UFSC investiga como medicamentos chegam em regiões remotas da Amazônia

30/01/2026 11:39

Seu João é um morador ribeirinho que vive em uma comunidade isolada no coração do Amazonas. Com dor, tem uma única forma de acessar medicamentos para tratá-las: navegar por uma hora, se tiver sorte, ou por mais do que isso a depender das condições do clima e geográficas do dia.

A comunidade em que João vive não tem farmácias, como tantas outras na mesma região. Um flutuante comercial vende analgésicos junto com açúcar e farinha, mas no dia em que ele precisava, havia apenas xarope. Na unidade de saúde mais próxima, um Agente Comunitário de Saúde lhe informou que não havia remédios na unidade: a seca dificultou o abastecimento.

A história de Seu João é uma metáfora das tantas realidades que a pesquisa de doutorado de Genize Kaoany Alves Vasconcelos no Programa de Pós Graduação em Assistência Farmacêutica da Universidade Federal de Santa Catarina encontrou pelo caminho. Em um programa interinstitucional, ela navegou águas de uma região distante da UFSC para entender as complexidades do acesso à medicação em dezoito municípios do Amazonas.

 

A pesquisa investiga regiões cercadas de águas (Foto: Divulgação)

As barreiras da realidade geográfica regional podem ser um limitador da equidade no acesso à saúde. “O modelo atual é um pouco rígido e acaba não considerando muitas vezes a geografia das nossas águas, os banzeiros, que a gente fala que são as ondas. Ele não consegue se moldar a esse movimento”, comenta a pesquisadora.

De acordo com o estudo, a Política Nacional de Assistência Farmacêutica (PNAF) é adequada à terra firme. Isso faz, por exemplo, com que características sazonais de territórios cercados por águas não sejam considerados em sua especificidade. Além disso, o modelo não prevê recursos para os altos custos logísticos da região. O transporte de insulina, por exemplo, pode exigir 26 horas de barco sob temperaturas de 40ºC.

Essas particularidades fazem com que os próprios profissionais envolvidos com a assistência tenham que criar mecanismos para chegar à população. Foi assim que Genize conheceu e descreveu aquelas que chama de “cunhãs” , mulheres que representam 73,3% da força de trabalho nessa área. Ao utilizar o termo indígena que significa mulher, o estudo registra que 89,3% são amazonenses e 69,3% do interior do estado.

“As cunhãs, na nossa pesquisa, são farmacêuticas que atuam na rede pública de saúde, na maioria das vezes não são estatutárias, são contratadas. E são mulheres que nasceram na terra onde trabalham. São mulheres que fizeram ensino médio na sua na sua cidade natal, onde nasceram, foram para a capital, pagaram pelo curso superior, se formaram, se tornaram farmacêuticas e voltaram paro seu lar”.

De acordo com Genize, o que se consegue ver é o papel dessa mulher que cria redes de apoio e que também sustenta o sistema de saúde na atenção primária. “Essas profissionais também atuam em uma jornada que envolve subir, descer barrancos e também a responsabilidade de gerir estoques em locais onde o próximo barco e suprimento podem demorar semanas para chegar. Então elas são as garantidoras do acesso à ponta”, comenta.

Diferentes postos de saúde fizeram parte do estudo

Para Genize, o resultado da pesquisa que mais chama atenção está relacionado à força dos profissionais de saúde e das redes informais que a ausência do estado ou que a dificuldade logística geram. “Esses profissionais fazem com que a assistência à saúde ou medicamento chegue a essa população, fazendo às vezes muito mais do que a sua atribuição”, comenta.

Navegar é parte da logística para levar assistência farmacêutica a regiões amazônicas

Segundo ela, uma das experiências que mais se destacam é a atuação dos agentes comunitários de saúde. “Eles levam mensalmente caixinhas de medicamentos com um analgésico, um antiinflamatório, um expectorante, um material para curativo”, comenta. Isso porque, nas comunidades distantes, que muitas vezes exigem três dias de viagem de barcos para se chegar à sede do município, o acesso em caso de urgência e emergência é dificultado.

“Foi muito muito presente isso na maioria dos municípios, a presença da atuação, por exemplo, do agente comunitário, mas também em outros municípios nós tivemos profissionais carregando a sua comida, os medicamentos, água. O médico, o enfermeiro em cima de uma caçamba para ir até um ponto de acesso”.

O estudo abrangeu 18 municípios que representam nove regionais de saúde do estado, incluindo sempre o município-polo e o de menor IDHM de cada região. A coleta de dados em campo foi planejada para coincidir com a estação chuvosa para garantir navegabilidade e o acesso às comunidades ribeirinhas mais isoladas. No total, a avaliação teve a participação de 780 pessoas (378 profissionais e 402 usuários) e a visita a 136 estabelecimentos de saúde.

Documentário 

Os estudos da UFSC sobre o tema deram origem ao documentário AmazôniAF – Assistência Farmacêutica na Amazônia, resultado direto da pesquisa Acesso à medicamentos na Amazônia: influência do fator amazônico sobre a assistência farmacêutica, desenvolvido pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com financiamento das fundações de pesquisa do Amazonas, Pará e Santa Catarina e do CNPQ.

