Poeta Cruz e Sousa entra em cena e recebe merecido reconhecimento em Florianópolis

11/07/2019 09:01

Registro de Fernando Crocomo em 5 de junho de 2019.

Tudo começou com três paredes em branco. Elas estavam lá, faziam parte da paisagem do centro histórico de Florianópolis e passavam desapercebidas. De junho para cá elas assumiram forma, cor, identidade e despertaram o interesse do cidadão, do fotógrafo, do transeunte. A transformação dos “rabiscos” em arte foi registrada pelo professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Fernando Crocomo, pela primeira vez em 5 de junho deste ano. Era um retrato de João da Cruz e Sousa nascendo próximo à Catedral Metropolitana e ocupando as paredes alvas do edifício João Moritz.

Ao lado do Palácio (Museu Histórico de Santa Catarina), local que leva o mesmo nome do poeta, Rodrigo Rizo pintou a obra, em preto e branco, que soma 900 metros quadrados chamada de ‘Mural Cisne Negro’, compreendendo uma imagem do poeta, um cisne negro estilizado (que remete a alcunha do poeta de Dante Negro ou Cisne Negro) e o poema ‘Enlevo’.

O lançamento do mural será realizado nesta quinta-feira, 11 de julho, a partir das 18 horas, no jardim do Palácio Cruz e Sousa. A entrada é gratuita e haverá performance e leitura de poemas de Cruz e Sousa (1861 – 1898), ícone da literatura catarinense e precursor da poesia simbolista no Brasil.

Zilma Gesser Nunes, professora do Departamento de Língua e Literatura Vernáculas (LLV/UFSC), explica que a obra despertará a curiosidade da população pelo poeta, dadas as proporções e a localização da pintura. “Colocar Cruz e Sousa em um painel na Praça XV, é dar visibilidade para o poeta de maior expressão da literatura catarinense e um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. É uma dívida que se paga a Cruz e Sousa, que precisou, em 1889, transferir-se para o Rio de Janeiro, em busca de inserção literária. Homenagem tardia, mas merecida e necessária”.

Na UFSC, a obra de Cruz e Sousa é abordada pelo curso de Letras por meio da disciplina optativa “Literatura em Santa Catarina”, procurada por um número expressivo de estudantes interessados pelo tema. Para Nunes, tratar de Cruz e Sousa no curso é fundamental para a formação de futuros professores de Literatura. “Estamos formando propagadores, que poderão levar o nome do poeta e a boa literatura ao jovem estudante”.

Mural Cisne Negro começa a ganhar cores.

Nascido em 24 de novembro de 1861, em Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis/SC), Cruz e Sousa é um clássico da literatura brasileira. Poeta, jornalista, professor, o filho de ex-escravos enfrentou o preconceito racial, sendo recusado para o cargo de promotor público de Laguna (SC) por ser negro. Passou um período no Rio Grande do Sul e, após sofrer represálias, fixa residência no Rio de Janeiro. Em 1893 publica as obras ‘Missal’ (poemas em prosa) e ‘Broquéis’ (poesias), consideradas o marco inicial do Simbolismo no Brasil que perduraria até 1922 com a Semana de Arte Moderna. Cruz e Sousa falece em 19 de março de 1898, em Antônio Carlos, Minas Gerais.

“Rastreando a fortuna crítica de Cruz e Sousa, de 1893, data da sua primeira publicação, até hoje, percebe-se que muito se tem escrito sobre o poeta, especialmente a partir de 1961 com a edição da Obra completa, organizada por Andrade Muricy. Cruz e Sousa representa, para Santa Catarina, o orgulho de ser catarinense o maior poeta simbolista brasileiro, ao lado de grandes nomes como dos franceses Mallarmé e Baudelaire. Para a literatura brasileira, o movimento estético do Simbolismo, deu o passo significativo para a inauguração do Modernismo literário, que ganha expressão com grandes nomes posteriormente”, explica a professora Zilma, estudiosa das obras de Cruz e Sousa.

