Laboratório da UFSC monitora caravelas e medusas, as chamadas águas-vivas, populares no verão de SC

07/01/2020 11:45

Medusa Chrysaora lactea, na Ilha do Campeche. Foto: Ruan Luz

O Laboratório de Biodiversidade Marinha da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desenvolve um projeto de monitoramento de caravelas e medusas, animais popularmente denominados de águas-vivas e que podem causar milhares de acidentes no verão catarinense. Os principais objetivos da atividade são identificar as espécies predominantes, obter dados mais precisos sobre a sazonalidade e abundância desses animais, bem como acerca dos eventuais “blooms” (surtos de crescimento rápido e sem controle no meio aquático).

O projeto foi iniciado em dezembro de 2019 e envolve a identificação e quantificação de caravelas e medusas encalhadas em praias de Florianópolis. A ação será realizada ao menos duas vezes por mês, por dois anos. Alguns monitoramentos também são promovidos em Imbituba e em São Francisco do Sul, também no litoral catarinense.

A medusa Chrysaora lactea. Foto: Alberto Lindner

Entre janeiro e março de 2020, a atividade ainda ocorrerá nas praias do Rincão, em Santa Catarina, e do Cassino, no Rio Grande do Sul, pelas equipes da professora Mainara Figueiredo Cascaes, da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), e do professor Renato Nagata, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), respectivamente. Pela UFSC, participam os estudantes Roberta Elis e Pedro de Oliveira, do curso de graduação em Biologia, a mestranda Mariana Mazza, do Programa de Pós-Graduação (PPG) em Ecologia, e a pós-doutoranda Renata Arantes, do PPG em Oceanografia.

Caravela-portuguesa, Physalia physalis, rolada na praia. Foto: Alberto Lindner

O coordenador do projeto, o professor Alberto Lindner, do Departamento de Ecologia e Zoologia do Centro de Ciências Biológicas (CCB), ressalta a importância da pesquisa. “Apesar da má fama das medusas, a maioria das espécies é muito pequena e não causa acidentes. No meu mestrado na USP [Universidade de São Paulo], por exemplo, estudei o ciclo de vida de uma medusa com apenas 3 milímetros de diâmetro. Medusas maiores, entretanto, podem causar acidentes em humanos, mas isso depende da espécie, o que torna importante a correta identificação desses organismos”, salientou Lindner.

A cubomedusa Chiropsalmus quadrumanus, em São Francisco do Sul. Foto: Roberta Elis

Além da caravela-portuguesa (Physalia physalis), seis espécies de medusas de maior tamanho (5 a 30 centímetros) são encontradas com certa frequência em Santa Catarina. Uma dessas espécies é a cubomedusa Chiropsalmus quadrumanus, descrita em 1859 por Fritz Müller em Florianópolis. Essa espécie é do mesmo grupo da famosa vespa-do-mar do Indo-Pacífico (Chironex fleckeri), animal marinho mais venenoso já encontrado.

‘Queimadura’ em humanos e o papel ecológico

As medusas podem ter longos tentáculos com milhares de cnidócitos, células urticantes responsáveis pela captura das presas e que também causam os envenenamentos acidentais em humanos, chamados popularmente de “queimaduras”. As medusas, no entanto, não flutuam como as caravelas e nadam ativamente com seus corpos em forma de guarda-chuva.

Medusa Chrysaora lactea, na Ilha do Campeche. Foto: Ruan Luz

“É importante lembrar que as medusas têm um importante papel ecológico, tanto como predadores como presas para peixes, aves e tartarugas. Por exemplo, a tartaruga-de-couro, maior espécie de tartaruga marinha e que pode chegar a mais de 600Kg, alimenta-se exclusivamente de medusas e outros invertebrados. E podem ingerir, diariamente, o dobro do seu peso em medusas”, destacou o professor Lindner. “Infelizmente, é uma das espécies de tartaruga que mais teve suas populações reduzidas por atividades humanas, como a pesca, nos últimos cinquenta anos. Além disso, ingerem acidentalmente sacolas plásticas, que elas confundem com suas presas, as medusas”, explicou.

Dentre os resultados obtidos com o monitoramento até o momento, detectou-se um aumento expressivo de encalhes da medusa Chrysaora lactea em Florianópolis no no mês de dezembro de 2019. Nesse mesmo período, também foram observados centenas de exemplares dessa espécie na coluna d’água pelo projeto e pela equipe do Instituto Ilha do Campeche. O monitoramento realizado na semana do Natal na cidade de Imbituba revelou o mesmo padrão, com dezenas de exemplares grandes de Chrysaora lactea encalhados nas praias e nadando na coluna d’água.

O contato com essa espécie causa envenenamento, mas geralmente de menor gravidade em comparação a caravelas ou cubomedusas – espécies achadas em menor frequência. Os próximos monitoramentos serão realizados entre os dias 8 e 10 de janeiro. Ao final da temporada de verão, os pesquisadores divulgarão um balanço com os principais resultados do levantamento.

Mais informações: 

Maykon Oliveira/Jornalista da Agecom/UFSC

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