Palestra abre trabalhos públicos da Comissão da Memória e Verdade

01/04/2015 12:14

Uma reflexão sobre a ditadura militar no Brasil entre 1964 e 1985 deu o tom na abertura dos trabalhos públicos da Comissão da Memória e Verdade da UFSC, criada em dezembro de 2014, no auditório da Reitoria, na manhã desta quarta-feira, 1º de abril. Na palestra sobre o legado da Comissão Nacional da Verdade (CNV), a advogada e professora universitária Rosa Maria Cardoso da Cunha destacou um conjunto de recomendações para a continuidade da democracia no Brasil. “São medidas de proteção aos direitos, para que não haja repetição daquela conduta de exceção”. Segundo Rosa, que foi coordenadora da CNV entre maio e agosto de 2013, “o direito à verdade não se esgota com os trabalhos de comissões, deve ser estendido na sociedade brasileira”.

Outro ponto ressaltado por Rosa Maria foi a tortura, ainda presente no sistema penitenciário brasileiro: “Não adotamos medidas para combater a tortura. Só ficar preso neste sistema é uma coisa muito grave”.

A reitora da UFSC, Roselane Neckel, enfatizou a “importância de se discutir este período e a história da utopia de um mundo justo”. Ela relembrou um livro escrito por estudantes da Universidade e coordenado por ela quando professora sobre os 50 anos da UFSC, Trajetórias e Conquistas. “Além do livro, vários pesquisadores foram se construindo e a comissão também vai ter este objetivo, com os bolsistas”.

© Pipo Quint / Agecom / UFSC

Comissão da Memória e Verdade abriu trabalhos públicos com palestra. Foto: Jair Quint/Agecom/DGC/UFSC

A coordenadora da Comissão da UFSC, Ana Lice Brancher, ressaltou que foram avaliados 130 inscritos para as bolsas – 11 foram selecionados. “Ficamos felizes pela clareza política dos entrevistados, um sinal de como a juventude está interessada neste processo”.

Militares infiltrados, interferência na grade acadêmica, entre outras formas de repressão foram registradas no livro citado pela reitora, incluindo depoimentos de professores como Ana Lice Brancher, aluna em meados dos anos 1970. “Temos muita coisa a dizer e muito a mostrar com esta Comissão, especialmente com este clima crescente de cultura do ódio, onde pessoas, de forma impensável, ainda querem a volta de uma ditadura”, explica a reitora.

O advogado, assessor de Relações Institucionais da OAB-SC e ex-coordenador da Comissão Estadual da Verdade Paulo Stuart Wright (CEV), Anselmo Duarte, lembrou que “a turma que vai para a rua pedir uma ditadura não tem a menor noção do que aconteceu no Brasil. Falta informação, muita coisa foi apagada. São os efeitos daquele período sinistro: uma geração de lideranças foi sacrificada, banida, e sentimos isto agora”. Ele lembrou que uma das recomendações da comissão que coordenou foi a formação e capacitação de professores da rede estadual de ensino, além da inclusão de estudos sobre o período da ditadura militar no currículo escolar, “para que não se esqueça e nunca mais aconteça”.

A jornalista Ana Paula Luckman representou a reitora do Instituto Federal Santa Catarina (IFSC), Maria Clara Kaschny Schneider, no evento e falou sobre a experiência de produzir o documentário “História recontada: Marcos Cardoso Filho e a ditadura na Escola Técnica” para a IFSCTV. Marcos era professor da Escola Técnica Federal e da UFSC quando foi preso pela Operação Barriga Verde para coibir a reorganização do Partido Comunista Brasileiro (PCB). “As informações eram pouquíssimas, mas aos poucos apareceram colaborações para elaborar um relatório completo a pedido da Comissão Estadual da Verdade e fazer o documentário sobre a história de Marcos”. O professor foi preso e torturado, “mas não baixou a guarda, nunca se deixou humilhar”, destaca Ana Paula, que colocou à disposição da UFSC não só o relatório, mas as três mil páginas de documentos colhidos durante o trabalho.

Representando o Coletivo Catarinense pela Memória, Verdade e Justiça, Derlei de Luca estava animada com a Comissão da UFSC. “Nós trabalhamos desde 1980 na formação da memória do povo catarinense e agora pelo cumprimento das recomendações da CNV”.

O professor do Centro de Ciências Jurídicas (CCJ) e membro da Comissão da UFSC Ubaldo Cesar Balthazar afirmou que as atividades “irão clarificar e identificar o que aconteceu na Universidade, através de pesquisas e entrevistas, entre 1964 e 1988. O relatório será posto à disposição da comunidade para que tudo fique registrado. Quem não conhece seu passado não tem futuro”.

 

Seminário

A UFSC irá sediar, nos dias 10 e 11 de abril, o seminário “Clínicas do Testemunho: Reparação Psíquica e Construção de Memórias”, promovido pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Com painéis na Biblioteca da UFSC, o seminário abordará reparação psíquica, atendimento clínico a pessoas violadas pelo Estado, construção de memórias e a história da repressão em Santa Catarina. A entrada é franca.

Comissão de anistia

 

 

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