Egresso lança livro infantojuvenil sobre Mata de Araucárias a partir da tese de doutorado

07/12/2023 11:34

Um pássaro garimpeiro, uma coruja branca, uma onça. As ilustrações do livro Uma Aventura pela Mata de Araucárias são a imagem daquilo que um dos seus organizadores, doutor pela UFSC vinculado ao Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica (ECOHE), identificou  como parte da Floresta de Araucárias enquanto fazia sua tese. As impressões e o lugares foram compartilhados com estudantes da Faculdade Municipal de Educação e Meio Ambiente (Fama), no Paraná, e Mário Tagliari teve a ideia de reuni-las em livro.

O trabalho foi feito com alunas do curso de Pedagogia e registram um pouco da história que o acompanhou como cientista. A obra é voltada para o público infantojuvenil, a partir do nono ano, e está disponível gratuitamente. Foi pensada como contrapartida para a pesquisa desenvolvida na UFSC, algo que é comum no ECOHE.

Trata-se, segundo a apresentação do livro, de um resgate de memórias, aprendizados, vivências, campos, viagens solitárias e entrevistas que se estenderam entre 2012 até 2019, no período em que Tagliari conheceu e conviveu com inúmeras famílias que há gerações estão inseridas na realidade do uso do pinhão, recurso indissociável da araucária.

Toda esta jornada era compartilhada e discutida com o orientador no doutorado, Nivaldo Peroni, também organizador da obra, e com a professora Natália Hanazaki, líder do Ecohe. Gisele Moreira dos Santos também integra o grupo de organizadores da obra”Os inúmeros acontecimentos narrados de maneira fantasiosa neste livro, não são apenas ficção. Esta obra serve para evidenciar um mundo em que poucas pessoas param para pensar: ‘Quem está por trás deste processo?’. É uma satisfação poder narrar alguns acontecimentos maquiados com a liberdade criativa”, explicam os autores na apresentação.

As ilustrações foram produzidas por uma estudante de Ciências Biológicas da UFSC, Letícia Lidia Voltolini. Os quatro capítulos reúnem diferentes autorias. Mario lecionou uma disciplina optativa sobre tópicos socioambientais e dividiu as aulas em discussões teóricas e na criação do livro, cujo pano de fundo eram os lugares que ele tão bem conhecia e uma dose de fantasia.

As temáticas ligadas às comunidades tradicionais e problemáticas sociambientais também constróem o livro, que lança um olhar lúdico e técnico sobre uma das paisagens mais importantes do Brasil. A obra traz seções com indicações de leitura para quem quiser se aprofundar nos temas.

O pano de fundo e toda a história são contadas a partir de um olhar científico e sociambiental para a Mata das Araucárias, com destaque, por exemplo, para unidades de conservação. A cultura da extração de pinhão e a identidade sociocultural de agricultores familiares no sul e sudeste do Brasil também são centrais.

 

Uma Aventura na Mata de Araucárias – completo: baixe aqui

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Tags: ecoheFloresta de AraucáriasLaboratório de Ecologia Humana e EtnobotânicaUma Aventura pela Mata de Araucárias

Diversidade biocultural é tema de curso para professores do ensino básico

22/09/2021 08:58

Estão abertas as inscrições para o curso on-line Diversidade biocultural na escola, voltado a professoras e professores do ensino básico e demais interessados no tema. As aulas ocorrem de 16 de outubro a 20 de novembro pela plataforma Even3 e serão transmitidas online pelo canal do Youtube do Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica (Ecohe) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que organiza a ação em parceria com o projeto Semear Ideias: Praticar Sustentabilidade da Faculdade Municipal de Palhoça e a regional sul da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até 12 de outubro pelo site even3.com.br/bioculturalnaescola/.

