Ciclo de debates discute liberdade de expressão nas cidades contemporâneas

17/09/2018 16:40

A primeira edição do ciclo de debates “Liberdade e Expressão: arte e liberdade de expressão nas cidades contemporâneas” será realizada nos dias 19 e 20 de setembro, no auditório Garapuvu do Centro de Cultura e Eventos Reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O evento é aberto a toda a comunidade e gratuito, garantindo  certificado de participação para os inscritos. A edição é uma iniciativa da Secretaria de Cultura e Arte (SeCArte) e do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC (ARQ), com o apoio do Departamento Artístico Cultural (DAC), Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PósARQ), Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLA) e da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc).

O ciclo tem como objetivo discutir de maneira multidisciplinar os impactos das ações artísticas culturais no contexto urbano e jurídico, relacionado ao livre direito de expressão da arte em espaços públicos, sua influência na cidade e suas consequências no âmbito legal. Através de meses de debates o ciclo traz conferencistas das áreas da arte, arquitetura e do direito da Universidade Federal de Santa Cataria (UFSC), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), além de integrantes de iniciativas que experimentam a arte como intervenção no cotidiano utilizando o espaço público de maneira inusitada.

Os debates do “1º Liberdade e Expressão” podem ser acompanhados ao vivo através da internet — basta acessar o link dos eventos ao vivo nos dias e horários respectivos para acompanhar as conferências.

Link: http://server.stream.ufsc.br/eventos

Sobre o Ciclo de Debates, segundo os coordenadores do evento

Para a professora Maria de Lourdes Alves Borges, Secretária de Cultura e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina, “A ideia de realizar o Ciclo de Debates surgiu da tentativa de criminalização da arte que foi utilizada numa intervenção artística no bairro da Lagoa da Conceição [em Florianópolis], em trabalho feito por alunos do Curso de Arquitetura da UFSC, além de outras ocorrências na Universidade. Diante disso, sentimos a necessidade de trazer para a academia o debate sobre a arte, sobre a liberdade de expressão, que é um direito constitucional. E, neste momento, temos tido muitos direitos sendo ameaçados ou retirados. É papel da universidade discutir esses temas. Este ciclo de debates, em parceria com o Curso de Arquitetura da UFSC é o primeiro, mas pretendemos dar continuidade aos debates, sempre com o foco na Liberdade e Expressão, trazendo outros temas que contemplem arte, direito, ética”.

O professor Rodrigo Gonçalves dos Santos, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFSC argumenta: “A ideia do evento surgiu devido às repercussões de algumas intervenções artísticas na cidade, sobretudo de uma ação recente realizada com alguns alunos meus da pós-graduação. Tal ação foi criminalizada, o que nos fez pensar até que ponto temos uma liberdade de expressar ideias na cidade, sejam elas em forma de intervenções artísticas ou não. Com este evento, eu espero trazer um diálogo com ações semelhantes dentro e fora da universidade, além de dar visibilidade à problemática. Em nossos estudos junto ao Grupo Quiasma do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC trazemos à tona muitos debates sobre a arte na cidade e seu desdobramento na organização espacial da cidade. Acredito que o evento trará uma luz à temática arte-cidade sob um aspecto de entender esse assunto como uma das facetas do direito à cidade. Talvez uma questão maior que irá permear esse evento seria: pode a arte contribuir ao entendimento do direito à cidade?“.

A intervenção artística na Lagoa da Conceição

Im[pé]ssão Corporal. Foto: Marcelo Cabral Vaz

Como trabalho acadêmico de um grupo de alunos de pós-graduação em Arquitetura da UFSC foi realizada uma intervenção de arte pública denominada “Im[pé]ssão Corporal: pegadas entre praças Cidades Pra Quem?” In[Ter]venção de arte pública”, que aconteceu no dia 12 de maio de 2018 na Lagoa da Conceição, Florianópolis, mais especificamente, um trecho da Rua Henrique Veras do Nascimento, entre a Praça B. Silvério e a Praça Pio XV. A intervenção artística procurou levantar visões, pensamentos, indagações e sensações que surgem desta experiência que envolve a relação entre pessoas e a cidade.

A intervenção de arte pública foi decorrente da disciplina de Tópicos Especiais da Arquitetura e História da Cidade: In[ter]venções urbanas: a arte e a arquitetura como construtora de dissensos, ministrada pelo professor Dr. Rodrigo Gonçalves, do programa de pós-graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSC. Dessa intervenção, dentre outros alunos, participaram os arquitetos e professores de Arquitetura da Unesc, Ademir França e Lucas Sabino Dias, que estarão presentes no ciclo de debates Liberdade e Expressão.

