UFSC lidera pesquisa pioneira sobre repercussões da cirurgia de redesignação em mulheres trans

29/01/2026 09:45

Um estudo pioneiro, de abrangência nacional, liderado por pesquisadoras da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), está mapeando as repercussões da cirurgia de redesignação sexual (CRS) em mulheres trans brasileiras. O projeto Redesignadas envolve a parceria entre o Laboratório de Pesquisas, Tecnologias e Inovação em Enfermagem Psiquiátrica, Atenção Psicossocial e Transgeneridades (MentalTrans), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e o Instituto Nacional de Mulheres Redesignadas (Inamur).

O estudo entrevistou 144 mulheres trans que passaram pelo processo de transgenitalização (conjunto de procedimentos médico-cirúrgicos que visam alinhar o corpo com a identidade de gênero da pessoa trans), com o objetivo de compreender as repercussões da cirurgia na saúde mental e física dessas mulheres. A coleta de dados foi feita por meio de questionários socioeconômicos, entrevistas individuais e grupos focais em cada região do Brasil, ao longo das diferentes etapas do estudo.

Virada epistêmica

Além de produzir um levantamento estatístico inédito acerca dessa temática, o projeto marca uma virada epistêmica por se tratar de um estudo conduzido com, para e sobre mulheres trans e travestis, o que rompe com a tradição acadêmica de tratar essa população apenas como objeto de estudo. De acordo com a professora Helena Moraes Cortes, que atua no Departamento de Enfermagem da UFSC e coordena o estudo, essa foi uma escolha baseada numa visão de mundo, de sentido e de posicionamento político. “Sou uma mulher trans redesignada, militante e pesquisadora, e estou coordenando esse trabalho junto com outras mulheres trans redesignadas e também com mulheres cis-aliadas, com trajetória no movimento social. A coleta de dados foi realizada por mulheres trans redesignadas numa lógica de pesquisadoras comunitárias. Isso muda tudo”, enfatiza a professora.

Helena observa que, historicamente, as mulheres trans sempre foram estudadas “a partir de olhares de fora, muitas vezes marcados por uma lógica colonial, branca e cisgênera que fala sobre e por nós, mas não com a gente. O Redesignadas rompe com isso”. Segundo ela, a vivência das pesquisadoras contribui para a qualidade do trabalho em todas as etapas. “Quando somos nós [mulheres trans] que conduzimos a pesquisa, as perguntas nascem também das nossas próprias experiências, a escuta é mais cuidadosa e o diálogo acontece com confiança”, ressalta. “Deixamos de ser apenas ‘objeto de pesquisa’ e passamos a ocupar o lugar de quem pensa, analisa e produz conhecimento sobre a própria realidade. Essa é a grande virada epistêmica. É uma forma de fazer ciência que desloca hierarquias, valoriza saberes construídos na vida e no território e afirma que nossas (trans) experiências são fontes legítimas e orgânicas de um conhecimento que rompe com a lógica perversa cisgênera”, acrescenta a professora Helena.

Resultados parciais

As pesquisadoras estão trabalhando nos dados coletados e devem apresentar os resultados consolidados por meio do Dossiê Redesignadas chancelado pela UFSC e pelo Inamur, documento que deverá servir como guia para políticas públicas e práticas de enfermagem, focando no cuidado pós-operatório – área pouco explorada pela literatura médica tradicional. Mesmo antes da conclusão da publicação, a coordenadora do estudo antecipa que, das 144 respondentes, observou-se perfil predominante composto por mulheres trans (97,2%), não intersexo (77,8%), heterossexuais (81,3%), solteiras (63,2%), autodeclaradas não-brancas – pretas, pardas, indígenas e amarelas (57,6%) e situadas na faixa etária entre 31 e 44 anos (43,4%). A idade média das participantes é de 40 anos, variando entre 22 e 76 anos de idade. A maioria das respondentes reside nas regiões Centro-Oeste (31,7%) e Sudeste (28,9%).

