Professor Luiz Fernando Scheibe alerta para ameaças da exploração do gás de xisto em aula inaugural

16/08/2013 17:15

Professor emérito da UFSC, Luiz Fernando Scheibe abordou em sua conferência as ameaças da exploração do gás do xisto. Foto: Laura Tuyama/Agecom/UFSC

A polêmica sobre a exploração do gás de xisto foi tema da aula inaugural no Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) da Universidade Federal de Santa Catarina, que teve como convidado o professor emérito da UFSC, o geólogo Luiz Fernando Scheibe. Realizado na segunda-feira, 12, o evento faz parte da programação de recepção aos calouros do CFH. Participaram alunos dos cursos noturnos de História, Geografia e Ciências Sociais, que lotaram o auditório do centro.

Coordenador do projeto de pesquisa Rede Guarani da Serra Geral e há oito anos estudioso das formações geológicas que caracterizam o Aquífero Guarani, o professor Scheibe falou sobre uma nova ameaça: a exploração do gás de xisto. Em junho deste ano, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) anunciou que irá abrir no próximo mês de novembro o leilão de áreas para exploração de gás de xisto em todas as regiões do Brasil. Uma das áreas localiza-se na camada que fica abaixo do Aquífero Guarani, que é uma das maiores reservas de água doce da América Latina. 

Scheibe explica que o gás de xisto, cuja denominação correta é folhelho e também é conhecido como gás não convencional, localiza-se entre as camadas de rocha sedimentar, armazenando-se nos espaços vazios entre as lâminas de argila que a compõem. A rocha que contém o gás de xisto está distribuída por todo o planeta e nos últimos anos um dos maiores exploradores tem sido os Estados Unidos. Na América do Sul as principais reservas estão na Argentina. Um estudo publicado pela agência norte-americana U.S. Energy Information Administration (EIA) aponta que o gás do xisto representa 10% das reservas mundiais de petróleo e 32% das de gás natural.

Fraturamento

Para obter o gás de xisto, empresas utilizam o método de extração chamado fraturamento da rocha (shale gas fracking), no qual as diversas camadas rochosas são perfuradas verticalmente até atingir o folhelho. Neste ponto é feita uma perfuração horizontal, para cobrir uma área ampla da rocha. Depois é feita injeção de água aditivada, sob grande pressão, o que provoca o fraturamento e a liberação do gás do xisto, que percorre o duto até a superfície, juntamente com a água aditivada.

Este método de extração tem sido questionado pelos riscos e danos ambientais. “Nos EUA, desde as regiões onde ocorre a extração até a aproximadamente um quilômetro há elevadíssimas concentrações de metano na água”, explica o professor Scheibe. Ele alerta que o processo é caracterizado por uma diversidade de riscos operacionais, como explosões, incêndios, vazamentos, danos aos poços e aos trabalhadores, além dos riscos geológicos e ambientais, como os vazamentos subterrâneos.

O processo de extração exige um volume muito elevado de água, que recebe aditivos para dar aspecto fluidificante e espessante. “Cada poço exige de 15 a 30 milhões de litros de água, e metade desse volume volta poluído à superfície. Já foram identificados mais de 600 produtos que são adicionados à água para melhorar a fluidez do gás no processo de extração, como o álcool etílico, goma arábica”, explica o professor Scheibe. Um dos resultados do processo é o grande volume de água contaminada com enxofre, ferro, manganês e crômio. O tratamento dessa água irá movimentar mercado estimado em US$100 bilhões por ano.

A exploração do gás de xisto representa uma ameaça para o Aquífero Guarani, explica o professor Scheibe. “Aquíferos são rochas porosas que contêm uma quantidade expressiva de água. Em comparação com os rios, a água se movimenta em um ritmo muito mais lento. Ou seja, um rio contaminado pode levar alguns anos até se tornar limpo novamente. Se um aquífero for contaminado, pode requerer um tempo na ordem de milhões de anos para se recompor”, alerta.

Reação

Localização do Aquífero Guarani e das reservas de gás de xisto em Santa Catarina. Imagem: apresentação do professor Scheibe

Alguns países já proíbem a extração do gás de xisto, como a França e a Bulgária, além de uma província do Canadá. O Conselho Canadense de Ciência já se reuniu para analisar a questão e seu relatório, que ainda está pendente de publicação, deverá embasar as decisões governamentais sobre a questão. Organizações ambientalistas também já se manifestam, como o movimento Artist Agains Fraking, liderado por Yoko Ono e Sean Lennon, que produzindo uma música sobre o tema, “Don´t Frack My Mother” (tradução para Português).

Cientistas brasileiros debateram o tema durante a 65ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em julho, e decidiram exigir junto ao Governo Federal a moratória do leilão, até que se tenha mais embasamento sobre os riscos ambientais da exploração do gás do xisto.

Em carta enviada no dia 5 de agosto para a presidenta Dilma Roussef, os representantes da SBPC, Helena B. Nader, e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Jacob Palis, pedem para que seja sustada a licitação de áreas para explotação de gás de xisto, prevista para novembro. Os cientistas solicitam que a sustação seja feita “por um período suficiente para aprofundar os estudos, realizados por ICTs públicas, sobre a real potencialidade da utilização da fratura hidráulica e os possíveis prejuízos ambientais”.

Até o momento ainda não há manifestação do governo sobre o assunto. Ao final da aula inaugural, o professor Scheibe pediu para que os estudantes permaneçam atentos às decisões do governo sobre este tema e para o risco que a exploração pode representar para as reservas de água potável.

Sobre o evento

A conferência “Água, Energia e o ‘Gás de Xisto’ como Ameaça Ambiental”, com o professor emérito da UFSC, Luiz Fernando Scheibe, foi realizada no dia 12 de agosto de 2013, no auditório do CFH, e faz parte dos eventos de recepção aos calouros, organizados pela direção do Centro. O próximo evento será a recepção promovida pela Administração Central da UFSC, no dia 19 de agosto, que terá a a aula magna “Uma universidade com as muitas caras do Brasil”, a ser ministrada pela vice-diretora do CFH, professora Sônia Weidner Maluf.

Mais informações:

– Apresentação do professor Scheibe em pdf

– Site da Rede Guarani da Serra Geral – SC: http://rgsgsc.wordpress.com/

– Site do CFH: http://www.portalcfh.ufsc.br/


Laura Tuyama / Jornalista da Agecom / UFSC

 

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