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Um dedo de prosa: projeto de extensão debate obra ‘Nós’, de Salim Miguel

20/11/2018 13:21

O projeto de extensão Um Dedo de Prosa realiza na quinta-feira, 22 de novembro, um encontro sobre a literatura catarinense no vestibular da UFSC, com a professora Luciana Rassier, do Departamento de Literatura e Línguas Estrangeiras (DLLE/UFSC), para debater a obra “Nós”, de Salim Miguel. O evento ocorre na Sala Hassis, no térreo do bloco B do Centro de Cultura e Expressão (CCE) da UFSC, a partir das 18h30.

A entrada é franca e não há necessidade de inscrição prévia.

Mais informações

Página do projeto de extensão Um dedo de prosa

 

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Cumplicidade como alicerce para a construção das narrativas literárias: e-book comemora 90 anos de Eglê Malheiros

13/11/2018 09:25

Eglê Malheiros em Salim Miguel. Salim Miguel em Eglê Malheiros. A escrita de um está viva na obra de outro, e vice-versa. Não há como desassociar que a fala, os traquejos e os trejeitos dos autores se mesclam em suas obras e são sentidos pelo leitor ao passar os olhos pelas palavras vivas dos escritores.

A cumplicidade é vívida a partir de janeiro de 1948 quando o poema de Eglê, “Nove badaladas repletas de luar…”, publicado na página 3, e o Editorial de Salim que salienta a publicação de ideias, compõem a primeira edição da Sul – Revista do Círculo de Arte Moderna. Os 14 textos publicados nessa primeira edição por jovens intelectuais catarinenses do Grupo Sul representam o debate de ideias em torno da literatura, com o sentido artístico, mas sem desvencilhar da visão crítica em torno de aspectos políticos, econômicos e sociais aos quais a sociedade local passava: “O homem moderno não pode ignorar, totalmente, a maravilhosa complexidade e as reais transformações da vida que o rodeia, nem as <realidades psicológicas> da sua própria vida. […] O Sul, que hoje apresentamos, em Florianópolis, se propõe, na medida das coisas possíveis, revelar os valores novos e acompanhar as ideias do mundo atual no campo da filosofia, da ciência, da cultura e, principalmente, no campo das letras e das artes”, diz o diretor Anibal Nunes Pires.

Ideias e literatura compuseram os 30 números da revista do Grupo Sul, finalizada em dezembro de 1957. Neles, a participação de Eglê Malheiros é constante e fundamental: “A Eglê e o Salim, e talvez mais um ou dois dos intelectuais, são as pessoas que atuaram do início ao fim da revista. Destaque para a Eglê, que é a única presença feminina do início ao fim”, revela Luciana Rassier, professora vinculada ao Departamento de Língua e Literatura Estrangeiras (DLLE) da UFSC e pesquisadora das obras do casal e do Grupo Sul desde 2004.

O e-book ‘Manhã e Outros Poemas’ é uma edição comemorativa aos 90 anos da autora que “reúne toda a sua obra poética: o material publicado em Manhã (seu primeiro e único livro no gênero, de 1952), na Revista Sul, em coletâneas ou na imprensa, como também poemas inéditos que estavam entre seus guardados”, revela o texto de apresentação da coletânea.

Disponibilizado em julho de 2018, o material foi organizado por Sônia Malheiros Miguel, filha do casal, e o projeto visual ficou a cargo da neta Atiaia Sant’Anna Miguel, que usou como inspiração a capa original de Manhã (1952) criada por Carlos Scliar. “O livro é resultado de uma produção caseira realizada com muito afeto, que envolveu filha e filhos, noras, netos e netas”, diz a apresentação do e-book, sendo que o levantamento, a garimpagem e a organização do material encontrado foram feitos por Sônia. Integram, ainda, a publicação três textos: um da nora Regina Dalcastagnè, um do filho Luis Felipe Miguel e outro do neto Jorge Luiz Miguel.
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Portal Catarina é lançado nesta sexta

