UFSC na mídia: por que o exemplo da Espanha mostra que mundo precisará de novas quarentenas

19/05/2020 13:40

Hoje, com a dificuldade de fazer testes em massa, só temos uma ideia de quantas pessoas foram infectadas. Saber a verdadeira dimensão do problema é fundamental para compreender onde estamos e o que esperar do futuro próximo.

Um dos esforços mais robustos para achar essas respostas está sendo feito na Espanha, onde um estudo nacional acaba de divulgar seus primeiros resultados – e eles apontam, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, que próximas ondas de contágio e novos períodos de quarentena podem ser inevitáveis.

A pesquisa feita pelo Instituto de Saúde Carlos 3º, ligado ao governo espanhol, aplicou testes sorológicos rápidos em 60.983 pessoas de todo o país.

O objetivo era buscar anticorpos para o coronavírus nas amostras de sangue e estimar a partir disso a proporção da população que foi contaminada.

Os cientistas concluíram assim que apenas 5% dos habitantes da Espanha, ou 2,35 milhões de pessoas, pegaram o novo coronavírus.

Ainda que seja bastante gente em termos absolutos, é uma proporção pequena em relação ao tamanho do caos vivido pelo país, que viu seu sistema de saúde entrar em colapso e foi obrigado a entrar no meio de março em um dos lockdowns mais rígidos do mundo para conter a propagação do vírus.

O índice também fica longe do necessário para haver a chamada “imunidade de grupo”, ou “efeito rebanho”, que seria capaz de impedir naturalmente novas ondas de contágio.

Isso ocorre quando de 60% a 70% de uma população já tem anticorpos contra um vírus ou bactéria.

Se isso acontece, mesmo quem não tem imunidade contra essa ameaça é beneficiado indiretamente, porque fica protegido ao estar cercado por pessoas que são imunes.

É mais difícil ser contaminado em uma situação assim, e essa barreira imunológica impede que um micro-organismo se espalhe e cause um surto.

“Muita gente suscetível”

Mas o exemplo da Espanha, onde o primeiro caso foi identificado em 31 de janeiro e, após pouco mais de três meses, apenas 5% da população foi infectada, aponta que a imunidade de grupo dificilmente pode ser obtida de forma natural no curto ou médio prazo.

“Ainda tem muita gente suscetível a pegar o vírus. A partir do momento em que a vida voltar ao normal, a chance de ter novas epidemias é grande”, afirma a médica sanitarista Ana Freitas Ribeiro, do serviço de epidemiologia do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo.

A proporção de pessoas com anticorpos na população identificada pelo estudo espanhol não foi uniforme em todo o país.

A comunidade autônoma de Ceuta, na costa do norte da África, teve o índice mais baixo, de 1,1%. O maior foi identificado na comunidade autônoma de Madri, onde 11,3% dos participantes tinham anticorpos.

Mas nem a taxa registrada na região da capital espanhola seria o bastante, diz Fernando Spilki, presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

“Mesmo nas regiões mais atingidas, ainda há muito poucas pessoas com anticorpos. A imunização natural não está ocorrendo como deveria para conseguirmos debelar a pandemia”, diz Spilki.

O epidemiologista Antonio Augusto Moura da Silva, professor do departamento de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), afirma que, diante destes índices, “todo mundo vai esperar uma segunda onda” de contágios.

“Estamos na primeira ainda e não sabemos quando virá a segunda, mas, em alguns países que estão saindo do isolamento, a epidemia já começa a se manifestar novamente”, diz Silva.

Outra forma de conseguir o efeito rebanho seria com uma vacina. No entanto, a maioria dos especialistas afirma que uma só deve estar pronta em meados do próximo ano, ou seja, de 12 a 18 meses após o Sars-Cov-2, como é chamado oficialmente o novo coronavírus, ser identificado.

“Enquanto isso não acontecer, vamos ter que fazer períodos de isolamento social sempre que nossos sistemas de saúde detectarem um aumento do número de casos”, afirma Ribeiro.

O imunologista Renato Astray, pesquisador do Instituto Butantan, também avalia que, assim como a Espanha, o Brasil vai estar sujeito a novas epidemias – e quarentenas.

“Assim que a gente parar com o isolamento, porque os casos estarão diminuindo, vamos ter um índice de infectados não muito diferente da taxa da Espanha e, mais dias ou menos dias, teremos outro surto. E nós, assim como eles, vamos ter de tomar medidas isolamento mais vezes, não vai parar por aqui”, diz Astray.

Letalidade

A pesquisa espanhola também revelou algumas informações importantes sobre a pandemia do novo coronavírus.

Ao estimar o número de pessoas infectadas na Espanha, o estudo permite identificar uma taxa de letalidade do vírus que seja mais próxima do índice real.

Ribeiro aponta que esta taxa era calculada em 11,9% na Espanha, onde houve até agora 27.459 mortes entre os 230.183 casos confirmados, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

Mas a médica diz que a letalidade passa a ser de 1,1% quando o número de óbitos é comparado à estimativa de que houve até agora 2,35 milhões de infecções no país.

É um índice muito mais baixo que o anterior, mas Ribeiro destaca que ainda assim é dez vezes maior do que o do vírus da gripe sazonal, de 0,1%.

Junto com o fato de o coronavírus ser bastante transmissível – estima-se que cada pessoa infectada contamine outras três -, isso pode gerar uma catástrofe.

