Pesquisadora e agricultora dialogam sobre a relação entre o feminismo e a natureza

01/03/2019 14:49

Justina e Claudia são duas mulheres da mesma geração, com trajetórias de vida bastante distintas, mas muitas coisas em comum. Justina é “agricultora desde sempre”, como gosta orgulhosamente de se apresentar. Claudia é uma acadêmica que, também “desde sempre”, dedica-se à pesquisa, ao ensino e à produção intelectual. Ambas são mulheres de luta, mulheres de vanguarda, admiradas pelo que fazem e representam. Cada uma à sua maneira, em seu próprio espaço político e social, é engajada em propagar o ideal de uma sociedade mais justa e igualitária e de um mundo onde tudo e todas – plantas, florestas, rios, mares, animais de todas as espécies (inclusive a humana) etc – vivam e convivam em harmonia uns com os outros, de forma a preservar o planeta.

“Nós somos parte da natureza. Na luta por igualdade nas relações de gênero, precisamos lutar também por uma relação de igualdade e de respeito com todas as outras coisas que existem, com tudo o que faz parte da natureza: sementes, plantas medicinais, água, animais. Precisamos entender que nossas vidas dependem de uma harmonia não só entre os humanos, mas com a natureza como um todo. O ser humano não pode se colocar acima disso”, defende Justina Inês Cima que, além de agricultura, é coordenadora nacional do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). Sua vida sempre se dividiu entre o trabalho no campo e as lutas por justiça social. O movimento feminista, para ela, está inserido em um contexto muito mais amplo, no qual reivindicar mais direitos às mulheres significa também clamar por um mundo melhor.

Foto: Elaine Schmitt.

Claudia e Justina estiveram juntas em uma das mesas de debate do 7º curso de Gênero e Feminismos, que ocorreu na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis, de 18 a 22 de fevereiro. Entre os muitos temas contemplados na programação do evento, elas foram convidadas para abordar a relação entre o feminismo e a natureza; as contribuições dos estudos de gênero para a preservação do planeta; as interseccionalidades entre as bandeiras feministas e os movimentos ambientalistas. “Nós usamos linguagens diferentes, mas falamos exatamente das mesmas coisas”, afirmou, logo no início da sua  exposição, Claudia Junqueira de Lima Costa, que é professora de Literatura da UFSC.

Era justamente essa uma das propostas do evento: proporcionar o encontro de múltiplos saberes, suprimindo a tão consagrada “hierarquia de saberes”. “Temos que descolonizar o conhecimento e descolonizar a academia; questionar essas hierarquias. Há várias iniciativas já em curso que defendem uma espécie de ecologia de saberes”, argumenta Claudia. Nessa nova perspectiva, não existem saberes “superiores” e “inferiores”, mas sim formas de conhecimento que partem de experiências distintas, podendo igualmente contribuir para fomentar reflexões críticas e tentativas de solução para os muitos problemas que enfrentamos na contemporaneidade. Nesse sentido, a aproximação entre a academia e os movimentos sociais é não apenas bem-vinda, mas indispensável.

E, conforme Claudia anunciou, elas falavam realmente das mesmas coisas: da urgente necessidade de resistência anti-colonial e anti-imperialista; das ligações entre opressão econômica, racial, sexual e de gênero. “O feminismo cumpre um importante papel de  desenvolver críticas à racionalidade masculina, ao sujeito cartesiano, àquele que emerge a partir das dicotomias entre razão-emoção, sujeito-objeto, natureza-cultura. Feministas, a partir de diversos lugares geopolíticos e epistemológicos, estão desenvolvendo outras formas de racionalidade. Essa racionalidade está encorpada, imersa na matéria humana e não humana, nas materializações das plantas, dos animais, dos objetos inanimados e das relações entre todos esses”, discorreu a pesquisadora.

As lutas das mulheres do campo

Justina Cima. Foto: Elaine Schmitt.

O Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) surgiu oficialmente no dia 1º de maio em 1983, em Chapecó (SC), e defende, desde então, a reforma agrária e a participação política da mulher na sociedade. “Nossas bandeiras mostram claramente um outro projeto de sociedade e a convicção de que precisamos ter participação política para termos voz como mulheres e camponesas. A trabalhadora rural era invisível e continua sendo. Ela precisa sair das sombras, tornar-se mulher cidadã, com nome e profissão. Por isso lutamos por relações igualitárias de gênero. Nossa missão, enquanto movimento, é libertar as mulheres de todo tipo de opressão e violência, e assim transformar a sociedade”, diz Justina, acrescentando que a luta feminista está inevitavelmente associada à luta por reforma agrária: “Nossa luta é de gênero e classe. Nós nunca trabalhamos a questão ‘somente por sermos mulheres’. Nós somos mulheres e pertencemos à classe trabalhadora; pertencemos a todas as classes oprimidas. Lutamos pela emancipação de todas que foram historicamente excluídas e oprimidas.”

Além do patriarco e do machismo, as mulheres camponesas enfrentam diariamente a opressão do latifúndio – “que acumula terra e impede nossas famílias de terem terra para plantar” –, e das grandes transnacionais – “que impõem o modelo de agricultura intensiva e química”. Por isso, explica Justina, a luta das trabalhadoras do campo requer “transformar essa sociedade capitalista, patriarcal e machista”, que se expressa no modelo hegemônico de  produção agrícola vigente no Brasil. “A dita Revolução Verde gera poluição, destruição ambiental, perda incalculável da biodiversidade e disseminação de muitas doenças. Esse modelo insere as sementes híbridas, os transgênicos, os agrotóxicos, a mecanização pesada, a agroindústria, o monocultivo, a padronização da alimentação. Provoca a subordinação da agricultura camponesa ao mercado globalizado e acentua a concentração de terra. Tudo isso reforça a cultura patriarcal, a opressão e a violência contra as mulheres.”