07/10/2011 16:26
O maior banco de dados e acervo digital da literatura catarinense é o produto do trabalho de quatro anos do Núcleo de Pesquisa em Informática e Literatura (Nupill) e encerra o Seminário em Literatura Digital

Mais de duas mil obras de 312 autores da literatura catarinense já estão disponíveis no Portal Catarina. A inauguração do primeiro acervo digital de obras literárias do estado vai acontecer às 18h dessa sexta-feira, 7/10, na sala Aroeira do Centro de Cultura e Eventos da UFSC.  O lançamento do portal é seguido de mesa-redonda e coquetel, com a presença de intelectuais catarinenses e especialistas em ciberliteratura, e encerra o Seminário em Literatura Digital, promovido pelo Nupill e com o apoio da Secretaria de Cultura e Arte (SecArte).

A construção do Portal Catarina envolveu a participação de 25 alunos de graduação e pós-graduação dos cursos de Letras e Computação da Universidade. Também foi necessária uma parceria entre o Nupill e o Laboratório de Pesquisas em Sistemas Distribuídos (Laspesd), coordenado pelo professor Roberto Willrich.

O resultado foi o registro de informações de 4.399 obras e a digitalização completa de outras 2.579 de 312 autores catarinenses de todas as gerações, estilos e escolas literárias. As obras digitalizadas são de domínio público e estão disponíveis para download ou acesso pelo próprio portal.

Para concluir o acervo digital, o grupo incorporou os dados de todos os indicadores impressos existentes e acrescentou novas informações oriundas de árdua pesquisa. Entre as obras disponíveis para download, destacam-se as 30 edições da Revista Grupo Sul. A publicação marcou o movimento Modernista em Santa Catarina e era coordenada pelo escritor Salim Miguel.

O coordenador e fundador do Nupill, Alckmar Luiz dos Santos, destaca que o Portal Catarina está aberto à atualização permanente. “À medida que todos os dias nascem e morrem novos autores, torna-se um trabalho interminável”. O coordenador, que foi eleito em 2011 o representante do Centro de Comunicação e Expressão (CCE) no Prêmio Destaque Pesquisador, promovido pela UFSC, ainda reitera a importância da web na democratização do acesso à leitura.

“Um possível desdobramento do Portal Catarina será a possibilidade de os leitores enviarem resenhas das obras cadastradas, o que estimula o conhecimento das publicações de autores locais”. O mestrando em Literatura e bolsista do Nupill, José Jardim, lembra que o projeto foi o único na área de Ciências Humanas em Santa Catarina.  Agora o grupo busca a renovação do financiamento do projeto. José ainda se orgulha de participar da elaboração do único acervo digital no Brasil que privilegia a literatura de um Estado. Ele cita o poeta Luiz Delfino que, segundo ele, é um autor pouco publicado fora de SC e que agora  poderá ser lido por mais pessoas.

Incentivado há cerca de oito anos pelo já falecido professor de Literatura e ex-presidente da Academia Catarinense de Letras, Lauro Junkes, o projeto teve início em 2007 a partir de recursos do Pronex, oferecidos em edital no CNPq, no valor de 400 mil reais.

O Seminário

O coquetel de lançamento do Portal Catarina vai acontecer na sexta-feira, 7/10, no Centro de Cultura de Eventos (sala Aroeira, 2º piso) durante o Seminário em Literatura Digital. O evento vai abordar em dois dias a estatística literária, as novas ferramentas, acervos, bancos de dados e processos de incentivo à literatura no meio eletrônico. Além de debates, acontecerá estudo dos poemas do autor português Fernando Pessoa e análise de obras de autores como Monteiro Lobato, Ítalo Calvino e Milton Hatoum.

Na mesa de discussão do último dia estarão presentes os especialistas de literatura na web Saulo Brandão (UFPI), Alamir Aquino Correa (UEL), Wilton Azevedo (Mackenzie) Carlos Maciel (USP) e o representante do Nupill, Alckmar Luiz dos Santos.

