UFSC na Mídia: professores da UFSC participam da descoberta de estrela com brilho peculiar

23/11/2018 11:06

Os professores do Departamento de Física da UFSC Roberto Saito e Raymundo Baptista  participam da pesquisa que descobriu a estrela VVV-WIT-07, com variações peculiares no seu brilho. A alterações da VVV-WIT-07 são  semelhantes às da Estrela de Tabby, outro objeto incomum, associado especulativamente a uma suposta atividade alienígena. Os pesquisadores buscam uma explicação sobre as variações no brilho; entre as hipóteses estão cometas ou fragmentos de um planeta destroçado.

Confira o texto da revista Scientific American na íntegra:

“Será que os astrônomos descobriram outra estrela com uma ‘megaestrutura alienígena’?”

Uma estrela distante no céu do Hemisfério Sul está piscando de uma maneira estranha, o que sugere que há uma nuvem bizarra de material – ou algo ainda mais estranho – em órbita ao redor dela. Descoberta por astrônomos usando um telescópio do Chile, a estrela lembra outros dois objetos astrofísicos enigmáticos. Um deles é um planeta com anéis 200 vezes maiores que os de Saturno. O outro é mais famoso pela remota possibilidade de estar rodeado por “megaestruturas alienígenas”. A nova estrela pode ajudar a lançar alguma luz sobre um ou ambos os objetos misteriosos.

Em 2010, a pesquisa Variáveis Vista na Via Láctea (VVV) iniciou seu projeto de criação de um mapa tridimensional de estrelas variáveis nas proximidades do centro da Via Láctea. Como parte do projeto, o astrônomo Roberto Saito, da Universidade Federal de Santa Catarina, vasculhou os dados do telescópio em busca de explosões de centenas de milhões de estrelas monitoradas. Mas a coisa mais notável que ele encontrou não foram explosões, e sim uma estrela que misteriosamente apresentou um enfraquecimento do seu brilho durante vários dias em 2012. Ele e seus colegas relataram suas descobertas em um artigo recentemente publicado na revista Monthly Notices da Royal Astronomical Society.

Estrela VVV-WIT-07, marcada por um “+”.

Conhecida como VVV-WIT-07, a estrela parece ser muito mais antiga e avermelhada do que o nosso Sol, embora a quantidade de poeira interestelar entre o nosso Sistema Solar e o local onde a estrela está, mais próxima do centro galáctico, dificulte obter uma classificação exata e medições de distâncias mais precisas. O que é certo é que no verão de 2012 o brilho do objeto diminuiu ligeiramente por 11 dias e depois despencou nos 48 dias seguintes, sugerindo que algo bloqueou mais de três quartos da luz da estrela que fluia em direção à Terra. Mas o que poderia ser  esse “algo”?

De acordo com Eric Mamajek, um astrofísico da Universidade de Rochester não participante da pesquisa do VVV, um grau tão profundo de escurecimento sugere que um objeto ou grupo de objetos incrivelmente grande estava bloqueando a luz. “É preciso ter mais de um milhão de quilômetros de largura e ser muito denso para bloquear tanto a luz de uma estrela”, diz ele. Mamajek sabe o que diz: Ele liderou a equipe que descobriu o J1407, outra estrela estranha que é periodicamente eclipsada por um objeto do tamanho de um planeta, que se acredita possuir um sistema de anéis maciços, cerca de 200 vezes mais amplo que os de Saturno. Neste último caso, diz ele, os estranhos sinais do VVV-WIT-07 poderiam surgir de aglomerados ou nuvens de material passando entre a Terra e a estrela, mas ele advertiu que os dados eram preliminares e mais observações são necessárias.

