Os motivos que levaram milhares de manifestantes às ruas

16/05/2019 15:40

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

“A universidade pública é a única possibilidade que tenho para realizar o meu sonho.” Com essas palavras, Marina Castanheira, estudante da segunda fase do curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), expressou o que lhe motivou a participar das manifestações dessa quarta-feira, 15 de maio. Em julho de 2018, a jovem de 20 anos se mudou de sua cidade natal, Pelotas (RS), especialmente para frequentar a UFSC, onde ingressou pelas cotas do vestibular destinadas a alunos de escolas públicas. Seu sonho de estudar Medicina, ela afirma, só é possível pela oferta de educação superior pública e gratuita. “Se não fosse a UFSC, eu jamais teria essa oportunidade.”

Marina destaca a importância da moradia estudantil, das bolsas da Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE/UFSC) fornecidas a alunos de baixa renda e das refeições subsidiadas do Restaurante Universitário (RU). “É graças a tudo isso que muitos de meus colegas podem frequentar a universidade. Esses incentivos são extremamente necessários para muitos estudantes”, afirmou, demonstrando preocupação com os recentes cortes orçamentários das universidades federais, que comprometem o fomento de todas as iniciativas que visam a permanência estudantil.

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

Além do impacto na vida dos estudantes, Marina ressalta a relevância da universidade para a comunidade externa, que se beneficia com os muitos serviços gratuitos que lhe são oferecidos. “Estamos inseridos em projetos de interação comunitária e vemos o quanto somos importantes para a população de Florianópolis. Desde a primeira fase do curso atuamos nos postos de saúde da cidade, atendendo sobretudo pessoas de baixa renda. A universidade é sem dúvida necessária.”

A estudante era uma entre os milhares de manifestantes que saíram às ruas para protestar. Todos que se somaram à passeata – que saiu da UFSC por volta das 13h20 e chegou ao Centro às 16h – tinham suas motivações individuais, mas também, e sobretudo, uma pauta em comum: protestar contra o bloqueio de 30% do orçamento das universidades e institutos federais. O ato foi registrado como um dos maiores realizados em Florianópolis nos últimos anos – e talvez décadas. Visto do alto das passarelas para pedestres, os olhares não alcançavam “onde começava e onde terminava” a multidão que protestava. No ponto de chegada, das escadas da Catedral Metropolitana, era possível contemplar a Praça XV completamente ocupada. Como não cabia mais tanta gente ali, as ruas laterais também foram logo preenchidas. E tudo isso transcorreu de forma totalmente pacífica, sem nenhuma ocorrência de qualquer tipo de confronto ou violência.

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

As demonstrações de apoio vinham de todos os lados: das varandas de prédios comerciais na rua Lauro Linhares; das janelas dos altos edifícios residenciais na avenida Beira Mar Norte; das entradas de lojas e shoppings centers na avenida Mauro Ramos; daqueles que estavam de passagem pelas calçadas e, inclusive, de muitos motoristas que foram momentaneamente impedidos de seguir adiante pela interrupção do tráfego. A aprovação à pauta de reivindicações dos manifestantes era expressa das mais diversas formas: aplausos, buzinas, bandeiras, gritos, “sinais de joia” com as mãos ou simplesmente sorrisos, muitos sorrisos. Havia uma nítida sensação de que defesa da educação é uma preocupação de todos.

As faixas e bandeiras que os estudantes levavam expressavam as lutas individuais que se somavam às lutas coletivas. No verso de um banner que já havia sido usado como poster para apresentação de um trabalho de iniciação científica, os estudantes Hugo Bayer e Lara Ferst escreveram “Ciência e educação para a soberania da nação. Tira a mão da minha universidade.” Hugo, que faz mestrado em Farmacologia e recebe bolsa do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), disse ter ficado extremamente preocupado com os cortes anunciados pelo governo: “Isso foi a gota d’água. Acho que já era para termos nos mobilizado há mais tempo. Mas ver essa quantidade de gente aqui hoje me dá muita esperança, fico emocionado. Espero que isso faça com que as pessoas que estão em suas casas consigam perceber que os estudantes estão se articulando porque alguma coisa está muito errada. Espero que aqueles que nem sabem o que está acontecendo no país comecem a ficar atentos.” Para ele, o fato de as manifestações terem acontecido simultaneamente em muitas cidades do país poderá pressionar o governo a rever os cortes anunciados.