O curso tem um total de 30 horas, sendo 16 horas de encontros síncronos e 14 de atividades remotas. As aulas on-line compreenderão quatro encontros aos sábados, das 8h às 12h, nos dias 16 e 23 de outubro e 6 e 20 de novembro. Já a carga horária de atividades remotas será destinada ao estudo de materiais complementares, como textos, vídeos e podcasts, e à elaboração de um plano de aula como atividade final. Quem tiver ao menos 75% de presença nas atividades terá direito a certificado. 

A live de lançamento do curso e do livro Diversidade biocultural na escola foi realizada em 14 de setembro e está disponível no Youtube. Mais informações na página do curso ou pelo e-mail bioculturalnaescola@gmail.com.

Tags: Ensino Básicoformação de professoresLaboratório de Ecologia Humana e EtnobotânicaUFSCUniversidade Federal de Santa Catarina

Aumento na sazonalidade das temperaturas pode extinguir espécies, aponta estudo da UFSC com repercussão internacional

15/09/2021 16:19

A possibilidade de extinção de quatro das sete espécies de baobás – árvore nativa da África – em Madagascar, no Sul do continente, e as implicações da variação na sazonalidade das temperaturas num cenário de agravamento das mudanças climáticas globais levaram uma pesquisa realizada na Universidade Federal de Santa Catarina, em parceria com uma instituição francesa, às páginas da Global Change Biology, um importante periódico da área. O estudo também repercutiu no jornal francês Le Monde, um dos mais tradicionais da Europa.

População de Adansonia suarezensis ao norte de Madagascar. Foto: Mário Tagliari

O conceito de sazonalidade, um dos mais importantes para as descobertas da equipe, se refere à variação média entre as temperaturas mínimas e máximas de cada mês, ao longo de um ano. Antes de aplicá-lo ao modelo, os pesquisadores não imaginavam que esse fator poderia ser crucial para a redistribuição das espécies e que seu impacto poderá ser semelhante em todas as regiões da faixa tropical, inclusive na Amazônia.

O estudo é assinado pelo doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFSC Mário Tagliari, pelo cientista Ghislain Vieilledent (CIRAD – França) e por Vítor Carvalho-Rocha, também doutorando em Ecologia na UFSC. Os pesquisadores foram a campo e utilizaram um banco de dados e imagens de satélite para agrupar informações e alimentar um modelo de nicho ecológico que prevê a distribuição das espécies a partir de diferentes variáveis ao longo do tempo.

De acordo com o estudo, quatro das sete espécies de baobás que ocorrem em Madagascar poderão desaparecer até 2100. “Três espécies estão fortemente ameaçadas devido a um aumento da sazonalidade da temperatura, ou seja, a variação média entre as temperaturas mínimas e máximas de cada mês, ao longo de um ano”, explica Tagliari, orientando do professor Nivaldo Peroni, do Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica da UFSC.

Esse aumento da sazonalidade foi previsto para uma grande parte da faixa latitudinal tropical, o que pode ameaçar diversas espécies da região. Para se ter uma ideia, conforme a pesquisa, as diferenças médias entre as temperaturas de um mês e outro são inferiores a 3°C, mas as previsões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) apontam para um aumento desta variação até +1°C, até 2100. “Para se adaptar a essas condições, inúmeras espécies tropicais deverão migrar em direção a Linha do Equador (a linha imaginária que divide a Terra em dois hemisférios, ou que está na Latitude 0°), onde as variações da temperatura serão menos acentuadas”, explica o pesquisador.

A sazonalidade no presente (a) e a variação da sazonalidade da temperatura no futuro (b).

 

As espécies Adansonia madagascariensis, Adansonia perrieri e Adansonia suarezensis, por exemplo, correm o risco de desaparecer. Segundo Tagliari, para se adaptarem ao aumento da sazonalidade, elas deverão – de acordo com os modelos climáticos desenvolvidos pela pesquisa– se redistribuírem para ainda mais ao norte da ilha, ou seja, em direção a linha Equador. “Ocorre que os limites geográficos da ilha impedem a dispersão destas espécies nesta direção, pois simplesmente há apenas o Oceano Índico no horizonte. Consequentemente, é plausível que as espécies sejam extintas”, ilustra.

