essa disponibilidade pudesse ser mesmo usada. Essa aspiração pode ser produtiva porque faz você se virar para arrumar tempo.

Raquel Wandelli: Como você vê as possibilidades de explorar as aproximações entre crítica literária, tradução e poesia propriamente dita?

Duda: No caso da tradução, pode-se dizer que traduzir e fazer poemas podem ser apenas variantes. É verdade que não traduzo de modo contínuo há muito tempo, desde que me tornei professor. Traduzir profissionalmente foi algo que fiz para sobreviver, numa época em que fiquei sem emprego. Veja que as traduções de livros que fiz foram sempre de prosa (crítica ou ficção).  As poucas traduções de poemas foram publicadas em revistas ou jornais.Consegui sugerir algumas traduções de livros que foram aceitas e acho que fiz um bom trabalho. Por exemplo, As Cartas Exemplares de Flaubert, o fabuloso Marcel Schowb de Vidas Imaginárias ouO Bom Soldado, de Ford Madox Ford. Mas também fiz muitas sem nenhum prazer.

Raquel Wandelli: Você foi letrista de música, cineasta, poeta, tradutor… Como essa passagem por diferentes linguagens e atividades se expressa no seu trabalho poético?

Duda. Devo muito à música e também à pintura e ao cinema. É bom lembrar que a adesão a cada uma dessas atividades se deu em épocas distintas. Por volta dos 26 anos, eu queria mesmo era ser diretor de cinema, mas percebi que minha praia não era essa.Quando escrevi letras de música não escrevi poemas. Minha proximidade com Torquato Neto, Caetano, Gilberto Gil e a admiração pelo que faziam me levou a fazer letras para JardsMacalé. Mas eram letras para serem cantadas, não para existirem como leitura no papel.Só depois dessapassagem pelo cinema e pela composição de letras de música julguei que poderia começar a escrever poemas, embora soubesse que havia uma grande diferença entre as duas coisas, letra e poesia.

Raquel Wandelli. Você toca algum instrumento?

Duda: Meu pai me obrigou a tocar sanfona, o que me fez muito infeliz durante três anos [risos]. Não toco nenhum instrumento, mas na minha família ouvia-se música o tempo todo.

Raquel Wandelli. A música interfere na sua poesia? De que forma?

Duda.  Não sei responder com clareza a esse respeito. Se você fala do impacto damúsica popular sobre o que escrevo, não consigo ver a relação. É até provável que haja interferência, se penso,por exemplo, na música popular brasileira mais tradicional que ouvi muito quando era adolescente em Salvador.No meu caso, foi diferente, mas quero deixar claro que a convivência entre letrista e poeta pode ser possível e fecunda.  Para falar de um caso especial, Jorge Luís Borges foi contista, poeta e letrista. Quando Borges escreveu suas milongas, se não me engano, já era um poeta consolidado.

Raquel Wandelli: Há uma onda da critica literária que reivindica o específico da poesia e com base nisso procura desfazer o estatuto poético do que se faz em letras de música. O que você pensa sobre essas objeções?

Duda:É preciso ser capaz de reconhecer que letras de músicas podem ser igualadas ao que se considera como o melhor da poesia. Não creio que seja o meu caso. Há evidentemente uma especificidade da poesia, o que não quer dizer que a letra da canção não possa alcançar essa mesma qualidade.

Sergio Medeiros: Há um grupo de poetas e críticos aos quais se alistam Régis Bonvicino, Nelson Acher, Paulo Franchetti para quem no Brasil os poetas foram subestimados em relação a Caetano, Gil, Chico Buarque, Arnaldo Antunes.

Duda. Se não me engano, João Cabral disse que havia toda uma dimensão da lírica que deveria ser deixada de lado, pois a canção popular e

ra suficiente para isso.É uma discussão que volta e meia vem à tona. A questão se complica porque no Brasil a música popular é bem sucedida, tem um grande público e a poesia não. Nem a atual, nem a de qualquer outra época. Parece que houve um momento de valorização das obras de Caetano, Gil, Chico Buarque que levou a uma equivocada comparação com vantagem sobre a poesia daquele momento. Mas nada de definitivo, claro e consistente pode se dizer sobre essas relações. Por isso nunca me detive nesse papo reativo, nessa competição numa pista inexistente. Há algo de ressentido no fato de poetas estarem dando notas a músicos-letristas brasileiros.

Raquel Wandelli: E há por outro lado também os que criticam alguns músicos por fazerem composições que privilegiam a palavra literária e não a música, usando como exemplo parte da obra de Chico Buarque…

Rodrigo de Haro: Mas a natureza do madrigal já se faz dessa literalização da música. Ou seja, ela também está na gênese da poesia. Os sonetos de Shakespeare, por exemplo, foram escritos para serem cantados.

Duda: Música e poesia podem se interpenetrar. O registro da letra é outro, afetado pela música da canção. O que não tem sentido é fazer uma sistema de hierarquizações. Afora isso, há as complicações da produção que dirige apenas para o consumo.