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

Lara, que é aluna do curso de Biologia e pesquisadora do Laboratório de Micologia (Micolab/UFSC), disse estar angustiada com a incerteza quanto à possibilidade de conseguir bolsa de Iniciação Científica no próximo semestre. “Submeti um projeto e ainda aguardo o resultado para saber se foi aprovado. Mas agora acho improvável conseguir a bolsa.” Para ela, o ensino público é o alvo do atual governo. “O principal interesse é suprimir a educação, suprimir o pólo de resistência que são as universidades. Por isso, esse é o momento para fazermos alguma coisa, é importante levarmos as universidade até as pessoas.”

Hanna Pillmann e Yasmim Dalsenter são estudantes da 5ª fase do curso de Farmácia. Suas vozes se juntavam aos muitos gritos que clamavam: “Vem! Vem! Vem pra rua, vem! Contra os cortes na educação!” Elas estavam ali pois, conforme explicaram, sabem o quanto os cortes vão dificultar o andamento das pesquisas que vêm realizando e seu próprio futuro dentro da universidade. “Os cortes vão prejudicar nossas pesquisas, nossas aulas, nossa formação com qualidade. No nosso curso, temos o estágio obrigatório em assistência farmacêutica na Farmácia Escola. Fornecemos vários medicamentos de alto custo para a população, que tem acesso gratuito pelo SUS. Esse é um serviço muito importante que prestamos para a comunidade e esses cortes vão inviabilizar tudo isso. Precisamos desse dinheiro para funcionar, não tem outra maneira.”

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

Eduardo Bodnar, estudante de Agronomia do Centro de Ciências Agrárias (CCA/UFSC) se mobilizou junto com seus colegas desde o início da manhã. Com banners expostos nos muros do campus no bairro Itacorubi, em frente à Rodovia Admar Gonzaga, os estudantes do CCA apresentaram seus trabalhos de iniciação científica e de extensão à comunidade externa. “A ideia era mostrar para as pessoas que passavam o que fazemos na universidade. A maioria dos carros buzinava demonstrando apoio.”

A defesa de “uma educação pública, gratuita e de qualidade” foi sua principal motivação para estar ali. “A situação política hoje no Brasil não promove isso que eu defendo. Essa manifestação é uma demonstração de insatisfação com as atitudes desse governo. Ficar só na internet ou expressar sua própria opinião sozinho não é suficiente nesse momento. Com essa mobilização, tenho uma expectativa positiva, gosto muito de ver o envolvimento do povo brasileiro com a política”, relata Eduardo, que sempre estudou em escolas públicas e acredita que as instituições públicas de ensino devem ser espaços democráticos onde “todas as classes se encontram”.

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

O encontro de classes e culturas no ambiente universitário também é uma bandeira do estudante indígena Jesaias Vaipon Patté, que está na primeira fase do curso de Educação Física da UFSC. “Somos contra as várias medidas do atual governo, não só aquelas que afetam a educação, mas também as diversas baixas que os povos indígenas e toda a população está sofrendo. Hoje somos cerca de 100 estudantes indígenas na UFSC e para nós a universidade cumpre um papel muito importante de inclusão social, que nos permite sermos reconhecidos como indígenas. Acredito que a sociedade já não nos vê mais como aquele ‘índio selvagem’, mas sim como o índio que quer estar inserido na sociedade; que quer ter acesso ao ensino, ao conhecimento; que quer levar tudo isso de volta para a comunidade. Por isso viemos aqui hoje, para garantir nossos direitos.”

As amigas Denise Rogenski e Débora Torres igualmente concordam que não existe um espaço tão plural e democrático quanto a universidade pública. “Não consigo pensar uma existência social, especialmente em Florianópolis, que não esteja vinculada à universidade. Qual espaço público de pensamento que vai sobrar? Por isso, diante das medidas tomadas contra as universidades, não há outra coisa a fazer senão se manifestar. É fundamental estarmos nas ruas para mostrarmos que isso não pode seguir”, afirma Denise, que faz mestrado em Literatura na UFSC.

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

Débora, que está finalizando a graduação em Letras – Português, acredita que a manifestação pública é crucial nesse momento: “Precisamos expressar nossa inconformidade e o desejo pela manutenção da universidade com todas as políticas que ela traz. Precisamos garantir que indígenas, negros, pessoas de baixa renda e os mais diversos grupos sociais tenham acesso ao ensino superior. Esse processo não pode ser interrompido, não podemos aceitar isso.” A estudante também ressaltou o papel da UFSC na movimentação da economia de Florianópolis: “As pessoas não se dão conta disso, do quanto qualquer mudança vai afetar a economia não só da cidade, mas do Estado como um todo.”

Para o mestrando do Programa de Pós-graduação em Inglês (PPGI/UFSC), Marcos Neto de Córdoba, foi o ambiente universitário que lhe ensinou sobre a importância da participação política. “Sempre participo das manifestações. Considero impossível desassociarmos nosso corpo, o que fazemos, da política do nosso país. Esse processo vai nos acordar para tudo que está acontecendo. Nossa geração está aprendendo a militar, a lutar pelo que acredita e defende, e assim viver uma vida coerente.”