Adansonia madagascariensis

 

Os resultados do estudo mostram também que nem todas as espécies irão migrar em direção ao Pólo Sul ou a maiores altitudes devido ao aumento da temperatura média associada às mudanças climáticas. Isso ocorre pois, quando a temperatura média é a principal variável por trás da distribuição de determinadas espécies, é possível inferir que no futuro elas estejam em direção aos pólos e nas maiores altitudes, onde estarão as temperaturas mais amenas.

No entanto, quando outras variáveis atuam como principais na explicação da distribuição das espécies o padrão pode ser diferente do esperado. “No caso da sazonalidade, que é essa variação na temperatura média, espera-se que as espécies migrem em direção a linha do Equador, pois é nessa faixa tropical que a sazonalidade da temperatura será mais amena para as espécies no futuro”, reforça o pesquisador.

Para a ciência, trata-se de um dado relevante, já que implica dizer que outras variáveis abióticas além da temperatura média podem ser importantes para explicar a distribuição de determinada espécie no futuro. “Estratégias de mitigação para conservação de espécies e ecossistemas em um mundo sob mudanças do clima devem investigar quais variáveis abióticas estão por trás dos padrões de distribuição das espécies e como elas influenciam na redistribuição da flora e fauna”, completa o pesquisador.

De Madagascar para o Brasil

Tagliari tem a ilha africana como interesse de estudo desde quando fez mestrado na França. O estudo dos baobás começou também a partir do interesse em fazer um trabalho de campo naquela região, além de ampliar o domínio dos modelos ecológicos de nicho, que predizem onde as espécies devem estar no futuro. “Madagascar é considerado um hotspot, uma área muito vulnerável, desmatada. Aonde você vai no país você vê bichos e plantas endêmicas. E também muita pobreza, o que gera uma combinação caótica”, explica.

Apesar de trazer dados a respeito de espécies no continente africano e de um país distante do Brasil, as implicações do estudo permitem generalizações em outras regiões tropicais, podendo ser replicado no contexto brasileiro com suas espécies endêmicas nos seus também ameaçados biomas nacionais. “Mostramos que as espécies não estão respondendo ao aumento da temperatura média, mas à essa variação da sazonalidade. Foi uma surpresa e decidimos replicar o estudo para outras regiões tropicais no mundo”, contextualiza Tagliari.

O estudo prevê graves problemas no processo de redistribuição das espécies tropicais que poderão ser observados nos biomas brasileiros, como a Amazônia, Cerrado ou Mata Atlântica. “Caso haja barreiras que impeçam a migração das espécies, como áreas desmatadas, rodovias e/ou áreas convertidas para a agricultura, as espécies poderão perecer com a rápida mudança do clima ao estarem sem possibilidade de se redistribuir, independente da direção. Os impactos também poderão ser sentidos em outros habitats insulares nos trópicos. A exemplo de Madagascar, se essas espécies estiverem no limite das ilhas, para onde elas irão migrar?”, questiona. Nestes casos, o risco é de que haja extinção.

Mais de vinte anos coletando dados por Madagascar

O estudo se apoiou em uma base de dados gigantesca com mais de 240.000 pontos de ocorrência das diferentes espécies de baobás. Tais dados vêm sendo coletados na região desde o início dos anos 2000, com um trabalho de identificação de imagens de satélite para reconhecer os indivíduos de baobás de determinadas espécies. Todos estes dados estão livres e disponíveis para download no repertório do Cirad – França.