Os achados iniciais mostram um contraste importante: de um lado, as participantes revelaram uma alta satisfação com os resultados estéticos e funcionais da cirurgia, com repercussão positiva na qualidade de vida, na autoestima e na ampliação das interações sociais. De outro lado, ficaram evidentes as falhas do sistema de saúde. “Os dados revelam a necessidade de maior capacitação dos profissionais para o atendimento das demandas específicas pós-cirúrgicas, além do combate urgente à transfobia nos espaços institucionais”, aponta a professora Helena Cortes. O acesso à cirurgia ainda é visto como uma conquista de longo prazo, muitas vezes ligada à estabilidade financeira ou a anos de espera nas filas do Sistema Único de Saúde (SUS).

Resistência

Embora o Censo de 2022 não tenha incluído questões sobre identidade de gênero, a estimativa é de que cerca de 2% da população adulta brasileira seja de pessoas identificadas como transgêneros ou não-binárias. O dado, de 2021, foi divulgado em pesquisa realizada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e publicada na revista Nature Scientific Reports.

Para além da falta de dados oficiais consistentes sobre essa população, os achados de pesquisa do projeto Redesignadas confirmam o enfrentamento de barreiras cotidianas pelas pessoas trans, que limitam também, de forma concreta, o acesso a direitos básicos como educação e saúde. “Essas barreiras não são abstratas, elas se materializam em trajetórias interrompidas, em portas que não se abrem e em instituições que, muitas vezes, ainda não estão preparadas para acolher corpos e existências que desafiam a norma imposta. A universidade ocupa um lugar central nesse cenário. Ao mesmo tempo em que se afirma como espaço de produção de conhecimento crítico, diversidade e compromisso social, ela também revela suas contradições. A transfobia no ambiente universitário raramente aparece apenas como agressão direta; ela se expressa, sobretudo, no não acesso de estudantes trans, na evasão forçada, na ausência de políticas de permanência e na resistência explícita ou velada às ações afirmativas, por exemplo”, analisa a professora Helena Cortes.

Um dos desafios recorrentemente enfrentados na Universidade, indica Helena, é a crítica à política de cotas para esse grupo populacional – uma medida de reparação social que, segundo a professora, encontra vozes contrárias amparadas em discursos meritocráticos. “A luta das pessoas trans, inclusive dentro da Universidade, é diária. Ela exige vigilância constante, posicionamento político e compromisso institucional para que o direito à educação não seja apenas formal, mas vivido com dignidade, permanência e reconhecimento”, defende. “Ainda assim, é importante reconhecer que os avanços são construídos a partir da luta coletiva e também neste sentido devo destacar a força de muitas pessoas cis-aliadas. A presença cada vez maior de pessoas trans e também cis-aliadas nos espaços universitários, a produção acadêmica comprometida com perspectivas críticas e despatologizantes e o fortalecimento dos movimentos sociais têm tensionado estruturas historicamente excludentes e ampliado as possibilidades de trans-formação institucional”, finaliza a pesquisadora.

Sobre o Dia Nacional da Visibilidade de Pessoas Trans

A data de 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade de Pessoas Trans, remete à ocupação histórica do Congresso Nacional por lideranças trans e travestis, em 2004, acontecimento que conferiu visibilidade inédita às pautas dessa população no âmbito estatal. No mesmo ano, a campanha “Travesti e Respeito” foi lançada em 2004 pelo Ministério da Saúde em articulação com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Hoje, o debate migra para as salas de aula e laboratórios de pesquisa. Ao abrir as portas para pessoas trans e travestis como sujeitos de direitos e produtoras de saber, a UFSC não apenas corrige uma desigualdade histórica, mas enriquece o ambiente acadêmico com novas perspectivas de mundo.

Assista abaixo ao vídeo da série UFSC Explica sobre transfobia.

Ana Paula Lückman | ana.paula.luckman@ufsc.br
Jornalista | Agecom| UFSC

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