17ª Sepex: exposição de objetos e histórias do passado ajudam a entender o presente

18/10/2018 23:17

Laboratório de Estudos Interdisciplinares em Arqueologia (Leia/UFSC) leva a “caixa de escavação” para a 17ª Sepex. (Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC)

Uma pequena caixa de areia com alguns instrumentos –  como pincel, colher, pá, peneira – além de rochas e outros objetos chamavam a atenção de quem visitava o estande do Laboratório de Estudos Interdisciplinares em Arqueologia (Leia/UFSC) na Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFSC (SEPEX). A “caixa de escavação” é uma réplica que tenta reproduzir o que seria uma escavação ao ar livre, com utensílios geralmente utilizados pelos pesquisadores na busca por objetos com valor histórico. “Com essa representação é possível ter uma ideia de como é o trabalho do arqueólogo, do que esse profissional faz na prática”, explica Felipe Terra, estudante da 8ª fase do curso de Geografia da UFSC, que é membro do Leia, bolsista do Museu de Arqueologia da UFSC (MArquE) e voluntário no programa PIBID.

O estande do Núcleo de Estudos de Populações Indígenas (NEPI) promove contação de histórias durante a Sepex. (Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC)

No estande é possível conhecer como as antigas populações indígenas de Santa Catarina criavam e utilizavam ferramentas para diversos fins. “Como todas as regiões do Brasil, Santa Catarina tem um potencial arqueológico muito grande, por isso recebemos muita doação de objetos. Nem sempre conseguimos explicar a origem e a função de todo esse material, mas ele sempre serve para demonstrações e atividades didáticas”, afirma Felipe. Já o material de pesquisa, que é encontrado em escavações, prospecções e sondagens, ficam guardados no laboratório para serem analisados pelos pesquisadores.

Segundo os expositores, esses materiais de milhares de anos atrás nos ajudam a compreender como as populações do passado viviam, comiam, trabalhavam etc. “Por que lascaram e poliram a pedra nesse formato e não em outro? Para que usavam esse instrumento? Através desse material físico, palpável conseguimos contar uma história. Os materiais mais antigos de povos indígenas de Santa Catarina datam de 8 e 9 mil anos atrás. Mas estudos mais recentes do Oeste do Estado trazem datações de 11 mil anos. No Brasil já foram encontrados objetos de até 12 mil. Mas aqui em Santa Catarina é a primeira vez que encontram materiais tão antigos”, relata o estudante.

A difusão da Arqueologia como ciência e campo de estudos é o principal objetivo do Leia na SEPEX. “A Arqueologia é uma área da qual não se ouve muito falar, mas quando as pessoas conhecem surge um grande interesse. É uma ciência muito vasta, mas que ainda está muito dentro da universidade. Precisamos levar para fora daqui o que fazemos, por isso acho a Extensão tão importante. É quando conseguimos mostrar para a comunidade o que fazemos, o que é a Arqueologia” afirma Felipe, que apenas lamenta não haver ainda o curso de Arqueologia na UFSC. “Somos muito incipientes nesse campo de estudos. Temos ótimos professores, mas ainda não existe um curso.”

A “boca da verdade” é atração do estande sobre estudos do Latim. (Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC)

Integram o Leia mais de 20 pesquisadores de diferentes áreas de conhecimento, como Biologia, História, Geografia, Ecologia e Ciências Sociais. A participação do Laboratório na SEPEX é também importante para a integração de novos membros na equipe. “Foi no ano em que entrei na UFSC, na SEPEX de 2015, quando conheci o Leia. Desde então me tornei pesquisador do Laboratório e venho participando de todas as SEPEX, tanto nos estandes, como ministrando minicursos”, relata Felipe.

“O Latim não morreu”

A “Boca da Verdade”, reproduzida a partir da foto de um oráculo – cujo formato é um rosto com a boca aberta, feito em uma pedra na Roma Antiga – é a principal atração do estande “O Latim não morreu”. “Não se sabe exatamente como os romanos usavam esse oráculo, pois não há registros. Mas imaginamos que colocavam a mão na boca e talvez retiravam algo de lá”, explica Silvio Sommer, doutorando do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução (PPGET/UFSC).

Assim como os antigos romanos, os visitantes do estande também podem retirar ditados populares da “Boca da Verdade”. Todos eles estão escritos em latim e traduzidos para o português. Entre algumas das frases estão: “Bis peccas, cum peccanti obsequium comodas” (Erras duas vezes quando fazes favor a quem errou); “Oderunt di homines iniuros” (Os deuses odeiam homens injustos); Exigua in tenebris etiam micat scintilla (Na escuridão, até a pequena fagulha brilha); “Dum canem  caedimus, corrosisse dicitur corium” (Quando queremos matar o cão, dizemos que seu couro está bichado).

Também estão disponíveis receitas culinárias dos povos da Roma Antiga, retiradas do livro De re coquinaria, que reúne receitas do gastrônomo Marcus Gavius Apicius. Uma delas é a “Sopa para o ventre”, feita com acelga, alho-poró, pimenta, cominho e vinho de passas. Outra opção são as “Abóboras ao modo Alexandrino”, que além da abóbora, leva tâmaras, nozes e diversos temperos.

Um banner apresenta a diferença entre o latim vulgar e o clássico. “Assim como não falamos um português uno, os povos latinos do passado também se expressavam de formas diversas”, afirma Silvio. Outro banner mostra um mapa representando a expansão do Império Romano ao longo de séculos. “É importante conhecer a história, pois o imaginário romano continua presente em nossas vidas, ainda faz parte das culturas atuais.”

Para quem tiver interesse em se aprofundar nos estudos de latim, o pesquisador recomenda o Curso Extracurricular de Latim, aberto a toda a comunidade. Silvio reforça a importância em conhecer a língua: “Tanto a história como a literatura romana têm valor e precisam ser preservados. Podemos, inclusive, comparar o momento atual com períodos históricos do passado, quando houve rupturas e mudanças de regime político na Roma antiga. A literatura latina não se restringe a histórias, mas trata de ideias. Muitas dessas ideias sobrevivem e seguem presentes hoje.”

Histórias Indígenas

Outra atração da área de Cultura da SEPEX é o estande do Núcleo de Estudos de Populações Indígenas (NEPI/UFSC), vinculado ao departamento de Antropologia e à Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica. A licenciatura, que está na segunda turma, é dirigida a estudantes dos povos Guarani, Kaingang e Laklãnõ-Xokleng. O estande está promovendo contação de histórias desses três povos durante a SEPEX. Nesta sexta-feira, 19 de outubro, as sessões ocorrem às 10h30 e às 14h. No sábado, dia 20, será às 10h30.

Mais informações na página do LEIA, na página do NEPI, e no Facebook O Latim não Morreu.

A programação completa da SEPEX está disponível aqui.

 

 

Daniela Caniçali/Jornalista da Agecom/UFSC