“Convém lembrar que este artigo foi elaborado por autores que concordam fortemente com o acesso livre de dados. Todos os códigos para gerar as figuras (tabelas também, mas com uma ligeira adaptação) tal qual estão no artigo publicado estão também disponíveis no site GitHub. Nós estamos há cinco anos criando o código que deu vida a este estudo. Sintam-se livres para usá-lo”, reforça Tagliari.
Amanda Miranda/Jornalista da Agecom

Tags: Baobás de MadagascarGlobal Change BiologyIPCCLaboratório de Ecologia Humana e Etnobotânicamudanças climáticas globaisPPG Ecologia

Pesquisa identifica como as questões de gênero se relacionam ao conhecimento tradicional em comunidades quilombolas

03/08/2021 10:00

Com uma abordagem etnobotânica, incluindo aspectos históricos e culturais, pensando também nas relações de gênero, a pesquisadora Daniele Cantelli, mestra pelo programa de pós graduação em Biologia de Fungos, Algas e Plantas, da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGFAP/UFSC), produziu a dissertação Influências do gênero nos conhecimentos tradicionais vinculados à biodiversidade: estudo de caso em comunidades quilombolas de Santa Catarina. Os resultados identificam os conhecimentos ancestrais sobre plantas nativas em quatro comunidades quilombolas de Santa Catarina: Aldeia, Morro do Fortunato, Santa Cruz e São Roque, com destaque para a última. A pesquisa está vinculada ao projeto O conhecimento e o uso das plantas por comunidades Quilombolas de Santa Catarina, do Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica, coordenado por sua orientadora, a professora Natália Hanazaki.

“Já existia o projeto que estudava territórios quilombolas em Santa Catarina, precisávamos de mais informações sobre a comunidade São Roque e, como a UFSC já tinha um acordo de cooperação em andamento com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), que, por sua vez, estava avançando no termo de compromisso com a comunidade, isso facilitou o processo de aproximação e parceria com a comunidade”, relata Daniele, sobre o processo de escolha do local do estudo de campo. As outras comunidades já tinham sido parceiras em projetos anteriores no laboratório, e Daniele utilizou dados que já haviam sido coletados.

Vista da comunidade de São Roque. Imagem: Danilo Barreto

Com a inserção na comunidade São Roque, era o momento de conhecer a memória biocultural do local, isto é, as práticas e crenças que dão vida aos conhecimentos tradicionais daquela comunidade. As pesquisadoras são enfáticas quando se referem a esses conhecimentos como algo que se deve valorizar e reconhecer, visto que a relação dos povos originários e tradicionais com a natureza carrega uma história de proximidade, afeto e proteção.

As coletas de dados e saídas a campo mensais ocorreram entre 2018 e 2019, com o apoio, acompanhamento e alojamento do ICMBio. “As saídas a campo eram a melhor parte do trabalho, pois fez com que estabelecêssemos uma forte relação com a comunidade”, conta. O resultado das pesquisas reforçaram parte da hipótese inicial, que associava os conhecimentos das mulheres sobre plantas de jardins e outras áreas próximas às residências ao seu uso alimentar e medicamentoso. Já os saberes masculinos eram mais relacionados ao uso das espécies encontradas nas matas e na roça. 

Para chegar aos resultados, 19 mulheres e 25 homens da comunidade São Roque foram entrevistados. Considerando apenas as plantas nativas da Mata Atlântica, os homens citaram 71 espécies diferentes, já as mulheres, 27. Elas falaram mais sobre herbáceas, que crescem mais na beira de estradas, terrenos e quintais. Já os homens citaram mais arbóreas encontradas nas matas. Essa amostragem, segundo o estudo, reforça os papéis e dinâmicas ligadas ao acesso a ambientes e responsabilidades atribuídas socialmente a cada gênero. Dessa forma, é possível compreender como as questões de gênero se associam aos conhecimentos tradicionais e à organização social e familiar das comunidades. 

