Pesquisa quantifica a falta de diversidade na Física brasileira

24/06/2020 08:53

Homens brancos, heterossexuais e cisgênero que vivem no Sudeste do país: esse é o retrato dos físicos brasileiros, segundo uma pesquisa realizada por cientistas associados ao Grupo de Trabalho sobre Questões de Gênero da Sociedade Brasileira de Física (SBF). O levantamento teve o objetivo de quantificar a diversidade e a representatividade de diferentes grupos entre os profissionais da área e detectar motivações e dificuldades encontradas ao longo dos estudos e da carreira. Os resultados foram publicados no início do mês na revista científica internacional Physical Review Physics Education Research. Assinam o artigo pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) — esta última representada pela professora do Departamento de Física Débora Peres Menezes e pela estudante de bacharelado em Física Beatriz Nattrodt D’Avila

A pesquisa se baseou em um questionário respondido entre julho e setembro de 2018 por 1.695 membros da SBF — 44% do total de associados à época. Desses, 68% são homens; 88%, heterossexuais; 95%, cisgênero (3% preferiram não responder ou se classificar e cerca de 2% são transgênero); e 6,2% têm alguma alguma deficiência. Ainda, 61% se autodeclaram brancos; 20%, pardos; 6%, negros; 2%, asiáticos; 1%, indígenas; 1% declaram “outro” e 9% preferiram não responder ou se classificar. A título de comparação, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 56% da população brasileira é negra (incluindo pretos e pardos). Outro dado que chama a atenção é a alta concentração de físicos no Sudeste do país — 59% do total. 

Esses dados atestam a falta de representatividade dos diversos grupos que compõem a sociedade brasileira, entretanto, comenta Débora, não foram recebidos com grande surpresa pelos pesquisadores: “Que são homens e brancos, a gente sabia, mas não sabia qual a porcentagem, que é maior do que a gente esperava. Que grande parte dos físicos está concentrada no eixo Rio-São Paulo, a gente também sabia, mas também não sabia que porcentagem era tão alta”. Além de muito populosos, Rio de Janeiro e São Paulo são estados que possuem grande quantidade de escolas, universidades e institutos de pesquisa, o que, somado a uma atuação forte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), colabora para ampliar as ofertas de trabalho na área e a concentração de profissionais na região, de acordo com a docente.

O estudo também evidencia que a desigualdade tende a aumentar ao longo da carreira. À medida que se progride, há cada vez menos mulheres e negros e, consequentemente, mais homens brancos. Elas, inclusive, são maioria entre os entrevistados com ensino médio completo e entre os alunos do primeiro ano da graduação, no entanto, sua presença relativa tende a diminuir entre os que terminam a faculdade. Na pós-graduação, observa-se a mesma tendência, com uma proporção maior entre as que concluem mestrado do que entre as que finalizaram o doutorado. 

Especificamente em relação à condição das mulheres na Física — foco maior desse e de outros trabalhos de Débora —, o fenômeno é chamado de efeito tesoura: elas são cortadas das posições de destaque. A professora cita dois estudos anteriores que ilustram essa questão. Em um deles, feito com alunas dos 8º e 9º anos do ensino fundamental e do ensino médio, observou-se que a proporção de meninas medalhistas na Olimpíada Brasileira de Física diminui ao longo das séries, enquanto aumenta a de garotos. Em outro, que avaliou bolsistas de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), constata-se a mesma situação: quanto mais alto o nível da carreira, menor o percentual de mulheres. 

Dificuldades, discriminação e assédio

O levantamento também avaliou que a principal dificuldade enfrentada pelos físicos nos estudos e na carreira se refere à vulnerabilidade econômica. “Chamou atenção a quantidade de gente que diz que não consegue avançar, seja nos estudos, seja na carreira, por problemas sociais. Nos estudos, por vulnerabilidade socioeconômica. A Física é um curso muito puxado, que demanda um estudo de dia inteiro, e se a pessoa não tem como se sustentar, fica difícil. E, na carreira, são outros problemas. As mulheres, por exemplo, têm muita dificuldade de avançar porque a gente vê que acabam sendo responsáveis pela casa, pelo cuidado dos filhos”, explica Débora.