O projeto popular de agroecologia que Justina pratica e defende traz consigo justamente o oposto: o cuidado com o ambiente e com os animais; a recuperação das sementes crioulas e das plantas medicinais; a diversidade de produção orgânica; o incentivo do consumo local e regional; a valorização do trabalho e do conhecimento das mulheres camponesas. Para Justina, o capitalismo trouxe a ideia de que “o camponês é atrasado”, o que é uma visão estereotipada e equivocada: “Hoje eu tenho orgulho de falar que sou agricultora. A profissão de agricultora é das mais importantes para a humanidade. É um espaço de muita sabedoria, poder e conhecimento. Precisamos quebrar essa lógica de que fica no campo só quem não tem outra oportunidade. E por isso a educação no campo é tão importante.” Apesar do que já foi conquistado, é fato que no meio rural ainda prevalece uma configuração social extremamente injusta e desigual, sobretudo para as mulheres. Mas Justina, junto a tantas outras camponesas, se permitem vislumbrar “um horizonte de dignidade, onde se possa continuar sonhando com uma sociedade socialista”.

Os estudos feministas e o antropoceno

Claudia Fonseca. Foto: Elaine Schmitt.

Claudia é uma pesquisadora feminista de vanguarda. Suas leituras e reflexões estão voltadas a tudo o que há de mais recente e mais ousado no pensamento feminista contemporâneo – especialmente as autoras que têm sido denominadas como “feministas materiais e pós-humanas”. A maioria de suas referências bibliográficas ainda não foi traduzida para o português e permanece desconhecida do público brasileiro. E mesmo no meio acadêmico, até o momento são poucos os pesquisadores que recorrem a essas teóricas. Assistir a uma de suas aulas, portanto, é sempre uma oportunidade de abrir-se a novos mundos, novas perspectivas, novos horizontes.

A linha argumentativa de Claudia parte do conceito de antropoceno: “Alterações atmosféricas geológicas, químicas, biológicas, grandes erupções, grandes extensões e outros acontecimentos do passado podem ser lidos nos chamados ‘testemunhos geológicos’ da Terra. São camadas de sedimentos que guardam a história das modificações planetárias. O que alguns cientistas discutem é o quanto os sistemas de produção humanos alteraram a superfície terrestre, o que justificaria a adoção de um novo tempo geológico, o antropoceno. Ou seja, o ‘antropos’, do antropoceno, está deixando uma marca no planeta similar a outros eventos de grande porte que causaram a extinção de diversas formas de vida – como o impacto do meteoro, por exemplo. A partir de meados do século XVIII, os humanos, por meio da queima de fósseis, da criação industrial de animais e outras práticas, alteraram diretamente as paisagens em cerca de 50% do planeta e afetaram mais de 83% da superfície terrestre. Essa é a chamada ‘pegada antrópica’.”

A pesquisadora defende que é urgente pensar sobre esse impacto dos humanos no planeta, e isso pode ser feito a partir das teorias feministas. “Como o feminismo vem lançar luz nesses debates sobre o antropoceno? Primeiro temos que nos perguntar quem é esse ‘nós’ do antropoceno. O feminismo enfatiza que nem todos participam do mesmo jeito dessa pegada antrópica, dessa obliteração sem precedentes dos ecossistemas e da extinção de várias espécies. E falar do antropoceno como sendo a ‘pegada humana’ sobre o planeta acaba por incluir todos os humanos em uma mesma proporção de culpabilidade.”

Outra contribuição do feminismo é uma concepção de mundo que parte de suas interconexões e não das dualidades que sustentam a perspectiva hegemônica, que é limitada e sexista. “Donna Haraway, Karen Barad, Staicy Alaimo, Susan Hekman, Claire Colebroock – essas ‘feministas materiais’ argumentam que tudo está interconectado e que tais interconexões questionam as divisões estabelecidas entre a experiência humana do mundo, o mundo em sua existência objetiva e o conhecimento do mundo. Elas propõem a superação de todas as dicotomias coloniais modernas, como natureza-cultura, corpo-mente, humano-não-humano. Em contraposição à epistemologia tradicional ocidental, os conceitos e as abstrações resultantes dos processos de conhecimento não constituem um mundo separado da matéria e das coisas. Para conhecer, precisamos estar imersas na matéria e no mundo através de um contínuo engajamento. Nosso conhecimento se dá a partir dessa imersão.”

Claudia argumenta que, se as coisas e organismos não humanos também possuem mundos e criam um campo de ação com outros seres na sua vizinhança, é imprescindível alargarmos nosso horizonte para incluirmos o ponto de vista dos não humanos. “Isso já está há muito tempo articulado no perspectivismo ameríndio e outras filosofias não ocidentais. Ou seja: entramos em mundos pluriversais, em oposição a mundos universais. Os feminismos materiais e pós-humanos oferecem alternativas para teorizarmos sobre o sujeito do antropoceno. Esse é um momento crucial para o descentramento do humano e de seu excepcionalismo. O humano não está acima de tudo mais que nos rodeia.”

Daniela Caniçali/Jornalista da Agecom/UFSC

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