As plantas mais citadas pelos entrevistados foram da família Myrtaceae, para fins medicinais, alimentícios, lenha e madeira. Os frutos das Pitangueiras, Guabirovas, Araçás, e Jabuticabas foram mencionados para alimentação in natura ou em geléias. Algumas dessas espécies são usadas também para chás que tratam dores. Para construções e lenha, o uso da Batinga e do Cambuim são predominantes. Ainda foram amplamente citadas tanto por homens quanto mulheres, o Cipó Pata-de-Vaca, Pata-de-Boi, Açoita-Cavalo, Cipó Milome, Canjerana, Guavirova, Pau-pra-tudo, Quina, entre outras.

Um outro aspecto relevante da pesquisa foi que, na comunidade de São Roque, as plantas medicinais são conhecidas e utilizadas de forma equânime tanto por homens quanto por mulheres. Além disso, dois irmãos são referência entre o povo no que diz respeito ao conhecimento sobre plantas medicinais. Dirceu Nunes da Silva e Vilson Omar da Silva ministraram uma oficina sobre plantas medicinais em uma etapa do estudo e relataram para as pesquisadoras que muitos dos conhecimentos aprendidos tiveram origem em figuras maternas, por meio da linguagem oral. 

Para a pesquisadora, isso demonstra a força da oralidade no que diz respeito ao repasse do conhecimento ancestral. É por meio do saber oral que as questões bioculturais e suas riquezas não morrem com o passar dos séculos.

São Roque

São Roque é uma das três mil comunidades quilombolas do país e atualmente abriga em torno de 25 famílias. Localiza-se na divisa dos municípios de Praia Grande, em Santa Catarina, e Mampituba, no Rio Grande do Sul. Seu território tem histórico de ocupação pela comunidade desde 1824 e está associado ao trânsito de escravos que cultivavam na planície costeira. O local abriga a população remanescente de quilombo que  luta pelo reconhecimento de sua identidade étnica cultural específica e que  reivindica a manutenção e posse, por pertencimento, da sua territorialidade.

A comunidade possui sete mil hectares -mais de um terço dela é considerada unidade de conservação e abriga os Parques Nacionais Aparados da Serra e Serra Geral, criados nos anos 1960 e 1990. Mas apenas em 2013 a comunidade, ICMBio e Ministério Público Federal regulamentaram por meio de Termo de Compromisso o uso e o manejo nas áreas de sobreposição entre o território e as áreas de preservação.

Devolutivas e os caminhos da ciência e pesquisa

Moradora da Comunidade São Roque Imagem: Danilo Barreto

A expectativa de Daniele e Natália é que o fim da pandemia traga a possibilidade de levar à comunidade de São Roque parte do que foi desenvolvido nas pesquisas. “Estamos em busca de editais de financiamento para produzir uma mostra e livro fotográfico com as imagens e registros que fizemos de lá em parceria com o fotógrafo Danilo Barreto. Acreditamos que essa é uma forma de devolutiva que expõe nosso agradecimento e reconhecimento pelas pessoas e a comunidade”, pontuam as pesquisadoras. 

Elas acreditam que a pesquisa e a ciência são elementos essenciais para o desenvolvimento do país e recordam as dificuldades enfrentadas no decorrer do projeto, como a falta de financiamento próprio, que complementaria as estratégias de apoio recebidas do programa de pós-graduação e da equipe do ICMBio. As pesquisadoras ainda refletem sobre a forma com a qual se produz ciência e que ciência o futuro nos reserva. “Nosso trabalho reforçou a necessidade de respeito aos povos originários e comunidades tradicionais, e a pandemia nos mostra que os povos tradicionais são ainda mais vulneráveis. O desafio daqui pra frente é produzir conhecimento com ainda mais respeito e responsabilidade pela natureza pois nada mais será como antes”, finaliza Daniele.

