Professor da UFSC lança livro sobre discriminação e seus efeitos na saúde

13/11/2012 14:19

É possível apreender cientificamente a discriminação? Que desafios complexos devem ser enfrentados nesta iniciativa? Para responder a estas perguntas, são necessárias estratégias metodológicas capazes de identificar e medir a discriminação. Apresentar as ferramentas disponíveis e discutir suas potencialidades e limitações são os objetivos do livro Discriminação e Saúde: perspectivas e métodos, lançamento da Editora Fiocruz. A obra, que compõe a coleção Temas em Saúde, é assinada por João Luiz Bastos, do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina, e Eduardo Faerstein, do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

O livro será lançado durante o X Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, que acontece entre 14 e 18 de novembro na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os autores estarão  autografando as obras no dia 16 de novembro às 16h, no “Espaço, saúde & letras” da Editora Fiocruz, no Congresso.

“A principal motivação para o extenuante exercício acadêmico de medir o fenômeno da discriminação é examinar como e o quanto esta contribui para a ocorrência e a perpetuação de desigualdades sociais, incluindo os domínios da educação, da saúde, da justiça e do mercado de trabalho, entre outros”, explicam os autores. “É, portanto, o desejo de compreender melhor e, assim, contribuir para o combate efetivo dessa fonte de desigualdade social que mobiliza os pesquisadores dedicados à mensuração da discriminação”, acrescentam.

Inicialmente, João Luiz Bastos e Eduardo Faerstein apresentam o tema em perspectiva histórica. Mostram como, antes de 1920, a discriminação sequer se configurava como um problema importante de pesquisa, dadas as crenças na superioridade de algumas raças sobre outras, o que tornava natural e inquestionável o racismo à época. Principalmente durante a década de 1990, a discriminação passou a ser encarada como um fenômeno multifacetado, onde discriminadores e discriminados envolvem-se em relações dinâmicas e complexas que, não raro, dificultam sua pronta identificação.

As relações discriminatórias têm sido recentemente estudadas no âmbito da saúde coletiva. “Há vasta literatura que documenta a influência deletéria de processos discriminatórios na relação estabelecida entre profissionais de saúde e pacientes, na prescrição de tratamentos medicamentosos ou de outros procedimentos cirúrgicos e terapêuticos, assim como na própria satisfação dos usuários com o atendimento prestado”, dizem os autores. “E isso é de suma importância, tendo em vista que os serviços exercem influência expressiva sobre condições de saúde e vida de indivíduos e populações”, completam.

Identificar e quantificar essas circunstâncias é fundamental para reduzir as iniquidades na saúde. Os autores descrevem as principais estratégias metodológicas hoje utilizadas para mensurar a discriminação, como experimentos laboratoriais; experimentos de campo; análises de dados observacionais e experimentos naturais; e análise de indicadores. Embora reafirmem a importância desse conjunto de métodos, os autores lembram que a análise de seus resultados exige reflexão e senso crítico, pois a discriminação é um fenômeno complexo, com peculiaridades no contexto brasileiro – o que significa que indicadores criados, por exemplo, nos Estados Unidos não podem simplesmente ser importados para aplicação em estudos nacionais.

A discriminação pertence ao campo das ações e a caracterização de uma ação como discriminatória não é absoluta: ela depende do observador, o que já demonstra o quão difícil é a tarefa do pesquisador que se propõe a mensurar a discriminação. Em alguns casos, a condição de desvantagem e os tratamentos injustos estão tão internalizados que discriminadores e discriminados não identificam aquelas situações como problemáticas, considerando-as normais e naturais. Em outros, menos frequentes, pode haver uma superestimação do problema. “Indivíduos podem atribuir à discriminação o insucesso na obtenção de cargos em uma empresa, quando este pode ter sido consequência exclusiva da baixa qualificação profissional que apresentam”, exemplificam os autores.

Há, ainda, uma série de outros aspectos a considerar. A discriminação não é só racial: ela atinge negros, idosos, obesos, pobres etc., apresentando múltiplas motivações. Estas diferentes formas de discriminação podem se manifestar simultaneamente. Além disso, a discriminação não ocorre apenas nas relações interpessoais, mas também no nível populacional – o que inclui, por exemplo, a segregação espacial de grupos populacionais. No Brasil, a discriminação também varia de acordo com as regiões do país. Por essas e outras questões, os autores defendem o emprego de múltiplos métodos e a combinação de resultados para a produção de respostas sólidas ao problema da discriminação, fenômeno que está na origem de importantes problemas sociais contemporâneos, incluindo as desigualdades em saúde.

Fonte: Fernanda Marques – Fiocruz.

Mais informações:

Professor João Luiz Bastos: (48)  3721-9388 ou 

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Outras informações e programação completa do X Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva no endereço http://www.saudecoletiva2012.com.br/.

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