Mais informações com professor Alckmar Luiz dos Santos: 3721-6590

Programação do Seminário em Literatura Digital:

6 de outubro

9h – Abertura – Alckmar Luiz dos Santos

9h-10h30 = Mesa Literatura digital

Rafael Soares Duarte – A página infinita das webcomics

Otávio Guimarães Tavares – Por um engenho e arte digital

Cristiano de Sales – Elementos de estética para literaturas digitais

Emanoel C. Pires de Assis – O texto na tela: processos de leitura

Everton Vinicius de Santa – Literatura e memória no papel e na tela

10h45-11h30 = Mesa A revista digital Mafuá

Isabela Melim Borges Sandoval
Silvio Somer
Jaqueline Sinderski Bigaton

11h30-11h45 = Palestra: Banco de dados digitais

Jonatam Matschulat

14h-17h Mesa Convidados

Alckmar Luiz dos Santos – Letras digitais

Wilton Azevedo – Artes digitais

Regina Corrêa – Língua e literatura digital

Alamir Aquino Corrêa – Literatura em meio digital

Carlos Maciel – Ferramentas estatísticas na leitura de obras literárias

Saulo Brandão – Experiências com leitura em meio digital

7 de outubro

9h-10h = Mesa Ferramentas digitais

Verônica Ribas Cúrcio – A estatística e a informática na leitura literária

Deise Freitas e Silvio Somer – Um dicionário digital de personagens literários

10h15-11h45 = Mesa Teoria do texto

José Carlos Jardim Jr. – Relato e comunidade interpretativa em Milton Hatoum

Cláudia Grijó Vilarouca – Espacialidades da narrativa de Perec, Cortázar e Calvino

Patrícia C. S. Ricarte e Júlia Telésforo Osório – Tendências modernas em continuidade na poesia do presente

Juliana C. Garcia – O caipira nas edições lobatianas

14h-15h30 = Mesa Acervos digitais

Tanay G. Notargiacomo – Nada a dizer: a senha como personagem

Ana Beatriz M. S. de Andrade – Maura de Senna Pereira e seu acervo

Isabel M. B. Luclktenberg – A Editora Mulheres e o espaço virtual

Ana Luíza Bazzo da Rosa – ENEM e a literatura

Zilma G. Nunes – Os acervos literários sob o olhar da Crítica Genética

15h45-16h45 = Mesa Ensino e Aprendizagem

Rosilei Girardello – Experiências de ensino – aprendizagem de literatura em meio digital

Isabela M. B. Sandoval e Emanoel C. Pires de Assis – Tratamento digital de obras literárias: Ontologia de termos de teoria literária

Emanoel C. Pires de Assis – Dlnotes: uma ferramenta de anotação em obras literárias

Adiel Mittmann – Megamneme: uma ferramenta de memorização do vocábulo

18h – Lançamento do Portal Catarina e Coquetel de encerramento


Por Gabriele Duarte/ Bolsista de Jornalismo na Agecom

Tags: literatura catarinensePortal Catarina

Chega às bancas Ecos no Porão, obra maior de Silveira de Souza

18/03/2011 19:03
Florianópolis é o cenário para uma legião de homenzinhos fazendo cooper com calções esdrúxulos, tristes velhos pederastas, velhinhos trovadores, desempregados, avozinhas, solteironas, aposentados, enfim, habitantes da vizinhança da Ilha onde pulsa um coração decrépito, murchando para a vida, que pode ser acordado de súbito por um pequeno incidente, a fuga de um canário ou uma rajada de vento. Mas Florianópolis não é mero pretexto para o quase octogenário escritor Silveira de Souza descrever o local onde nasceu e viveu. Mais do que isso, a Ilha é o “mundinho” onde se constituem essas “figurinhas ridículas” e apaixonantes do grotesco que vão ganhar dramaticidade e lirismo em Ecos no Porão, o segundo volume da antologia de contos de Silveira, que a Secretaria de Cultura e Arte e a Editora da Universidade Federal de Santa Catarina lançam na próxima terça-feira, dia 22 de março, às 10 horas, com a presença do autor, durante a Feira de Livros da UFSC e Liga das Editoras Universitárias, na Praça da Cidadania.