“Levando em consideração grandes populações, como os quase 50 milhões de habitantes da Espanha ou os 210 milhões do Brasil, sem nenhuma medida para conter o vírus, o número de infecções aumenta muito, e ter 1% de óbitos significaria a morte de muita gente”, diz Ribeiro.

Os especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que isso faz cair por terra qualquer pretensão de usar o “efeito rebanho” como uma estratégia de combate à pandemia, como chegou a ser cogitado pelo governo do Reino Unido, por exemplo.

O custo social de uma infecção em massa seria enorme, avalia Astray. “Quando as pessoas falam em todo mundo se infectar logo e se livra disso de uma vez, é preciso ver o que a Espanha já sofreu com 5%. Imagina se chegasse a 10% ou 20%? Seria uma situação de guerra”, diz o imunologista.

Antonio Augusto Moura da Silva calcula que, com uma taxa de letalidade no mesmo patamar da Espanha, atingir a imunidade de grupo custaria de 1,4 milhão a 1,6 milhão de vidas. “Seria o equivalente a morrer uma Curitiba ou Recife inteiras”, diz o epidemiologista.

Assintomáticos

Silva destaca outro dado bastante importante apontado pelo estudo: cerca de um terço dos participantes que tinham anticorpos contra o novo coronavírus disseram não ter apresentado nenhum sintoma.

“Estávamos atrás desse número de assintomáticos”, diz o epidemiologista.

Junto com as pessoas que testaram positivo e apresentaram apenas dois sintomas, o grupo passa a representar 50% do total de infectados.

Isso dá uma noção melhor do tamanho do desafio que é identificar e isolar quem foi infectado para quebrar a cadeia de transmissão do vírus e controlar a pandemia.

“Metade das pessoas que têm covid-19 não sabem disso porque não têm sintoma ou tem um sintoma muito leve, como dor de cabeça e coriza, por exemplo, e isso não é necessariamente associado a essa doença. Essas pessoas continuam circulando e transmitindo o vírus”, afirma Silva.

O epidemiologista Lúcio Botelho, professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), considera esse índice “assustador”.

Especialmente porque apenas 2,55% dos participantes da pesquisa afirmaram ter sido testadas para covid-19 com exames moleculares, que são os que permitem diagnosticar a doença.

“Sem conseguir fazer testes em massa, a gente não tem como saber quem está transmitindo o vírus ou não. Isso significa que o isolamento é fundamental, porque é a única forma que temos hoje de impedir que isso aconteça”, afirma Botelho.

Perguntas em aberto

Por fim, o estudo espanhol aponta que, entre as pessoas que haviam feito um teste molecular para covid-19, 87% tinham anticorpos contra o Sars-cov-2.

Isso é um bom sinal, porque aponta que nosso corpo desenvolve alguma forma de proteção contra esse novo vírus.

Na pesquisa, foram analisados apenas os anticorpos conhecidos com Igg, que são aqueles criados para que o organismo seja capaz no futuro de combater uma mesma ameaça de forma mais eficiente.

O imunologista Renato Astray avalia que o índice de 13% que não desenvolveram anticorpos pode ter sido causado por um erro de diagnóstico, porque os testes rápidos usados nesta fase do estudo dão resultados com um índice de precisão de apenas 79%.

Astray diz que só será possível confirmar ou refutar essa hipótese nas próximas etapas da pesquisa, quando será feito um tipo de teste de anticorpos laboratorial que tem uma precisão maior, em torno de 95%

Também será necessário fazer mais pesquisas para compreender se essa resposta imunológica é realmente eficiente.

“Ter anticorpos não necessariamente significa estar protegido, porque esse anticorpo precisa ser do tipo neutralizante para impedir o vírus de infectar a célula”, afirma o imunologista.

O virologista Aguinaldo Pinto, professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC, explica que isso não ocorre, por exemplo, com o vírus HIV.

“Uma pessoa que tem HIV tem uma quantidade enorme de anticorpos Igg, mas eles nunca são neutralizantes, e o paciente desenvolve a Aids se não fizer o tratamento”, afirma Pinto.

Outro aspecto importante é verificar se essa imunidade é de curto ou longo prazo. O virologista afirma que, mesmo quando desenvolvemos um anticorpo, ele não se mantém necessariamente para sempre no organismo.

“Isso acontece com a caxumba, por exemplo, que gera uma memória imunológica de longo prazo, mas não com o rotavírus, que causa diarreia em uma criança. O anticorpo contra ele dura por um tempo e depois desaparece. Só vamos descobrir em qual caso o coronavírus se encaixa com o passar do tempo”, afirma Pinto.

Também será preciso fazer mais pesquisas para compreender um aspecto intrigante dos dados apresentados até agora pelo estudo espanhol.

A taxa de participantes com anticorpos são bem diferentes entre as faixas etárias. Os índices em crianças de 0 e 9 anos variam entre 1,1% e 3% e são sensivelmente menores do que entre os idosos, que apresentam taxas entre 5,1% e 6,9%.

“O esperado seria que a maioria dos grupos tivessem a mesma produção de anticorpos”, diz Pinto.

Uma explicação possível é que o sistema imunológico de crianças muito jovens ainda está em formação, o que levaria a uma menor produção de anticorpos.

Mas isso também deveria ser visto em idosos, porque nosso sistema imunológico começa a se deteriorar a partir dos 60 anos, o que prejudica seu funcionamento, diz Astray.

“Os níveis diferentes são porque as crianças tiveram uma exposição menor ao vírus ou porque não desenvolveram anticorpos? Essa é uma interrogação que fica.”

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