Um dos trabalhos acadêmicos, resultantes da experiência da intervenção, menciona algumas questões: o tema da mobilidade é muito atual na discussão sobre as cidades contemporâneas. Entender a necessária preferência ao pedestre é talvez um paradigma, nas cidades brasileiras de maneira geral. Mais particularmente em Florianópolis, onde, via de regra, as calçadas são estreitas, fora de norma ou inexistentes. Este pareceu um tema interessante a ser abordado, que transcende a Lagoa e perpassa toda a Grande Florianópolis. Afinal, para quem são construídas as cidades: para os carros ou para os pedestres? De quem são as cidades, cidades pra quem?

Diante dessas questões, surgiram outras indagações sobre o que fazer: Mas o que seria feito? Qual o propósito da intervenção? A questão central foi: como conectar as duas praças visualmente e destacar a importância do pedestre dentro do tecido viário?

A proposta da intervenção entre as duas praças retorna à prática usual de ligar dois espaços públicos através de uma faixa de pedestres, porém, esteticamente de uma forma inesperada e inusitada, não realizada através de faixas no sentido tradicional que conhecemos, mas através de uma faixa de pés com tinta coloridas. A ideia foi marcar o asfalto – através de pegadas com tinta coloridas – os caminhos que os pedestres comumente fazem ao ir de um lugar para outro, e que não estavam contemplados com faixas de pedestres, além de reforçar uma possível continuidade das praças seccionadas pela via de carros, como forma de, sobretudo, valorizar a orla da lagoa.

“Ao final”, dizem os autores da intervenção artística, “a percepção que tivemos foi de que o planejado se concretizou e demarcou pelas im[pé]ssão as travessias e as conexões. Mais que isso, chamou atenção para a necessidade de se estudar o local, priorizar o pedestre, conectar as praças e agir com vista a atropelamento zero neste local. […] Em menos de 15 minutos se fez um estudo, por meio de uma intervenção artística, que dá ao órgão público a exata percepção do que acontece ou está acontecendo nessa via e nesses cruzamentos”.

Lucas Dias comenta: “A discussão e o dissenso gerados foram considerados ponto positivo da intervenção, embora para alguns o ato de pintar o “tapete preto” com tinta cal incomodou muito, a ponto de denunciá-la. Todavia, o papel da arte não se restringe à discussão sobre o belo, ela transcende. Meche com os sentidos, o sentimento, do amor à raiva. A instalação, neste sentido, potencializou o pensar coletivo, o refletir, o questionar, o sugerir mudanças. Resgatando a discussão dos gabinetes, das salas, das associações de moradores, que muitas vezes tem acesso restrito ou dificultado, e levando-a às ruas, à cidade, ao cidadão. Pode ser está uma dimensão possível da atividade artística?”.

Praticamente duas semanas após a ação artística na Lagoa da Conceição, a prefeitura reforçou uma série de faixas de pedestre na Lagoa, e no local em que a performance aconteceu foram pintadas novas faixas onde não havia. “Gesto aparentemente pequeno, diante do caos que temos que enfrentar nessas nossas cidades ainda tão rodoviaristas. Contudo, dá-nos esperança diante do nosso papel emponderado de cidadãos conscientes e políticos. É uma dimensão possível de ação!”, completa Lucas.

Confira a programação completa do Ciclo de Debates aqui.

Sobre alguns dos debates


19 de setembro (quarta-feira)
19h30 | Mesa 1 | Arte urbana e dissensos na cidade contemporânea


PORO: por novas práticas e espacialidades, série de cartazes lambe lambes

Debatedora Brígida Campbell — artista e professora da Escola de Belas Artes da UFMG. É doutora em Artes Visuais pela ECA-USP e mestre pela EBA- UFMG. Suas pesquisas tratam especialmente das relações entre arte e cidade e o caráter político e poético destas ações. Como artista já participou de diversas exposições no Brasil e no exterior.

“Os conflitos pelo espaço público estão no centro do debate sobre a cidade nos últimos anos, pois ela sempre foi o lugar de disputas de várias ordens: políticas, sociais, culturais, econômicas, espaciais, simbólicas, etc. Mais recentemente, essa discussão tem ganhado ainda mais força em decorrência do alcance que as redes sociais atingiram na produção da esfera pública e das séries de protestos que estamos vivenciando nos espaços públicos brasileiros. Neste contexto uma série de artistas e coletivos vem ocupado o espaço da cidade com ações disruptivas, críticas e poéticas, afirmando o lugar da arte no centro da sociedade como área do pensamento crítico.