Klay Silva/Estagiária de Jornalismo da Agecom/UFSC

Tags: etnobiologiaLaboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica

Pesquisa da UFSC aponta que preservação da araucária é mais eficiente quando comunidades locais participam

11/05/2021 10:08

Fotos do acervo do pesquisador

Uma pesquisa realizada no Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica da Universidade Federal de Santa Catarina aponta o manejo colaborativo como a estratégia mais eficiente para garantir a preservação e a sustentabilidade da Floresta das Araucárias, um dos principais ecossistemas presentes no sul e sudeste do Brasil. No artigo Collaborative management as a way to enhance Araucaria Forest resilience, publicado pela revista Perspectives in Ecology and Conservation, o doutorando do Programa de Pós-graduação em Ecologia, Mario Tagliari, apresenta dados que reforçam a perspectiva de que a interação entre comunidades locais e um determinado ecossistema pode resultar em um sistema resiliente. O trabalho faz parte da tese orientada pelo professor Nivaldo Peroni.

O estudo contou com 97 entrevistas de pequenos proprietários entre os estados do Sul do Brasil e uma região de São Paulo próxima a Serra da Mantiqueira para entender como ocorre o uso e manejo das árvores da espécie Araucaria angustifolia, popularmente conhecidas como araucária – a árvore do pinhão. A proposta era entender esta interação e construir um modelo teórico que contrastasse com um modelo clássico de preservação: o modelo top down, que utilliza as Unidades de Conservação e a legislação rigorosa como estratégia. Desta forma, o bottom-up incluiria comunidades locais que usam e manejam os recursos da Floresta de Araucárias por meio do conhecimento ecológico tradicional ou TEK – Traditional Ecological Knowledge.

O caminho para que o pesquisador chegasse a esse objeto de estudo está ligado a suas origens. Natural de Pato Branco, Paraná, ele cresceu acostumado com a paisagem da floresta das araucárias. Mas foi em 2012, depois que começou a estudar as variedades de pinhão na região de Urubici, que o contato com os pequenos agricultores lhe fez perceber pontos relevantes sobre a interação entre grupos humanos e uma das árvores mais tradicionais do Sul. “A principal espécie dessa mata é a Araucária, que não só caracteriza a paisagem como estrutura toda a biodiversidade que está abaixo dela, além de ser fundamental para a subsistência de inúmeros pequenos agricultores na região”, explica.

Tagliari explica que, no caso da fauna, desde o homem até espécies de grande porte dependem do recurso quando a árvore produz o pinhão. “Cutia, veado-catingueiro, paca, macaco-prego, bugio-ruivo, gralha-azul; temos também o papagaio-roxo e o papagaio-charão que vêm na sua rota migratória em busca do pinhão. Trata-se de uma espécie-chave ecológica fundamental para a manutenção desse ecossistema, central para tudo”, pontua.

Estratégias de preservação podem gerar impasse

O pesquisador conta que essa centralidade para a biodiversidade local somada à exploração madeireira desordenada ao longo do século XX faz com que a Araucária seja protegida por políticas ambientais. Além das Unidades de Conservação, geridas pelo estado, e Reservas Particulares do Patrimônio Natural – áreas privadas cuja abrangência é integralmente voltada para a Conservação-, existem ainda as Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanentes (APPs). A primeira refere-se à uma porcentagem obrigatória em áreas privadas destinadas à conservação, geralmente 20% na região da Floresta de Araucárias. Já as APPs são áreas com limites de uso e exploração que podem estar dentro de uma propriedade privada.

Conforme o estudo, nestas áreas privadas voltadas à conservação pode emergir um dilema envolvendo comunidades socioeconomicamente vulneráveis. “O impasse tende a ocorrer quando a legislação é rígida. Além das áreas obrigatórias destinadas à preservação da biodiversidade, as araucárias ainda pequenas podem ser cortadas em áreas cultiváveis para que depois não ‘atrapalhem’ o uso alternativo do solo, seja com cultura de alimentos, como milho e mandioca ou pecuária, já que são protegidas. Surge um impasse socioambiental e econômico porque essas pessoas têm um papel fundamental na preservação da espécie, mas ao mesmo tempo não são valorizadas pela manutenção da espécie”, explica.

