Fenômeno raro deixa ostras esverdeadas e mais saborosas; pesquisadores da UFSC explicam

10/04/2026 13:58

Floração de um tipo raro de microalgas na Baía Sul está deixando as ostras esverdeadas. Fenômeno agrega qualidade aos moluscos e não traz riscos à saúde, confirmam os pesquisadores da UFSC. Foto: Divulgação

Um fenômeno raro observado nas últimas três semanas na Baía Sul, em Florianópolis, está mudando o aspecto e a qualidade das ostras cultivadas pelos maricultores locais: a proliferação de microalgas do grupo das diatomáceas nessas águas está fazendo os moluscos apresentarem uma coloração esverdeada. Longe de ser um problema, isso é, na verdade, um fenômeno com grande potencial. De acordo com pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a microalga não produz toxinas e agrega qualidade às ostras, vieiras e mexilhões cultivados, que têm nesses organismos unicelulares uma rica fonte nutricional.

De acordo com o engenheiro de Aquicultura Gabriel Filipe Faria Graff, doutorando em Biotecnologia e Biociências e pesquisador do Laboratório de Biotecnologia e Saúde Marinha (LaBIOMARIS) da UFSC, a ocorrência de ostras verdes já foi observada em Santa Catarina em pelo menos duas ocasiões, há mais de dez anos. Microalgas capazes de conferir coloração a moluscos são registradas recorrentemente em outras localidades, como a região francesa de Marennes-Oléron, onde as chamadas huîtres vertes (literalmente, ostras verdes em francês) são consideradas uma iguaria sofisticada e possuem certificação Label Rouge (Red Label) do Ministério da Agricultura da França – que atesta a qualidade superior de produtos alimentares em comparação a produtos convencionais.

Imagem de microscópio da microalga observada na Baía Sul: estudos genéticos vão investigar se se trata da espécie Haslea ostrearia, que ocorre na França. Foto: Divulgação

Com a confirmação da nova ocorrência de microalgas que, ao que tudo indica, pertencem à espécie Haslea ostrearia – a mesma diatomácea encontrada na França e que produz um pigmento azul chamado marennina -, os pesquisadores partem agora para duas investigações: em primeiro lugar, irão realizar análises moleculares para confirmar a identificação exata da espécie; na sequência, tentarão identificar as condições que podem ter favorecido a repetição do raro fenômeno. “A ideia é observar aspectos como as correntes marítimas, ondas de calor, vento, condições ambientais em geral e cruzar essas informações para verificar o que pode ter favorecido a repetição do fenômeno”, explica Gabriel. “Com esses dados, há uma grande possibilidade de identificar as condições ideais para o cultivo da microalga em laboratório”, indica. Na atual ocorrência, o fenômeno está restrito aos cultivos da Baía Sul, não tendo sido observado na Baía Norte.

Vieiras (foto) e mexilhões cultivados na Baía Sul também estão com a coloração alterada em função das microalgas. Foto: Divulgação

A floração observada este ano foi inesperada, já que os pesquisadores já tinham desistido de localizar essas microalgas nas águas da Baía Sul após o seu último registro. Há algumas semanas, produtores locais como Vinicius Ramos, da Fazenda Marinha Paraíso das Ostras, foram procurados por clientes da região e de outros estados, que relataram que as ostras apresentavam um aspecto “mofado”. A partir desses relatos, o engenheiro de Aquicultura Gabriel foi a campo investigar o caso. Feitas as análises com apoio de pesquisadores do Laboratório de Ficologia (LAFIC) da UFSC, constatou-se que se tratava da ocorrência de diatomáceas do gênero Haslea, o que fez ressurgir a oportunidade de ampliar o conhecimento científico e desenvolver tecnologia em torno desse fenômeno. “Essa microalga tem grande potencial inclusive para aplicações biotecnológicas, como na produção de alimentos e até na área farmacêutica”, ressalta o professor do Centro de Ciências Biológicas (CCB) Rafael Diego da Rosa, coordenador no Brasil da rede internacional de pesquisa EcoHealth4Sea.

Pesquisadores de diferentes laboratórios da UFSC uniram esforços para identificar a microalga durante a nova ocorrência do fenômeno raro: professor Leonardo Rubi Rörig, pós-doutoranda Bruna Rodrigues Moreira, doutorando Gabriel Filipe Faria Graff e professor Carlos Yure Barbosa Oliveira. Foto: Divulgação

Os estudos dessas microalgas estão envolvendo os pesquisadores do LaBIOMARIS e também a equipe do LAFIC, com os professores Leonardo Rubi Rörig e Carlos Yure Barbosa Oliveira, além da pós-doutoranda Bruna Rodrigues Moreira, bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).

Ana Paula Lückman | ana.paula.luckman@ufsc.br
Jornalista | Agecom-UFSC

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