No debate, mencionarei trabalhos de intervenção artística realizados em espaços públicos de diversas cidades brasileiras, temas que fazem parte do meu livro ‘Arte para uma cidade sensível’, e mencionarei o trabalho que realizo em Belo Horizonte através do Poro — Intervenções urbanas e ações efêmeras, citando o trabalho que se chama “por novas práticas e espacialidades”, série de cartazes lambe lambes, que são colados em muros da cidade que costumam estar cheios de cartazes com diversos tipos de propaganda; sobre esses, colamos essa intervenção artística de cartazes com reflexões sobre a cidade.”

Mais: www.brigidacampbell.art.br | www.poro.redezero.org


20 de setembro (quinta-feira)
14h – 16h | Mesa 2 | Arte, arquitetura e cidade: intervenções no espaço público


Intervenção Composição Urbana, ARQ-UFSC. Foto de Joice Schenkel

Debatedor Rodrigo Gonçalves – professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFSC. Arquiteto e doutor em Educação pela UFSC, coordena o Grupo Quiasma: Estudos e pesquisas interdisciplinares em arquitetura, corpo e cidade (ARQ/UFSC). Integrante do Grupo Alteritas: diferença, arte e educação (CED/UFSC).

“Como a arte pode trazer um novo olhar para o cotidiano da cidade? A partir desta questão pretendo refletir com o público a inserção da arte na cidade e o quanto ela é bem vista ou mal vista, e por que ela causa tanto incômodo em determinados momentos. Parto de uma ideia de que a arte denuncia aquilo que o projeto pensado para a cidade esqueceu. Seria justamente uma arte engajada que possui como suporte o espaço urbano e as práticas sociais da cidade. Como sou arquiteto e professor, minha fala no evento abordará uma educação do olhar sensível para a cidade real usando como lente ações artísticas e suas reverberações.”

Mais: http://grupoquiasma.wixsite.com/grupoquiasma | http://alteritas.paginas.ufsc.br/


20 de setembro (quinta-feira)
16h30 – 19h | Mesa 3 | Arte pública e direito à cidade


Bloco Africatarina no carnaval de rua de Florianópolis

Debatedora Fátima Lima — professora titular do Departamento de Artes Cênicas do Ceart e do Programa de Pós-Graduação em Teatro da Udesc. Doutora com tese sobre alegorias proibidas no carnaval, pelo Programa de Pós-Graduação em História do CFH/UFSC. Atua artisticamente como atriz, cenógrafa e carnavalesca.

“Como pesquisadora da teoria crítica da sociedade, reflito sobre a politização da arte contra o racismo a partir de imagens que atualizaram o debate político brasileiro em dois desfiles de escolas de samba cariocas, em 2018: Monstro é aquele que não sabe amar – os filhos abandonados da pátria que os pariu, da Beija-Flor de Nilópolis; e Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?, da Paraíso do Tuiuti. A seguir, mostro a arte negra de dois grupos florianopolitanos: o Coletivo NEGA, grupo de teatro formado por atrizes negras; e o Africatarina, conjunto de percussão do Mestre de Bateria Edinho Roldan, em suas atuações no carnaval de rua da capital catarinense. A partir das imagens carnavalescas cariocas e de episódios vividos pelos/as artistas negros/as florianopolitanos/as, mostro que quanto mais o carnaval se politiza mais as políticas públicas de Estado cerceiam o espaço público onde ele acontece: as ruas. Por fim, proponho o combate ao racismo como assunto de alto interesse social, apoiando-me no que o filósofo camaronês Achille Mbembe chama de “devir negro do mundo.”

Mais: Imagens Políticas
https://www.facebook.com/ImagensPoliticas/
Bloco Africatarina
https://www.facebook.com/blocoafricatarina/
Coletivo NEGA
https://www.facebook.com/coletivonega/

Serviço:

O quê: 1º Liberdade e Expressão: arte e liberdade de expressão nas cidades contemporâneas – Ciclo de debates

Quando: 19 e 20 de setembro de 2018, quarta e quinta-feira

Onde: Auditório Garapuvu do Centro de Cultura e Eventos – Reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, Campus da UFSC, Trindade, Florianópolis (SC)

Inscrições: gratuitas no local com certificado emitido através da plataforma SIGPEX

Informações: secarte.ufsc.br | Evento no Facebook

Ficha Técnica
Coordenação:
Maria de Lourdes Alves Borges
Maria de Fátima Sabino Dias
Rodrigo Gonçalves

Equipe de apoio:
Ana Lúcia Moraes
Ademir França
Lucas Sabino Dias
Zélia Regina Sabino

Divulgação:
Clóvis Werner
Ivo Caoê Baptiston

Identidade visual:
Heliziane Barbosa

Mais informações pelo site ou pela página do evento no Facebook.

[CW] DAC/SeCArte/UFSC, com informações dos coordenadores e conferencistas/debatedores do evento