Uma grande porcentagem dos entrevistados já observou ou teve conhecimento de discriminação de colegas nos ambientes de estudo e de trabalho com relação a várias questões, incluindo gênero, orientação sexual, raça ou etnia, status socioeconômico, origem geográfica e religião. Isso contrasta com a autopercepção dos entrevistados — relativamente poucos afirmaram se sentir discriminados —, o que pode estar relacionado ao fato de que aqueles que sofrem mais estão sub-representados na comunidade e, consequentemente, na população de entrevistados. Entre as mulheres, 46,7% indicaram ter sofrido discriminação em razão do gênero, enquanto esse percentual cai para apenas 1,2% entre os homens. Em relação, à discriminação por raça ou cor, o índice é de 45,5% entre os negros e 7,7% entre os pardos, enquanto a discriminação por questões socioeconômicas afetou 49,4% dos negros, 32,9% dos pardos e 18,6% dos brancos. 

Os índices de assédio também chamaram a atenção dos pesquisadores. Quase 12% dos entrevistados relataram ter sofrido assédio sexual, sendo que o percentual é muito maior entre as mulheres (32%) do que entre os homens (2%). Já o assédio moral foi declarado por 38% das pessoas. O índice foi de 31% entre os homens e de 52% entre as mulheres. “Nos surpreendeu bastante o assédio, que é muito alto. E há assédio moral em todos os níveis da academia. Reclamam de assédio moral estudantes, pós-doutorandos, professores contratados, que reclamam de chefias”, enfatiza a professora, que frisa que o questionário aplicado possui limitações e que há outros aspectos que precisam ser melhor trabalhados em estudos futuros, como experiências de racismo e as dificuldades e demandas específicas de negros, LGBTI+ e pessoas com deficiência.

Afinal, para que diversidade?

“As pessoas diferentes vêm de ambientes diferentes, pensam diferente, agem diferente. Isso tudo enriquece. Imagina se você bota pessoas todas iguais pra resolver um problema. Elas todas vão enxergar o problema da mesma forma e vão trabalhar atrás da mesma solução, do mesmo jeito. Então, sempre que a gente tem um ambiente diverso, ele é melhor, ele é mais inovador, tem mais ideias. A ciência não é exceção, e na ciência exata vai ser a mesma coisa”,  afirma Débora. Ou seja, quanto mais diversificadas as experiências de vida, melhores tendem a ser as soluções propostas. Essa relação começa a ficar clara para muitas empresas, inclusive. Um estudo da consultoria estadunidense McKinsey aponta que organizações com maior diversidade de gênero em cargos executivos têm 21% mais chance de ter lucros acima da média que as que apresentam pouca diversidade. No caso de diversidade étnico-racial, a diferença é ainda maior: 33%.

A pouca diversidade na Física não é exclusividade brasileira, mas um problema mundial. Débora defende que o primeiro passo para resolver o problema é olhá-lo de frente e aceitar que ele existe daí a importância de levantamentos como o feito pelo grupo da SBF e da divulgação dos dados. “Depois, é preciso trabalhar em termos de políticas que sejam mais agregadoras para as pessoas que estão alegando ter dificuldades muito grandes. Se a gente quer um ambiente mais inclusivo e mais diverso, a gente precisa tentar sanar ou diminuir as barreiras que estão impostas para essas pessoas se juntarem às que têm menos dificuldades. Acho que temos avançado ao longo das últimas décadas, mas estamos muito longe de um quadro de fato inclusivo”, salienta a professora.

Leia o artigo científico na íntegra.

 

Camila Raposo/Agecom/UFSC

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