Sérgio Medeiros: Os poetas chineses faziam letras que o rei musicava, por exemplo…

Duda:Esse exemplo ajuda a demonstrar que se trata de processos de produção diferentes, que podem ser integrados em determinadas tradições e contextos culturais. Acho muito pobre essa mania brasileira de definir o que e o que não é melhor entre poesia e letra de canção.

Rodrigo de Haro: A poesia é irrefutável.

Sérgio Medeiros: Essa frase diz tudo. A poesia, não importa se aparece em música ou na escrita, é irrefutável.

Duda: É isso! Nossa época implodiu a concepção do poético, que pode estar em qualquer lugar.

Raquel Wandelli. Você gostaria que um poema seu fosse musicado?

Duda: Não gostaria de maneira nenhuma [risos].

Raquel Wandelli. O que você diria sobre o seu último lançamento, Adivinhação da leveza, pela Azougue Cultural em relação ao conjunto de sua obra?

Duda. Adivinhação da leveza é um verso que concluiu um poema em torno da persistência e das modificações do passado. Acho um livro com diferenças decisivas em relação ao anterior, Margem de uma onda. O primeiro marco diferencial é que a maior parte dos poemas está concentrada no tópico da memória, como se os fossem compondo uma espécie de poema único. Para chegar a eles, o tempo se impôs e, com ele, a memória.

Raquel Wandelli: De que modo o passado se torna matéria-prima da sua poesia?

Duda: Implicitamente. O poeta trabalha de todos os modos e sempre. Ao escrever, está sempre dentro de uma combinação de memória (pessoal, de poemas de outros) e de certa invenção que se exerce sobre estas memórias.

Raquel Wandelli. Você viveu uma polisdiversidade, por assim dizer: nasceu na Bahia, morou no Rio de Janeiro, agora leciona em Ouro Preto. Como a memória das cidades aparece em sua poesia e qual é o lugar de Salvador?

Duda. Sempre misturo as cidades na memória poética, mas Salvador é primeiríssima. Fica na lembrança por causa da infância e da formação na juventude. Na minha juventude, Salvador possuía umaextrema vivacidade cultural. Aquelasimultaneidadede música, pintura, dança, a

rte experimental formou toda uma geração [entre eles Glauber Rocha, Caetano Veloso, Waly Salomão, João Ubaldo Ribeiro, Rogério Duarte, Roberto Pinho, José Carlos Capinan, Gilberto Gil, Carlos Nelson Coutinho e o próprio Duda Machado]. Naquele lugar pequeninodo mundo tudo que havia de mais arrojado na arte estava à disposição do público, como ouvir John Cage na sala de concertos da Reitoria ou assistir às produções teatrais de qualidade que Martins Gonçalves e Luís Carlos Maciel dirigiram na Escola de Teatro.

Raquel Wandelli. Como começou essa avant-garde baiana?

Duda: Trata-se de uma história bem conhecida que se deveu à iniciativa de um reitor (o primeiro reitor e fundador da UFBA) chamado Edgar Santos que criou na Bahia um poderoso polo de produção artística. Ele trouxe o compositor erudito de vanguarda, maestro, flautista e crítico de arte Hans-Joachim Koellreutter para dirigir a Escola de Música e os Seminários Livres de Música em Salvador que ele concebeu. Trouxe o ensaísta português Agostinho da Silva, que criou o Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao); a polonesa YankaRudzka, diretora da Escola de Dança e o cenógrafo. Trouxe do Rio de Janeiro o diretor de teatro Martins Gonçalves para dirigir a maravilhosa Escola de Teatro. E ainda o arquiteto [como fazia questão de ser chamada] Lina Bo Bardi, uma italiana com concepção inovadora sobre o museu e as artes populares, que estava à frente do Museu de Arte Moderna da Bahia. Lina, se não me falha a memória, ajudou a fundar uma espécie de cinemateca muito ativa onde eram exibidos os grandes filmes europeus e americanos. Glauber, Caetano, Gil, Tom Zé, por exemplo, como eles próprios já disseram, descendem desse ambiente único.

Raquel Wandelli. Pode-se dizer que durante os 15 anos à frente da reitoria da Federal da Bahia ele abriu as portas e caminhos para um renascimento multicultural que se expandiu para São Paulo e Rio e gerou o Cinema Novo e a Tropicália…

Duda.Sim, foi aí que esses artistas se formaram para depois fundarem ou se incorporem aos movimentos de que você fala.

Raquel Wandelli. E como Edgar Santos se segurou com a perseguição aos artistas e aos intelectuais nas universidades pela Ditadura Militar?

Duda. Edgar Santos não foi cassado ou coisa semelhante. Perdeu o cargo de reitor em 1961, quando Jânio Quadros escolheu outro nome da lista tríplice que era enviada ao presidente da República. Edgar foi para o Rio e faleceu no ano seguinte.

