Representatividade, diálogo e políticas públicas são chave para mais meninas e mulheres nas ciências

11/02/2021 08:00

O simples bater de asas de uma borboleta no Brasil pode ocasionar um tornado no Texas. A metáfora do efeito borboleta, popularizada pelo cientista norte-americano Edward Lorenz, se referia a como alterações em determinados sistemas podem resultar em eventos inesperados, mas passou a ser aplicada para discussões cotidianas sobre causa e consequência e sobre como determinadas escolhas são capazes de modificar o curso de uma vida.

Em 2016, seis anos depois de ingressar como acadêmica de Química na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a pesquisadora Marília Reginato de Barros foi premiada no Seminário de Iniciação Científica da Universidade, na categoria Ciências Exatas e da Terra, com um trabalho que consistia no desenvolvimento de novos adsorventes a base de matrizes de sílica. Hoje, mais de quatro anos depois, ela está no último ano de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Química, buscando soluções para a contaminação de água por pesticidas. Marília atuou como bolsista em todas as etapas da carreira.

A borboleta já batia as asas quando Marília entrou na graduação e se viu inspirada por professoras e pesquisadoras. Quando reconstrói a própria trajetória, cita pelo menos três: sua primeira orientadora, Hérica Magosso, a orientadora no mestrado e doutorado, Cristiane Luisa Jost, e Rosely Peralta. Elas são parte das estatísticas que vêm se revelando cada vez mais importantes no mundo acadêmico: a das mulheres e meninas nas ciências, celebradas neste 11 de fevereiro, dia internacional do calendário da Organização das Nações Unidas.

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Imagem que ilustra a capa do relatório da UnescoSegundo o documento Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática, divulgado em 2018 pela Unesco, apenas 28% dos pesquisadores de todo o mundo são mulheres. Além disso, apenas 17 mulheres receberam o Prêmio Nobel em Física, Química ou Medicina desde Marie Curie, em 1903, em comparação a 572 homens. Ainda assim, como bem lembra a professora Miriam Grossi, do Departamento de Antropologia, do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), Marie Curie teve a vida pessoal devassada e foi desprestigiada publicamente em campanhas difamatórias por uma relação afetiva.

O documento da ONU tem um foco especial nas ditas ciências duras (Ciência, Tecnologia, Engenharias e Matemática – STME) e não chega às profundezas e subjetividades das meninas e mulheres por detrás dos números, mas reforça os estigmas e necessidade de discussão. “A sub-representação das meninas na educação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática tem raízes profundas e coloca um freio prejudicial no avanço rumo ao desenvolvimento sustentável”, escreveu Irina Bokova, ex-diretora geral da Unesco, que assina o prefácio deste mesmo relatório.

Mas não é só nessas áreas que os números puxam uma reflexão urgente: a professora Miriam Grossi lembra que mesmo nas ciências humanas e sociais essa cultura também se repete. E mesmo que, em alguns casos, haja maioria feminina nas salas de aula, nas esferas de poder o número cai drasticamente. As mulheres também acabam tendo menos acesso aos recursos e investimentos dos órgãos de fomento. “E na ciência, financiamento é poder”, sintetiza. 

 

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Na UFSC,  há 43% de professoras mulheres. Além disso, elas representam 46% entre líderes de grupos de pesquisa certificados, 35% entre bolsistas de produtividade e 46,71% entre as orientadoras de IC/ICTI. Também foram responsáveis por  44,2% das orientações de teses e dissertações defendidas em 2020 – ano reconhecidamente atípico por conta da pandemia do novo coronavírus, com a sobrecarga das tarefas domésticas e familiares sendo debatidas com frequência.

Subjetividades

Isoladamente, as estatísticas podem mostrar um cenário de pouca desigualdade, mas quando se avaliam subjetividades, o cenário muda. Essas mulheres têm acesso a cargos de poder? Têm acesso a recursos para realizarem suas pesquisas? São respeitadas quando ocupam lugares de poder? Todas essas questões importam. “Há um fenômeno geral e internacional envolvendo esse assunto e para o qual desde a primeira conferência da ONU já há compromissos firmados em busca de ações afirmativas que levem a uma maior equidade de gênero também no campo da ciência”, sintetiza Miriam.

Marília, acadêmica da UFSC desde a graduação, Hérica, Cristiane e Rosely são parte das estatísticas das chamadas “ciências duras” e, em meio às subjetividades, engrossam os dados das pesquisadoras de Química, mapeadas pelo estudo “Mulheres Cientistas na Química Brasileira”. Entre outras coisas, a pesquisa constata uma distorção que é comum em outras áreas do conhecimento: apesar de serem 52% de mulheres discentes na pós-graduação, elas são minoria na docência (42%). Também entre teses premiadas na área, apenas 33% são assinadas por mulheres, mesmo elas sendo maioria no corpo discente.

Professora Hérica (à esquerda), Marília e professora Cristiane (ao centro) e professora Rosely Peralta (à direita), na defesa de mestrado da pesquisadora

 

Para começar a corrigir o problema e as distorções é necessário mais do que o que está dado. Investimento em políticas públicas é essencial, conforme a antropóloga. “Políticas vinham sendo construídas, no Brasil, nessa direção, mas deixaram de existir a partir de 2016”, recorda. Mas, para além disso, há uma questão central que merece discussão: a da representatividade. “É fundamental ter mulheres em lugares de poder e de reconhecimento, pois esse é um forte exemplo que inspira outras meninas”, sintetiza Míriam. 

Representatividade, com mais mulheres inspirando outras; políticas públicas para priorizar o acesso e a permanência das mulheres nas ciências e também sua ascensão a cargos de poder e diálogo para sensibilizar àqueles que ainda não foram tocados pelo problema da desigualdade de gênero. Estes foram os pontos mais mencionados pelas pesquisadoras ouvidas nesta reportagem como soluções imediatas para sanar um problema crônico.

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Amanda Miranda/Agecom/UFSC

 

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