Esses habitantes ao mesmo tempo ordinários e excêntricos dos porões da ficção de Silveira, que podem estar no café, na Beira-Mar, na Praça XV, no Calçadão ou em quarto de hotel, carregam um traço em comum: todos experimentam o vazio da existência. Mas ao longo das 137 páginas são surpreendidos no automatismo banal do seu dia a dia urbano por sutis acontecimentos que anunciam possibilidades de passarem do mundinho para o “mundão” e conhecerem uma dimensão mais sublime da vida. E o que produz o acesso ao mundão? Uma sinfonia de Bethoven, um sonho ou um pesadelo, uma emoção inesperada, uma cena da memória, um abalroamento de carro, enfim, interferências mais ou menos perceptíveis que alteram o estado de coisas e, como em um poema hai kai, sugerem uma revelação.

Nem sempre os seres da Ilha percebem essas epifanias cujo deslinde o autor deixa a cargo da perspicácia e prazer do leitor, como anota bem o editor da obra, Sérgio Medeiros Vieira. “Em geral essas mudanças provocam os personagens momentaneamente, levando-os para a absoluta estranheza, mas não chegam a arrancá-los em definitivo do seu mundinho”, diz o diretor da Editora, que chama atenção para a delicadeza e a sofisticação da obra. É como se as possibilidades de sair do vazio estivessem por toda parte, mas os habitantes não se dispusessem a enxergá-las.

A exemplo do primeiro volume, Ecos no Porão II traz na capa a ilustração de um grande artista plástico catarinense, neste caso uma instalação de Fernando Lindote. Em papel pólen, a obra reúne três seleções do próprio autor dos livros Canário de assobio (1985), Relatos escolhidos (1988), Contas de vidro (2002) e ainda cinco contos inéditos, entre eles a narrativa metalinguística “Ecos no porão”, que dá nome à obra e traduz uma metáfora de Silveira para as deformações estilísticas da leitura dos escritores clássicos que inundam seu imaginário desde os dez anos de idade. Vendidas com desconto de 50% durante a Feira EdUFSC/LEU (R$ 15,00), que se estende até o dia 8 de abril, na Praça da Cidadania, os dois volumes apresentam-se, assim, no crivo do escritor e do editor, como o melhor da safra de Silveira.

Os personagens velhos passeiam por grande parte dos contos, mas assumem uma expressividade absoluta em “Vidraças partidas”, onde a decrepitude ganha um lirismo refinado na tentativa de sublimar o vazio através do amor sexual por um jovem. Todavia, em “O olho de Deus”, uma carta assinada aos efebos por mais um velho – funcionário público – aturdido pelo vazio, Silveira alcança um domínio da linguagem que fica à altura da ironia de Franz Kafka no conto “Convenção à Academia”.

Volta e meia Paulo, uma espécie de superego do autor passeia pelas narrativas. Ele mesmo um senhor de baixa estatura e calvo, e conversa franca e elevada, como o homenzinho de “olhinhos afiados” e “face rechonchuda” do conto “He, He, He, He!”, da coletânea Contas de vidro. Como se acometido de uma inspiração sublime, o baixote interrompe a reunião de engravatados executivos encafifados com o planejamento publicitário da empresa para contar um episódio bizarrísimo envolvendo os índios e índias tupinambás e Jean de Léry, missionário francês que narrou sua visita ao país por volta de 1557 na obra Le voyage au Brésil. Em seu relato aparentemente nonsense, o homenzinho exalta “um canto sublime, de extraordinária beleza”, que se produz inicialmente de um murmurante “he, he, he” entre os varões da tribo e contagia o coro das mulheres até assumir a proporção de um canto catártico. O personagem é calado pela perplexidade desdenhosa dos executivos, que retomam sua reunião sem se dar conta do caráter revelador da intempestiva história.