Lembro-me de uma coisa curiosa. Eu era estudante de Ciências Sociais na Bahia em 1965 e tive como professor Perseu Abramo, que havia sido expulso da Universidade de Brasília. Suponho que deve ter havido alguma negociação com os militares para que ele fosse admitido na UFBA.

Raquel Wandelli: E a sociedade da época apoiava o seu trabalho?

Duda.Muita gente era contraEdgarna época. Isso dentro e fora da universidade. Queriam a sua cabeça e da sua equipe, “aqueles malucos” que “traziam veados pra Bahia”, como se dizia nos lares e nas ruas de Salvador.

Raquel Wandelli. Voltando a sua obra, você parece experimentar várias propostas estéticas sem se confundir com nenhuma delas… Você acha que conseguiu criar um caminho próprio?

Duda: Acho que posso falar de meu primeiro livro,Zil, como exemplar dessa minha orientação. Em Zil, fiz alguns poemas concretos e construções visuais. Mas não se trata de uma simples adesão à poesia concreta, pois o verso predomina. Sempre achei que a tendência da horaPoeta Duda Machado visita a Editora da UFSC

tinha que ser a minha [risos]. Zil é uma gíria queexprime uma variedade de coisas, várias coisas ao mesmo tempo. Minha poesia tem, desde o início, algo de hibrido. Por exemplo, na relação entre lírica e distância da lírica.

Raquel Wandelli: Qual de seus livros mais o agradam?

Duda: Como não poderia deixar de ser, o último. A elaboração do poema pode ser sempre aprimorada, mas tenho apreço especial por

Margem de uma onda. Dizem que a última etapa do poeta ou do artista é encontrar dentro de suas próprias marcas estilísticas um modo de dissolver tudo o que ele fez até então.

 

Raquel Wandelli é jornalista na Secretaria de Cultura e Arte da UFSC, professora de Jornalismo na Unisul e doutoranda em teoria literária na UFSC com a tese “Devires do inumano na literatura e na arte”. Publicou pela Editora da UFSC e IOESP Leituras do hipertexto; viagem ao Dicionário Kazar. Assina diversos ensaios publicados em livros, revistas e jornais sobre literatura, cinemae cultura em geral.

 

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Teatro da UFSC apresenta Zunido de Poema

19/11/2010 18:56

A peça é uma performance poético-musical criada a partir do livro de poemas Álbum Vermelho, de autoria da poeta Ryana Gabech, será encenada no domingo, 21/11, às 19h, no Teatro da UFSC, e é gratuita e aberta ao público.

Ao som da bateria e do teclado, os poemas ganham cor, cheiros e gostos. A poesia e a música saltam juntas em um contexto lírico e ritmado, levando ao público as preciosidades rebuscadas das composições da poetisa Ryana e a genialidade excêntrica e virtuose do músico Toucinho Batera.

Transitando entre as notas irrequietas e a tradição oral de se dizer poesia, a parceria entre músico e poetisa passeia entre temas sobre o feminino, a transformação, a delicadeza e o sonho. A dimensão sonora da imagem sugerida pela palavra, transposta às notas, teclas e batidas, levam o espectador a lugares e primaveras que só a música e a poesia conseguem compor.

Ryana Gabech é artista plástica, poeta e performer. Lançou sua primeira obra aos 15 anos de idade. Publicou quatro livros de poemas: Mar e Avelãs, A data invisível do poema, Trêmulo e Álbum Vermelho. Em 2008 e 2009, realizou turnê por Florianópolis, Itajaí e Parati (RJ) com a performance Trêmulo, criada a partir do livro homônimo, ambos de sua autoria. É integrante do coletivo de artistas Laava, pelo qual ministrou oficinas de poesia em Florianópolis, Palhoça e Rio de Janeiro.

Toucinho Batera atua na cena musical nacional há mais de 40 anos. Ao longo dessa trajetória acompanhou artistas renomados como Fafá de Belém, Originais do Samba, Pery Ribeiro, Eduardo Araújo e César Camargo Mariano. Foi homenageado pelos cineastas Alan Langdon e Guilherme Ledoux, que produziram o documentário Sistema de Animação, sobre sua vida e arte, lançado em 2008 e contemplado com diversos prêmios em mostras e festivais de cinema nacionais.

Ficha técnica:

Ryana Gabech – concepção, textos e performance

Toucinho Batera – direção musical, arranjos sonoros, bateria, teclado e performance

Lendro Fortes – arranjos musicais

Maria Fernanda Jacob – figurino

Marina Borck – fotografia

Sarah Ferreira – filmagem e makin of

Luiz Henrique dos Santos – arte gráfica

Cleiton Moreira e Juliana Sussel – direção cênica

Andrea Rosas – produção executiva

Contato:

(48) 3365-0532 / 84773551

ryanagabecholiveira.blogspot.com

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