Esse impasse só não seria maior devido à importância econômica do pinhão, que movimenta milhões de reais a partir do uso e manejo de mais de 8000 toneladas por ano. Na pesquisa, os autores também identificaram que o repasse proveniente da comercialização é menor na base da cadeia: ou seja, quem extrai e coleta é o grupo que menos recebe. “Curiosamente, o que as pessoas pouco sabem é que o pinhão que encontramos no mercado ou compramos na beira das estradas do RS, SC e PR é quase que inteiramente coletado via extrativismo”, comenta o doutorando. Isso significa que os pequenos agricultores ou coletores de pinhão desempenham um trabalho quase artesanal: escalam as araucárias, derrubam as pinhas – que são as estruturas que contêm os pinhões – e colhem manualmente as sementes boas para consumo.

O estudo registra que a legislação brasileira proíbe qualquer forma de extração de araucária, salvo raras exceções que permitem o manejo controlado. Além disso, as áreas estritamente protegidas podem excluir os povos locais e indígenas da participação na conservação da biodiversidade. Há, neste sentido, uma ‘barreira psicológica’ que pode motivar uma decisão com custo ambiental por parte dos proprietários de terras com araucária: ao mesmo tempo que a preservação é exigência legal, ela leva o pequeno produtor a se questionar sobre o quanto a manutenção da espécie pode inviabilizar outros usos da propriedade para sua subsistência.

Participação promove ganhos

O modelo teórico proposto pelo estudo utiliza as entrevistas que mapeiam o saber ecológico tradicional dos pequenos proprietários e um vasto repertório bibliográfico para entender qual a importância desses agentes para a manutenção das matas. “Estas estratégias, desenvolvidas em conjunto com grupos humanos locais por meio do compartilhamento de decisões entre governos, instituições e usuários de recursos, têm maior probabilidade de produzir benefícios para o sistema socioecológico como um todo”, anotam os cientistas, no texto do artigo.

No comparativo entre os dois modelos de preservação – sem e com a participação das comunidades, a análise conclui que sem a participação é possível que se crie barreiras entre grupos humanos e a prioridade de preservação, além da perda do saber local e da resiliência socioecológica. Com isso, o sistema também continua vulnerável a pressões externas, como o desmatamento, ou até mesmo ineficaz frente às mudanças climáticas.

Em contrapartida, benefícios do manejo colaborativo podem resultar no comércio de pinhão sustentável, no turismo sustentável e em modelos que utilizem Programas de Pagamento por Serviços Ambientais, nos quais grupos de pequenos agricultores possam ser compensados pela manutenção dos remanescentes da floresta. “Acredita-se que até 33% dos remanescentes de toda a Floresta de Araucárias estejam nas Reservas Legais, enquanto apenas 10% estejam inseridos em Unidades de Conservação e Reservas Particulares”, indica o pesquisador.

Há, ainda, um potencial de conservação de remanescentes de Floresta com Araucária nas propriedades rurais com a possível recuperação e expansão de Florestas de Araucárias. “Nosso modelo tenta prever como seria para a mata a possibilidade de um manejo colaborativo. Manter a floresta preservada e o conhecimento tradicional dos pequenos proprietários gera um feedback positivo, fazendo com que a floresta cresça e se expanda, como indígenas fizeram com essa floresta no passado, devido à forte relação entre os assentamentos indígenas e o consumo do pinhão”.

Para estes modelos, entretanto, é necessário que se pense em políticas ambientais que incluam os produtores e a comunidade nas áreas de ocorrência da Floresta de Araucárias. “Estratégias de conservação apenas restritivas devem ser balanceadas com o manejo colaborativo, onde as limitações de um modelo possam ser amparadas pelas qualidades de outro, pois ambos modelos não são excludentes, mas sim complementares”, conclui.

Amanda Miranda/Jornalista da Agecom/UFSC

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