Pesquisa de mestrado analisa trajetória de alunos egressos do Pró Universidade

30/08/2013 17:27

Da esquerda para a direita: Lucídio Bianchetti (UFSC), Francini Scheid Martins, Maria das Dores Daros (UFSC), Marilu Diez Lisboa (Uniplac) e Nadir Zago (Unochapecó).

Com o Título “Quando os ‘degradados’ se tornam ‘favoritos’: um estudo de trajetórias de estudantes do pré-vestibular da Universidade Federal de Santa Catarina ingressos em cursos de maior demanda”, a dissertação de mestrado defendida pela pedagoga Francini Scheid Martins, no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSC, analisou a trajetória de nove estudantes egressos do Pró Universidade (anteriormente denominado Pré-Vestibular UFSC).

Em referência ao livro de Reginaldo Prandi “Os favoritos degradados”, publicado pela Editora Loyola, na década de 1980, a pesquisa foi orientada pela professora Ione Ribeiro Valle e coorientação do professor Lucídio Bianchetti, apoiada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), por meio da concessão de Bolsa de Incentivo à Pesquisa.

A pesquisa buscou entender, a partir da análise de aspectos das trajetórias escolares dos entrevistados, como esses estudantes teoricamente destinados ao insucesso, seja pela sua condição econômica ou aspectos familiares, conseguiram modificar seu futuro por meio do ensino superior. A dissertação mostra as dificuldades de ingressar em uma universidade pública e, também, como manter-se nela.

Francini Martins começou seus estudos sobre o assunto em 2010, quando ainda era estudante da graduação, durante o estágio em Orientação Educacional, nas últimas fases do Curso de Pedagogia do Centro de Ciências da Educação (CED) da UFSC. Neste período foram enviados mais de 5 mil e-mails para alunos do cursinho Pró Universidade, destes 926 responderam de forma afirmativa a proposta de acompanhamento. E após uma triagem, nove alunos entre 19 e 34 anos foram selecionados. Os jovens universitários entrevistados ingressaram na educação superior via Políticas de Ações Afirmativas, sendo seis por cotas destinadas a estudantes de escolas públicas e três a estudantes negros. A intenção era de acompanhar os ingressos nos cursos de graduação de maior demanda da UFSC: Direito, Engenharias e Medicina.

A maior dificuldade detectada pela pesquisa da pedagoga foi a falta de informação desses estudantes. Seis alunos recebem ajuda da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae), entretanto outros três nem sequer sabiam que a Universidade poderia dar apoio para o estudante se manter em seu curso. Outro ponto que afeta os estudantes egressos do Pró Universidade é o preconceito sofrido por serem cotistas. Segundo a pesquisa, há três tipos de preconceito. O primeiro é o velado, em que a pessoa não deixa explícito o seu desconforto em estar numa mesma sala de um cotista. Esse tipo é relatado, sobretudo, pelos alunos oriundos de cotas do curso de Direito. O segundo tipo é o explícito, do qual os alunos falam diretamente para os cotistas que não acham certo essa divisão de vagas, pois eles estariam “tirando a vaga de quem merece”. O terceiro e último tipo de preconceito é a negação. Esse é considerado o mais complexo, pois o próprio aluno, que entrou pelo sistema de cotas, é contra esse modelo de distribuição de vagas.

De acordo com a dissertação é errado afirmar que os alunos cotistas têm desempenho inferior aos demais. Os nove estudantes acompanhados na pesquisa de Francini Martins têm performance muitas vezes igual ou até mesmo superior aos outros. A explicação da pedagoga é que, devido à precariedade do ensino público, quando esses alunos chegam à universidade a dedicação aos estudos precisa ser muito maior. Geralmente esses alunos, além de estudar, também trabalham para complementar a renda familiar.

Nessa perspectiva, conclui-se que o caminho para o “degradado” tornar-se um “favorito” é estreito e constituído de muitos percalços. As Políticas de Ações Afirmativas são medidas necessárias, imprescindíveis até, mas que não devem ser eternas. Uma reestruturação na educação pública torna-se cada vez mais indispensável visto que ela é a base para a o ingresso no ensino superior.

No doutorado, a pedagoga pretende dar continuidade ao acompanhamento desses estudantes para assim ter certeza de que o título da sua dissertação realmente se confirmou.

Conheça o Pró Universidade

O Pró Universidade é oferecido pela Secretaria de Estado da Educação (SED). Em 2013, o cursinho passou a preparar também para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e para os vestibulares da Fundação Catarinense das Fundações Educacionais (Acafe), do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) e do Instituto Federal Catarinense (IFC), passando a se chamar Pró-Universidade.

O cursinho oferece todo material didático gratuitamente, além de recursos específicos, como aulas e simulados destinados a preparar o candidato para os exames discursivos, orientação vocacional e atividades de interação. A escolha dos alunos é feita por meio de análise do histórico escolar e da situação socioeconômica da família. Estudantes do ensino médio particular não podem concorrer às vagas, nem mesmo aqueles que cursaram a fase de estudos com bolsa integral.

Informações: Francini Scheid Martins – . 

Andressa Prates/ Estagiária de Jornalismo da Agecom/ UFSC

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