UFSC desenvolve painel público de dados para monitorar invasão do coral-sol no litoral brasileiro

11/03/2026 13:12

O dashboard é um  painel público de dados desenvolvido por pesquisadores da UFSC para auxiliar nas ações envolvendo coral-sol (Tubastraea coccinea). Foto: Acervo PACS Arvoredo – Marcelo Crivellaro

Um painel público de dados desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) está fortalecendo as ações de monitoramento e manejo do coral-sol (Tubastraea coccinea) no litoral brasileiro. A ferramenta reúne informações atualizadas sobre a invasão da espécie e transforma dados coletados em campo em indicadores estratégicos que auxiliam gestores ambientais e pesquisadores na tomada de decisões. 

O dashboard, acessível ao público, funciona como uma central de visualização de dados processados. A proposta é transformar registros técnicos em métricas claras e visualmente intuitivas, permitindo acompanhar em tempo real a evolução da presença do coral-sol e as ações de controle realizadas ao longo do tempo.

A iniciativa segue o princípio de detecção precoce e resposta rápida, considerado essencial no enfrentamento de espécies exóticas invasoras que ameaçam ecossistemas marinhos. Para que o painel funcione de forma eficiente, os dados coletados em campo são inseridos em um banco de dados relacional estruturado, com campos específicos para cada variável ambiental e operacional. Essa modelagem garante padronização, qualidade e confiabilidade das análises. Os dados são armazenados na Base de Dados Nacional de Espécies Exóticas Invasoras, mantida pelo Instituto Hórus. Para facilitar o processo de registro, foi criada uma interface para gestores do ICMBio e pesquisadores do projeto.

Nessa plataforma, é possível registrar: dados de monitoramento das colônias de coral-sol;  informações sobre manejo, incluindo retirada de colônias; fotografias georreferenciadas das manchas da espécie e características do ambiente, como profundidade, geomorfologia e acessibilidade. Essa integração permite localizar com precisão as áreas invadidas e planejar intervenções futuras com maior eficiência. 

Com os dados estruturados, o painel apresenta indicadores estratégicos que auxiliam na gestão adaptativa.

O pesquisador Thiago Cesar Lima Silveira, criador do painel e integrante do Laboratório de Ecologia de Ambientes Recifais (Labar), explica cada um dos indicadores apresentados no dashboard:

Detecções por Unidade de Esforço (DPUE) é calculado pela divisão do número total de detecções pelo esforço de amostragem (tempo e unidade de área), permitindo comparar diferentes períodos e localidades de forma padronizada, identificando tendências de aumento ou redução da invasão.

Índice de Abundância Relativa (IAR-DAFOR) é baseado na escala DAFOR (dominante, abundante, frequente, ocasional, raro, ausente), o índice transforma categorias qualitativas em valores numéricos. Nos gráficos, é possível visualizar tanto a soma do IAR por localidade quanto a distribuição das categorias.

Ocorrências representam a distribuição espacial da espécie em mapa interativo. Cada registro pode incluir: localidade, data, profundidade, tipo de geomorfologia (toca, caverna, lage, matacão, paredão etc.) e grau de acessibilidade foto associada. Esse recurso facilita a identificação de áreas prioritárias para manejo.

Massa manejada mostra  quantidade total de coral-sol removida ao longo do tempo por localidade. É um dos principais indicadores de eficácia das ações de controle.

Último manejo indica quantos dias se passaram desde a última intervenção, ajudando a manter regularidade nas ações.

Último monitoramento mostra o intervalo, em dias, desde o último monitoramento realizado.

Número de monitoramentos por localidade permite avaliar o esforço amostral e identificar áreas que necessitam maior atenção.

O painel apresenta indicadores estratégicos que auxiliam na gestão adaptativa. Foto: Acervo PACS Arvoredo – Marcelo Crivellaro

O painel de dados é aberto ao público e permite acompanhar, em tempo real, a evolução do monitoramento e manejo do coral-sol. Já a inserção de dados na base nacional é restrita a gestores do ICMBio e pesquisadores autorizados, garantindo a integridade das informações. A iniciativa demonstra como tecnologia, padronização de dados e ciência aplicada podem ajudar na resposta rápida no controle de espécies exóticas invasoras e apoiar a conservação dos ecossistemas marinhos brasileiros. A ferramenta está disponível ao público no endereço  dashboard Coral Sol.

Além do painel público, o projeto de controle do coral-sol na Rebio Arvoredo também deu origem a outros produtos acadêmicos. Artigo publicado no Marine Pollution Bulletin (ScienceDirect) traz os resultados de um estudo realizado pelo Labar em colaboração com pesquisadores de outros países. O estudo validou cientificamente o protocolo visual utilizado no monitoramento do coral-sol no Atlântico Ocidental.