E assim, com sua habilidade inigualável com a língua, uma boa dose de humor e ironia e um olhar lírico para o grotesco, Silveira parece rir-se baixinho ao final de cada história onde reside uma possibilidade de revelação que nunca se entrega sem esforço do leitor… E é como se ouvíssimos os ecos longínquos do seu “he, he, he…” por trás de cada um dos 28 contos.

ENTREVISTA

A Ilha e seus habitantes na ficção de Silveira de Souza

Considerado pelo escritor Salim Miguel um dos maiores contistas brasileiros da atualidade, Silveira publicou O cavalo em chamas (Ática 1981) e Janela de varrer (Bernúncia, 2006). Como contista e tradutor de autores universais, participou ativamente do Grupo Sul, movimento que trouxe o Modernismo para Santa Catarina nos anos 40 e 50.  Aposentado do serviço público, desenvolveu sua carreira literária em meio à rotina de diversas funções, de professor de matemática do Instituto Estadual de Educação e da Escola Técnica Federal de Santa Catarina, a diretor da Divisão de Informação e Divulgação do Departamento de Extensão Cultural da UFSC. Também atuou no setor de editoração da Fundação Catarinense de Cultura como coordenador das Edições FCC. De mãos ágeis e tão falantes quanto seus contos, mais falantes do que ele próprio, Silveira, concedeu esta entrevista:

O que norteou esta seleção de contos do segundo volume de  Ecos no Porão e o que a diferencia do anterior?

— O plano geral que norteou a preparação de Ecos no Porão, volumes I e II, foi proporcionar uma seleção dos que considero meus melhores textos publicados em livros, desde 1960 até o presente. A única pequena diferença que existe no segundo volume, em relação ao primeiro, é que ele contém alguns relatos inéditos e outros que fizeram parte de coletâneas com outros autores.

Percebe-se em todos os contos uma consciente localização do cenário de Florianópolis que vai muito além do mero retrato ou panorama da cidade pelo escritor. Em que tipo de intenção estética se inscreve essa presença geográfica de Florianópolis na sua ficção?

— De fato, Florianópolis é o cenário de todos os relatos. Por não se tratar de um guia turístico, mas de um livro de ficção literária, o leitor não vai encontrar descrições pormenorizadas ou exaltações entusiásticas a respeito de suas paisagens e recantos pitorescos. O que existe são apenas brevíssimas indicações dessa geografia, integradas à ação e à mente dos personagens. Foi minha intenção que esses personagens se comportassem como habitantes de uma ilha, que a ilha fosse, indireta ou inconscientemente, um componente importante de sua psicologia. Creio que isso diferencia um tanto os meus relatos dos relatos de autores de outros estados.

Alguns elementos naturais marcantes de Florianópolis também são recorrentes na narrativa, como o vento, o mar, as aves. Parece que você dá aos elementos inumanos uma vida e uma participação muito mais específica e marcante do que a de mero cenário para expressão do universo humano…

— Pode ser algo ilusório, mas sempre achei que as ilhas, e em especial a nossa Ilha de SC, propiciam uma aproximação maior do universo humano com outros universos, como o universo de seres inumanos (o mar, os ventos) e o universo de outros viventes, como os peixes, as aves, os insetos, os pássaros, as árvores e os bosques.

Apesar da aparente banalidade de suas vidas, os personagens sempre ganham a possibilidade de uma anunciação ou de uma revelação. Nem sempre se dão conta dessas possibilidades e nem sempre elas têm a força de arrancá-los do seu mundinho… O que você diz sobre isso?

