Primeira tradução de peça de Satie é lançada em leitura dramática na UFSC

30/11/2018 19:10

Companhia Elefants realizou primeira leitura dramática de peça de Satie. Foto: Diana Pedott

Após contar seu dinheiro, o barão Medusa recebe Astolfo, pretendente de sua filha, Frisette. Mas, será que o futuro genro o amará? Envolto em pilhas de dinheiro, o barão cria uma armadilha para testar a lealdade do candidato a noivo de Frisette. O desenrolar desse conflito é recheado de pequenos absurdos. Observadas por um macaco empalhado que dança e acompanhadas de um pianista, as personagens vivem a única peça teatral escrita pelo pianista francês Erik Satie, um dos mais importantes músicos do século XX.

A comédia em um ato foi originalmente redigida em 1913 e foi apresentada pelo próprio Satie, interpretando o Barão Medusa e tocando o piano. Repleta de ironias e sátiras, a peça teve sua primeira tradução brasileira realizada em 2015, como trabalho de mestrado de Marina Bento Veshagem, junto ao Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução (PGET), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O resultado desta tradução, entretanto, extrapolou os círculos acadêmicos e a peça, intitulada “A armadilha de Medusa”, é agora publicada em livro, em edição bilíngue.

O lançamento ocorreu durante a III Semana de Leitura Dramática da UFSC, realizada entre os dias 26 a 28 de novembro de 2018. Na ocasião, os presentes puderam apreciar a leitura dramática da íntegra do texto em português. A leitura ocorreu a partir das 20h30, na Caixa Preta, espaço de apresentações artísticas localizado no Bloco D do Centro de Comunicação e Expressão (CCE). Foi a última atividade da Semana e a expectativa e recepção do público não poderiam ter sido mais entusiasmadas: lotação máxima e aplausos em pé.

A armadilha de Medusa

Cercado de dinheiro, Barão Medusa discute com Policarpo Foto: Diana Pedott

A peça se desenrola em um único cenário, o escritório do Barão Medusa. Os conflitos se desencadeiam em cenas curtas e em ritmo muito ágil, quase frenético. Com quatro personagens – Barão Medusa, um rico burguês; Frisette, sua filha; Astolfo, pretendente a se casar com Frisette; e Policarpo, empregado do Barão – a peça ainda conta com a participação de um macaco empalhado dançante e um pianista, a executar músicas especificamente escritas para as danças do macaco nas sete passagens entre cada uma das nove cenas.

O texto elaborado por Satie reflete muito de sua produção artística musical: uma obra marcada por ironias e absurdos. Em sua única peça teatral. o artista francês exibe um texto precursor de importantes movimentos artísticos do século XX: o dadaísmo e a música surrealista. Além disso, a peça antecipa em cerca de três décadas o teatro do absurdo, cujas primeiras peças passam a ser produzidas no decorrer da década de 1950.

Nesse sentido, a única peça de Erik Satie representa um divisor de águas tanto para a música, quanto para o teatro. Esse reconhecimento, todavia, não foi imediato, ao que, no decorrer dos anos que seguiram seu lançamento – no ano anterior à Primeira Guerra Mundial – tem sido melhor compreendida a importância de seu único trabalho dramático, exatamente como aconteceu com seu reconhecimento musical, cuja notoriedade é alcançada postumamente.

Leitura dramática tem participação da tradutora

A leitura dramática de “A armadilha de Medusa” foi realizada pela Elefants Companhia de Teatro, já com todos os elementos de apresentação prontos, ou seja, iluminação, cenário, figurino, interação entre os atores e pianista. Como uma peça teatral de autoria de um notável músico, ao texto são acompanhadas partituras musicais originais de Satie, elaboradas para a própria peça.

Após cada cena, uma música original é executada para o macaco empalhado dançar. Foto: Gabriel Martins/Agecom/UFSC

Dentre os sete integrantes da companhia teatral presentes à leitura dramática – sendo um responsável pela iluminação, um pianista e cinco atores – um deles era a própria tradutora do texto, Marina Bento Veshagem, interpretando Frisette.

No decorrer da leitura dramática, realizada pelo ator que interpretava o macaco empalhado dançarino, foram lidas passagens e observações bastante irônicas, direcionadas ao macaco e ao pianista, como “o macaco dança para se refrescar”, ou “posicione-se na sombra. Não saia da sua sombra. Seja respeitável, por favor, uma macaco lhe assiste”. Essas pequenas brincadeiras de Satie, próprias, inclusive de sua produção musical, repleta de grandes peças para piano com nomes absurdos, somente são acessíveis a quem lê “A Armadilha de Medusa”. Ou a quem a escuta, como ocorreu com quem compareceu à primeira leitura dramática, comemorativa ao lançamento da obra bilíngue, contendo o texto original e a tradução de Marina.

Apresentações teatrais e trabalhos com o teatro do absurdo

Ao final da apresentação, enquanto o público comentava entre si a respeito da agradável surpresa que se teve com o texto de mais de um século de um notório pianista, Marina, tradutora e atriz, comentou com a Agência de Comunicação (Agecom) da UFSC sobre a peça e seus próximos trabalhos.

Atores realizaram leitura integral do texto Foto: Diana Pedott

Segundo a tradutora: “apesar de ter somente uma peça teatral, Satie escreveu um texto de importância enorme para a arte durante todo o século XX. Mesmo sem ter reconhecimento rápido, ‘A armadilha de Medusa’ é precursora do dadaísmo, do surrealismo e do teatro do absurdo. É, sem dúvidas, uma obra muito importante, ainda que pouco conhecida. Esta é a primeira tradução no Brasil, realizada durante meu mestrado, concluído em 2015 e com orientação de Dirce Waltrick, que também assina a apresentação do livro lançado”.

Marina ainda afirma que a companhia Elefants já apresentou a peça na Aliança Francesa de Florianópolis e que, portanto, a leitura dramática realizada neste dia 28 celebrava o lançamento do livro, não a estreia da peça. Os próximos passos da companhia apontam a apresentações na Aliança Francesa de São Paulo e busca por mais exibições e difusão da obra.

Para a montagem especificamente da peça, Marina ressaltou que, apesar de tradutora, as dificuldades em realização do espetáculo cênico são muitas. “Satie não deixou pistas [sobre figurino, iluminação, cenário, sotaque, etc.]. Ainda não se sabe como foi a montagem realizada por ele mesmo, mas, como em suas músicas, é um artista que preza pela liberdade criativa e que permite interpretações. Não há normas. Há algumas brincadeiras, impossíveis de serem seguidas, como quando ele recomenda que o macaco ‘dance por dentro’, mas não há regras rígidas, ao que a peça pode ser montada de inúmeras formas”.

Por fim, Marina afirmou que segue seu vínculo com o PGET, agora como doutoranda. Em sua pesquisa de doutorado, novamente orientada por Dirce Waltrick, a primeira tradutora de Satie no Brasil realizará traduções de Eugène Ionesco, célebre dramaturgo romeno, um dos grandes nomes do teatro do absurdo e que redigiu muitas obras em francês.

 

 

Gabriel Martins/Agecom/UFSC