A pesquisa foi realizada na Reserva Biológica Marinha do Arvoredo e comparou o método visual com a fotogrametria 3D (Structure-from-Motion), tecnologia de alta precisão para modelagem tridimensional de ambientes rochosos. Os resultados demonstraram que o método visual é confiável, não há viés significativo entre observadores treinados, as estimativas são consistentes com as obtidas por fotogrametria e a abordagem é cerca de 90 vezes mais rápida.

Além disso, o estudo permitiu estimar a área superficial tridimensional das colônias de Tubastraea coccinea, espécie que ocupa cavidades e faces sombreadas de rochas,  microhabitats pouco explorados por espécies nativas. A validação confirma que o protocolo é eficiente para programas contínuos de monitoramento, inclusive em áreas de difícil acesso.

O monitoramento do coral-sol é uma ação essencial para proteger a biodiversidade da Rebio Arvoredo. Por meio do trabalho contínuo da equipe, é possível controlar a propagação dessa espécie exótica invasora. 

Através do link Coral-sol é possível acompanhar a equipe em um dia de trabalho.

Equipe realizando monitoramento do Coral Sol. Mergulhador fazendo anotações sobre o Coral Sol. Foto: Acervo PACS Arvoredo – Marcelo Crivellaro

Mergulhador fazendo anotações sobre o Coral Sol. Foto: Acervo PACS Arvoredo – Marcelo Crivellaro

 

Rosângela Matos agecom@contato.ufsc.br
Estagiária da Agecom | UFSC

 

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Pesquisa da UFSC desenvolve tecnologias para controle de espécie invasora de coral

09/01/2026 12:02

Pesquisadores desenvolveram equipamentos para remoção mecânica dos corais. Foto: Marcelo Schuler Crivellaro/ PACS Arvoredo.

Um grupo de pesquisadores liderado por dois professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) desenvolveu um projeto de pesquisa para monitoramento e controle da proliferação de uma espécie exótica de coral na Reserva Biológica Marinha do Arvoredo (Rebio Arvoredo). O Plano de Ação para Prevenção e Controle do Coral-Sol na Rebio Arvoredo e Entorno (PACS Arvoredo) proporcionou o desenvolvimento de técnicas e ferramentas de manejo do coral-sol (Tubastraea coccinea), espécie invasora que pode prejudicar a biodiversidade de ecossistemas marinhos no Brasil. Atualmente, o grupo está elaborando um protocolo de monitoramento para sistematização dessas atividades em Unidades de Conservação (UC) federais que enfrentam o problema de espécies invasoras de coral.

A reserva biológica marinha do Arvoredo, localizada entre Florianópolis e Bombinhas (SC), abrange uma área de 17.600 de hectares de superfície e abriga as Ilhas do Arvoredo, Galé, Deserta e Calhau de São Pedro, áreas marinhas biodiversas, espécies ameaçadas, remanescentes de Mata Atlântica e sítios arqueológicos, além de ser fundamental para a reprodução de peixes e a manutenção dos estoques pesqueiros. Na Rebio Arvoredo, essa ameaça é mais preocupante. “A unidade de conservação abriga ecossistemas únicos, como os recifes submarinos, além de uma diversidade biológica que sustenta elevada produtividade pesqueira no entorno. Qualquer desequilíbrio nesse sistema pode gerar impactos ambientais e socioeconômicos significativos”, afirma a pesquisadora Bárbara Segal, do Departamento de Ecologia e Zoologia (CCB), coordenadora da pesquisa junto com o professor Andrea Piga, do Departamento de Engenharia da Mobilidade (CTC Joinville).

O coral-sol é uma espécie originária do Indo-Pacífico e chegou ao Brasil por volta da década de 1980, provavelmente transportado em cascos de navios e plataformas de petróleo. Desde então, vem se espalhando ao longo da costa brasileira. Na Rebio Arvoredo, as primeiras ocorrências foram constatadas em 2012. Ao dominar o ambiente recifal, ele reduz o espaço disponível para espécies nativas, alterando a estrutura dos ecossistemas e causando perda de biodiversidade marinha brasileira, explica a professora Bárbara. “Estamos trabalhando no monitoramento das áreas controladas e na detecção precoce da invasão em áreas em que o coral ainda não foi visto. Além disso, está sendo elaborado, em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), um protocolo de monitoramento para sistematização dessas atividades em Unidades de Conservação Federais (UCs) que enfrentam o mesmo problema”.
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