— Na verdade não sei se a minha vida é banal, ou se o mundo de minha literatura é banal. Faz algum tempo que deixei de qualificar as coisas. Quando às vezes tento fazer uma retrospectiva da minha vida até o momento, me dou conta que ela foi pontilhada de fases diversas e até mesmo contraditórias; uma, extremamente tumultuada, com muita bebida, fumaça, cortinas vermelhas e anarquias boêmias; outra (como na infância) cheia de descobertas maravilhosas; outra, tediosa e presa às obrigações sem muito sentido, que eu precisei encarar para poder comprar, como disse certa vez Tom Jobim, “o uisquinho das crianças”; e ainda outra (como presentemente), tranquila e voltada para o estudo e a meditação. Mas, banal ou não, houve algo em todas essas fases que me salvou de um mergulho na mediocridade absoluta: um interesse pela criação literária, que me acompanha desde a infância. Quanto a meus relatos literários os personagens em geral vivem nesse mundinho, sem heroísmos, sendo muitas vezes surpreendidos por (para eles) estranhas ocorrências que podem despertá-los para uma dimensão de suas vidas antes desconhecida.

Ainda que voltado para as delicadezas da existência e da alma, os contos sempre iniciam com cenas concretas, personagens que têm vida corpórea própria, para que depois se deem as abstrações e possibilidades de reflexões filosóficas. Está aí uma escolha estética consciente?

No meu caso, não houve escolha. O modo como escrevo os meus relatos foi nascendo naturalmente, seja como resultado de constante exercício, seja como uma visão muito pessoal do mundo (e da criação literária ou da criação de modo geral), que foi nascendo com a vivência e com as impressões causadas no contato com obras de grandes ficcionistas, com pinturas, músicas, revistas diversas, cinema, paisagens, pessoas, bichos, mil coisas.

E qual o lugar da velhice nos seus contos. Pode comentar que traço há em comum nesses personagens aparentemente reféns da solidão e da decrepitude?

O velho do conto Vidraças partidas (que considero o meu  conto melhor realizado) é um caso especial. Ele existiu, costumava passear pela Felipe Schmidt, de terno e gravata, nos anos 1960, usando um chapéu de feltro. Pensei nele, na sua figura, quando pintou o tema do relato, uma experiência de extrair algo lírico de um comportamento que normalmente se julga degradante.

Você  faz uma literatura ao mesmo tempo densa e econômica, como poucos contistas. Como chegou a essa síntese e que autores o influenciaram nessa escolha estética?

— Harold Bloom escreveu que toda a escritura é uma espécie de releitura. Se ele estiver certo, devo dizer que leio desde os dez anos de idade (estou hoje beirando os 78). Em todo esse tempo, passei por períodos de leitura em que determinado autor, às vezes determinados autores, monopolizavam a minha preferência. Posso citar alguns deles: Monteiro Lobato e Hans Christian Andersen, lá entre os dez e 12 anos. Depois, com o tempo, foram surgindo: Machado de Assis, Anton Checov, Dostoievski, Clarice Lispector, Kafka, Dyonélio Machado, Joseph Conrad, James Joyce, Thomas Mann, William Faulkner, Guimarães Rosa, Cortazar, Jorge Luis Borges, H.P. Lovecraft e mais alguns outros. Nem vamos falar de poetas, de compositores, de alguns desenhistas e pintores, e de alguns diretores de cinema. É provável que todos eles, de algum modo, tenham deixado alguma marca, numa frase, na estruturação de uma determinada estória, na caracterização de um dado personagem. Mas essa é uma praia para os críticos literários.

Alguns escritores, como Salim Miguel, o consideram o maior escritor catarinense da atualidade e um dos melhores contistas do Brasil. O que pensa disso?

— Não tenho como responder a isso. Mas devo dizer que, desde 1960, quando publiquei O Vigia e a Cidade, até agora, o propósito real ao escrever os meus relatos foi conseguir realizar algo que me satisfizesse interiormente, do ponto de vista de uma criação estético-literária. Nunca me interessou ser, como autor, maior ou menor, principalmente num momento em que Santa Catarina tem, residindo aqui e fora daqui, um conjunto de poetas e escritores de primeira linha, como o próprio Salim.

Texto e entrevista: Raquel Wandelli – assessora de comunicação da SeCArte/UFSC

e

Fones: 37219459 e 99110524

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