O documentário retrata como se dá o acesso aos medicamentos pelas pessoas que moram no interior do Amazonas e Pará. Na UFSC, é coordenado pela professora Mareni Rocha Farias, que conta que a orientação da tese de Genize foi uma das etapas iniciais do processo junto ao Amazônia+10, uma proposta organizada pelo Conselho Nacional de Fundações de Amparo à Pesquisa Estaduais com a participação de Fundações Estaduais, entre elas a Fapesc.

O objetivo era apoiar pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico em instituições de ensino e pesquisa e em empresas sobre os problemas da Amazônia para um desenvolvimento sustentável e inclusivo da região. As propostas deveriam envolver pelo menos pesquisadores de três estados, sendo que um deles deveria ser obrigatoriamente da Região Amazônica.

Amanda Miranda | amanda.souza.miranda@ufsc.br
Jornalista | Agecom| UFSC

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Com participação da UFSC, artigo na Science reforça importância do diálogo entre ciências indígena e ocidental para futuro sustentável

12/12/2024 16:05

Conservação da Amazônia depende da integração de conhecimentos (Imagem de leondeniscf por Pixabay)

No contexto da crise climática, o diálogo entre o conhecimento científico ocidental e o indígena é essencial para a conservação da Amazônia e para o futuro sustentável do planeta. A integração dos sistemas de conhecimento pode garantir uma ciência mais holística, que entenda a conexão indissociável entre cultura e natureza e que, portanto, reconheça a contribuição dos povos originários para a reabilitação dos ecossistemas. É o que aponta artigo publicado na revista Science nesta quinta (12) por pesquisadores indígenas dos povos Tuyuka, Tukano, Bará, Baniwa e Sateré-Mawé, em parceria com não indígenas, vinculados a projeto do Brazil LAB, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Os cientistas participantes também têm vínculo com instituições brasileiras como as universidades federais de Santa Catarina (UFSC) e do Amazonas (UFAM).

O artigo defende a integração urgente entre os saberes, considerando a contribuição das teorias e práticas de povos indígenas, há pelo menos 12 mil anos, para a conservação e restauração do meio ambiente – e elegem a Amazônia como um terreno fértil para promover este diálogo.

“Uma das principais lições dos conhecimentos indígenas do Alto Rio Negro é compreensão de que as vidas se estabelecem em conexão. Nada existe sozinho, tudo está relacionado – e compreender essa rede de relações entre todos os seres é uma das chaves para a sustentabilidade”, explica Carolina Levis, pesquisadora da UFSC e primeira autora do artigo. Para ela, a cosmovisão indígena pode auxiliar na desconstrução da visão colonialista que há séculos explora a Amazônia. “Enquanto o pensamento ocidental está enraizado em visões utilitaristas e antropocêntricas da natureza, os povos indígenas amazônicos entendem que a natureza e seus elementos também são dotados de qualidades de pessoas e tudo faz parte de um sistema integrado”, comenta.
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Tags: Alto Rio NegroAmazonasciência indígenaconservação da Amazôniacosmovisãopovos origináriosreabilitação dos ecossistemasScience

UFSC empossa primeiro professor aprovado em concurso exclusivo para indígenas

05/08/2024 17:42

Professor João Rivelino durante a cerimônia de posse. Foto: Mateus Mendonça/Agecom/UFSC

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) empossou, nesta segunda-feira, 5 de agosto, João Rivelino Rezende Barreto como o primeiro professor aprovado em um concurso público exclusivo para candidatos indígenas na Universidade. A cerimônia, realizada às 14h30 na sala de reuniões da Reitoria no Campus de Florianópolis, marcou a integração de João Rivelino ao Departamento de Antropologia. Ele é o segundo professor indígena da UFSC. A primeira é a professora Adriana Kaingang, do Departamento de História, que ingressou na Universidade por meio de um processo seletivo de ampla concorrência.

O concurso específico para candidatos indígenas foi uma iniciativa dos departamentos de Antropologia e de História da UFSC, formalizada pela Portaria Normativa Nº 477/2023, publicada em maio de 2023. A medida, apoiada pela Resolução Normativa Nº 175/2022/CUn, busca promover a inclusão de candidatos negros, quilombolas e indígenas.

Cerimônia de posse ocorreu no gabinete da Reitoria. Foto: Mateus Mendonça/Agecom/UFSC

Durante a cerimônia, a vice-reitora da UFSC, Joana Célia dos Passos, emocionada, ressaltou que João Rivelino representa mais do que um novo docente, é uma conquista de saberes para a universidade. “É com grande alegria que recebemos o professor João Rivelino, nosso primeiro professor a ingressar por concurso público exclusivo para indígenas e o segundo docente indígena na UFSC. A Universidade também é território indígena e precisa da presença e do conhecimento dos povos originários para manter sua excelência.”

Segundo a professora Dilceane Carraro, pró-reitora de Graduação e Educação Básica, o concurso específico para docente indígena foi uma iniciativa pioneira da UFSC. “O ingresso do professor João Rivelino vem colaborar para potencializar distintos saberes e contribuir na promoção da interculturalidade. É uma grande conquista para a Universidade”.

João Rivelino é natural de São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, e indígena da etnia Tukano. É formado em Filosofia pela Faculdade Salesiana Dom Bosco (FSDB), mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e doutor em Antropologia Social pela UFSC. Além disso, é autor de três livros e desenvolvedor do projeto Kumuro: Reconstrução da Maloca e dos Ornamentes Artísticos Tukano na Aldeia São Domingos Sávio.
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