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

Marcos ressaltou a importância de se valorizar todas as áreas de estudos, sobretudo as ciências humanas, que têm sido atacadas pelo atual governo. “Na UFSC eu tive a oportunidade de expandir minha perspectiva de mundo, de desenvolver uma consciência crítica e política que eu não tinha antes de entrar aqui. O ambiente universitário desperta isso na gente. Por isso precisamos lutar pelo direito de estudar, e lutar também pelo direito de estudar o que se quer estudar. As ciências humanas são extremamente relevantes para o pensamento crítico e a liberdade de expressão. Não estudamos só para construir pontes ou prédios, mas também para construir relações saudáveis entre as pessoas, para nos tornarmos cidadãos conscientes das escolhas que fazemos e dos lugares que ocupamos. Acho que a universidade tem um papel muito importante de proporcionar esse tipo de aprendizado. Minha maior luta, portanto, é pelo direito de um pensamento livre e crítico.”

Entre os diversos programas afetados pelos cortes orçamentários da educação está os Inglês Sem Fronteiras (IsF), que teve suas atividades encerradas, afetando a vida de diversos estudantes. Entre eles está César Teló, que cursa a 4ª fase do curso de graduação em Letras – Inglês e era bolsista do programa. “O IsF tem a capacidade de nos proporcionar a experiência de prática de ensino, e também de pesquisa. Essa conversa entre prática e teoria só é possível com o auxílio de programas como o IsF.” César explica que, além da formação de professores, que foi o que lhe afetou mais diretamente, o programa também tinha um papel fundamental no movimento de internacionalização da universidade. “Por ofertar aos estudantes o acesso gratuito a diversas línguas estrangeiras, o IsF possibilitava a comunicação, das mais variadas formas, do conhecimento que é produzido aqui. Já somos um país bastante atrasado nas questões de políticas linguísticas, por isso é realmente uma pena que esse programa tenha acabado.”

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

A manifestação também foi marcada pela participação expressiva de professores. Aguinaldo Pinto e Carlos Zanetti, do Departamento de Micrologia, Imunologia e Parasitologia (MIP/UFSC), fizeram questão de se juntar aos estudantes no percurso de cerca de 8 km da passeata da UFSC até o Centro. “Acho importante estarmos todos juntos nesse momento, pelas várias reivindicações contra os cortes de verbas na educação, na ciência e tecnologia. Sinto que é uma obrigação nossa estar aqui hoje”, expressou Aguinaldo, que disse  estar presenciando o momento mais crítico em termos de financiamento de pesquisas na universidade. “Na minha experiência, esse é o único momento em que estou sem financiamento. Desde quando entrei na universidade, sempre tive financiamento para realizar minhas pesquisas. Agora isso mudou. O momento está realmente ruim para todos nós. Mas a quantidade de gente que está aqui hoje é muito maior do que eu esperava. Então vejo o dia de hoje como muito promissor, como o início de outras movimentações que certamente vão ocorrer.”

Carlos, que é coordenador do curso de Biologia da UFSC, também está bastante preocupado com o futuro da ciência no país. “Já vivemos tempos de cortes em pesquisa, mas nunca vivemos nada que ameaçasse o mínimo funcionamento da universidade. Esses cortes parecem estar vindo para nos destruir mesmo. Não teremos dinheiro para pagar as contas de água e de luz. Sou professor, acredito piamente que a educação transforma o país, acredito piamente que a educação pública tem o poder de diminuir no futuro as injustiças sociais. Não podemos aceitar um governo que não dá valor a isso. Não tinha como não estar aqui hoje.”

Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC.

O “desrespeito à educação como um todo” foi o que levou a docente do departamento de Ecologia e Zoologia (ECZ/UFSC), Bárbara Segal Ramos, a participar ativamente das manifestações. “Esse não é um problema só das universidades. É um problema da nação inteira. Se não tivermos educação pública de qualidade, quem serão os professores das crianças nas escolas, quem serão os profissionais da saúde? Simplesmente não teremos mais profissionais bem formados, de excelência, como os que saem da universidade pública e gratuita. Essa é uma reivindicação por algo que afeta todo mundo, inclusive o empresariado no entorno das instituições de ensino. Todo mundo será profundamente afetado. Estou aqui contra essa irresponsabilidade do governo, que tem tomado medidas com efeitos danosos, que afetam toda a população, não só a comunidade universitária.”

Daniela Caniçali/Jornalista da Agecom/UFSC

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