Jornalismo em debate: análise da cobertura eleitoral na América Latina

12/12/2018 08:35

O Seminário Internacional: mídia, política e credibilidade da informação jornalística marcou os nove anos de fundação do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e contou com duas mesas redondas para debater as temáticas Credibilidade jornalística e Mídia, política e a cobertura das eleições 2018. O evento, promovido pelo objETHOS, com apoio do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJOR) e do Departamento de Jornalismo, foi realizado no dia 30 de novembro no Auditório Elke Hering da Biblioteca Central da UFSC. Pela manhã, o Seminário reuniu professores para discutir credibilidade jornalística, confira na matéria Jornalismo em debate: credibilidade da mídia é tema de seminário.

Para Samuel Lima, pesquisador-chefe do objETHOS, as mesas abordaram temáticas coerentes ao projeto de ensino do curso. “São temas correlatos ao que se discute em sala de aula tanto ao produzir uma notícia tanto ao se discutir teoria do jornalismo e teoria da comunicação”. O objETHOS é um projeto iniciado em 2009, com o objetivo de estudar e monitorar a ética praticada pela mídia e por jornalistas. Integram o projeto pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Associação Educacional Luterana BOM JESUS/IELUSC e da UFSC.

O projeto teve início em setembro de 2009 como uma iniciativa de pesquisa, acompanhamento e monitoramento da ética praticada por jornalistas e mídia. Nossa equipe é formada por pesquisadores experientes de quatro renomadas universidades brasileiras (UFSC, UFPR, UFF e Ielusc), além de pesquisadores em formação em nível de doutorado, mestrado e pós-graduação.

Desenvolvemos pesquisas para teses de doutorado e mestrado, além de estudos específicos sobre ética jornalística, crítica de mídia, identidade profissional, tecnologias associadas ao jornalismo, novos modelos de negócios, modelos alternativos de produção jornalística, mídia independente e novas configurações do ambiente informacional.

No site objETHOS são reunidos estudos sobre conduta e valores em jornalismo, com ênfase em reflexões sobre ética profissional e deontologia, além de resenhas de filmes, artigos e relatórios de pesquisa, e-books, vídeos, entrevistas, códigos de ética e outros materiais.

Mídia, política e cobertura das eleições de 2018

Discutindo sobre temas como os ciclos político-históricos da América Latina, o posicionamento da mídia sobre declarações de candidatos e demais desafios da cobertura no período eleitoral, a mesa de debate da tarde, com o tema “Mídia, política e a cobertura das eleições 2018”, contou com a presença dos professores Gérman Ortiz-Leiva, da Universidade de Rosario, Kelly Prudencio, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o editor executivo do The Intercept Brasil, com intermédio da jornalista Juliana Rosas, da equipe do objETHOS/UFSC.

O professor Ortiz-Leiva abriu a mesa com uma análise das tendências políticas dos países da América Latina. Com exemplo da Colômbia, seu país de origem, e as últimas eleições presidenciais, comentou sobre a forte influência da mídia durante o processo eleitoral. Com o plano de fundo da guerra civil colombiana que durou mais de 50 anos, discutiu sobre a alternância entre governos mais voltados para o populismo e ditaduras armadas, comuns na região latina, incluindo o Brasil.

A professora Kelly Prudencio reforçou os apontamentos do professor colombiano, com a questão da polarização política na América Latina, sobretudo no Brasil. “Polarização [política] é uma falácia” criticou, explicando que funciona como uma lógica que, em ambos os extremos, repetem um ao outro, consequentemente se anulando. Sobre a cobertura midiática, a professora deu ênfase ao posicionamento indiferente e a irresponsabilidade dos veículos de comunicação sobre declarações de candidatos durante todo o processo eleitoral que, além de polêmicas, foram inconstitucionais. Para Prudencio, o jornalismo deve reconhecer sua responsabilidade enquanto via alternativa na comunicação entre a esfera política e a civil.

Também comentou sobre a sua pesquisa, em que analisa mais de duas mil publicações no período do impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef e a construção da ideia da corrupção como problema central na sociedade brasileira. O surgimento de movimentos apartidários, em 2013, primeiro passo para o pedido de impeachment, abriu espaço para a compreensão dos partidos políticos como a fonte de todo o mal no país, e acrescentou: “Na verdade, o real problema da sociedade brasileira é a desigualdade social”.

Leandro Demori, fechou a mesa de debate compartilhando sua experiência como diretor-executivo do site jornalístico The Intercept Brasil. Antes disso, levantou uma observação de que isenção no jornalismo não é sinônimo de honestidade. Na cobertura das eleições, o posicionamento dito isento foi principalmente preocupante, por desconsiderar a impacto dos veículos midiáticos na opinião pública sobre o cenário político.

Demori também comentou sobre o enfraquecimento da mídia de massa e o surgimento da mídia de nicho, em que cada um consome o que mais se aproxima do seu interesse pessoal. Com o exemplo de algumas estratégias de comunicação, o diretor comentou sobre os outros desafios da profissão, como a disputa contra as fake news. Também reiterou a necessidade de alteração da linguagem como maior esforço para atrair o público e aumentar a circulação em aplicativos e redes sociais, com o uso de memes, por exemplo.

Erick Souza / Estagiário de Jornalismo / Agecom / UFSC