Tabetha Boyajian concorda. Boyajian, um astrônomo da Universidade do Estado da Luisiana foi o principal autor do artigo de 2015 que anunciava o estranho escurecimento do KIC 8462852, também conhecido como Estrela de Tabby, um objeto incomum descoberto pela primeira vez pelo Telescópio Espacial Kepler da NASA. O VVV-WIT-07 teria que abrigar “um tipo muito peculiar de nuvem de poeira para conseguir fazer essas coberturas”, diz Boyajian. O estudo de Boyajian ajudou a desencadear uma onda de interesse público sobre o Estrela de Tabby, porque o escurecimento incomum da estrela podia ser visto como evidência de uma civilização alienígena construindo uma estrutura artificial que absorveu a luz da estrela. Explicações mais convencionais incluem uma porção de cometas ou fragmentos de um planeta destroçado, ambos criando nuvens significativas de poeira e detritos que também poderiam obstruir a luz da estrela. Mas, até agora, nenhuma explicação simples se encaixa nas complexidades do escurecimento visto em torno do astro; os pesquisadores permanecem frustrados em suas tentativas de entender a verdadeira natureza do estranho escurecimento do Estrela de Tabby.

Os astrônomos rastreiam esses escurecimentos traçando a intensidade da luz de uma estrela ao longo do tempo, uma figura conhecida como “curva de luz”. A curva de luz de J1407 mostra que seus anéis enormes ocasionalmente podem bloquear até 95% da luz da estrela. A curva de luz da Estrela de Tabby sugere que quaisquer órbitas que lá ocorram obscurecem cerca de 20 por cento da emissão luminosa da estrela. Isso faz do VVV-WIT-07 um caso intermediário, diz Saito. “Nosso objetivo é semelhante no sentido de que também estamos tentando explicar o comportamento na curva de luz com base no material ao redor de uma estrela”, diz ele.

Com base em seus dados, incluindo observações de acompanhamento feitas em 2016, Saito e seus colegas especulam que a estrela pode continuar a piscar em 2019, potencialmente exibindo quatro eventos adicionais de escurecimento ao longo do ano, enquanto o misterioso material que bloqueia a luz continua sua órbita ao redor do Estrela. Se essas previsões forem confirmadas, elas podem ser a chave para desvendar não apenas os mistérios por trás do VVV-WIT-07, mas também aqueles que cercam a Estrela de Tabby.

“Tendo uma amostra das duas, podemos ter duas estrelas para estudar em vez de uma para tentar unificar uma teoria sobre o que está acontecendo”, diz Boyajian. Se ambos os escurecimentos estelares são causados pelo mesmo processo natural, é menos provável que algo incomum esteja acontecendo – como projetos de construção cósmica superdimensionais

Há esperança de que mais dessas peculiares estrelas cintilantes apareçam em um futuro próximo. Saito diz que é possível que a pesquisa com o VVV possa descobrir mais, mesmo que ele não seja otimizado para identificar tais sistemas. O Telescópio The Large Synoptic Survey Telescope (LSST), um instrumento de 8,4 metros que está em construção no Chile, pode até aumentar a quantidade encontrada de membros da coleção ímpar quando começar a operar na década de 2020.

“Acho que vamos começar a encontrar mais objetos como este na era do LSST”, diz Mamajek. “Provavelmente vamos começar a descobrir [estrelas] variáveis estranhas que não foram vistas antes.”

Por enquanto, Saito e seus colegas planejam continuar observando o VVV-WIT-07 com instrumentos infravermelhos no Telescópio New Technology Telescope da ESO e no National Optical Astronomy Observatory`s Southern Astrophysical Research Telescope, ambos contribuindo para as observações da equipe de 2016. A fraqueza intrínseca da estrela – assim como a atenuação de sua luz através de vastas distâncias galácticas – significa que ela é melhor observada em comprimentos de onda próximos ao infravermelho, onde a interferência da poeira interestelar é mínima. Embora a VVV Survey tenha sido concluída no ano passado, uma extensa pesquisa ainda está observando o centro galáctico e podem aparecer outros eclipses que foram perdidos nas observações iniciais.

Espero que estas observações possam lançar alguma luz sobre o que está causando o bizarro escurecimento do VVV-WIT-07. “Isso certamente não é um fenômeno comum”, diz Mamajek. “Estou ansioso pelos resultados futuros.”

 

Texto de Nola Taylor Redd na Scientific American Brasil.

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