MArquE pesquisa esqueleto encontrado em sambaqui no Rio Tavares

18/12/2018 11:11

Esqueleto no Laboratório do MArquE. Foto: Pipo Quint/Agecom

Ele tinha baixa estatura, possivelmente circulava na região do Rio Tavares e áreas adjacentes, comia bastante peixe e suas atividades diárias deveriam estar voltadas muito mais para o mar. É possível que não sentisse dor ou incômodo por conta de dois de seus caninos permanentes que permaneceram inclusos. Quando morreu, ao que tudo indica, com mais de 25 anos, teve o corpo pintado com pigmento vermelho, o ocre, e enterrado estendido de barriga para baixo e com a face voltada para o chão, presumivelmente antes de Cristo, e talvez um dos primeiros a ser sepultado no sítio arqueológico chamado Sambaqui do Rio Tavares III.

Estas são algumas informações das análises preliminares do esqueleto encontrado em agosto, durante as obras para construção do elevado do Rio Tavares, no entroncamento das rodovias SC-405 e SC-406. O relatório final, com todos os dados de análises sobre este esqueleto e outros dois encontrados na primeira etapa das escavações, será enviado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2019, explica a arqueóloga da UFSC Luciane Zanenga Scherer.

O documento incluirá todas as metodologias utilizadas para estimativa de sexo, idade, e estatura, bem como a descrição de patologias ósseas e dentárias, caso constatadas, e análises de marcadores de estresse ocupacional. Além disso, os materiais associados ao sepultamento, incluindo os artefatos e ecofatos evidenciados e coletados durante a escavação, serão analisados pela empresa Geoarqueologia Pesquisa Científica, responsável pela pesquisa arqueológica. Uma amostra de osso será separada para a realização de datação por radiocarbono.

Posteriormente, pretende-se realizar análises isotópicas (Isótopos de carbono e nitrogênio e isótopos de estrôncio), bem como DNA humano antigo e por isto a arqueóloga do MArquE está buscando parcerias com outras instituições nacionais e estrangeiras.

Após o relatório ser entregue, o esqueleto e todos os materiais encontrados no sambaqui Rio Tavares III, ficarão sob guarda do Museu de Arqueologia e Etnologia Professor Oswaldo Rodrigues Cabral (MArquE/UFSC), com o acervo em Reserva Técnica e disponível para outros pesquisadores. Além disso, o acervo, futuramente, poderá ser utilizado para uma exposição sobre o tema arqueologia funerária e bioarqueologia.

Estimativas

Luciane Zanenga Scherer, arqueóloga do MArquE. Foto: Pipo Quint/Agecom

O esqueleto quase completo poderá dar diversas informações sobre a pessoa que viveu no período pré-colonial na Ilha de Santa Catarina, explica a arqueóloga. O formato da pelve aponta que o esqueleto era de um homem. A idade, ainda a ser estimada de forma mais acurada, indica que ele era adulto possivelmente jovem (aparentemente com mais de 25 anos). “Porém, somente a utilização de outras metodologias poderá proporcionar pistas sobre a idade quando morreu, firmando um intervalo de tempo possível”, diz Luciane. “Chama a atenção a robustez observada nos ossos dos braços. Talvez em suas atividades cotidianas àquelas voltadas para o ambiente marinho fossem mais importantes. Isto já foi observado em esqueletos de outros sambaquis, incluindo lesões por esforço indicativas de atividades de remar”, competa.

Já a idade do esqueleto será determinada por uma datação por radiocarbono. Luciane irá separar fragmentos de costelas para serem enviados ao Laboratório Beta Analytic, nos Estados Unidos, especializado neste tipo de análise. A arqueóloga acha possível que o resultado irá revelar uma datação antiga, que vai além de dois mil anos atrás. Para a Ilha de Santa Catarina as datações mais antigas são do Sambaqui Porto do Rio Vermelho 01, escavado por De Mais, com datação inicial em 5.020 anos Antes do Presente (A.P), e o Sambaqui Pântano do Sul, escavado pelo Padre Rohr, com uma datação de 4.460 anos Antes do Presente (A.P.).

Retirada

Encontrado na base do sítio arqueológico (abaixo dele não havia interferência humana), o esqueleto constantemente ficava submerso por água, e, a medida que estava sendo evidenciado era preciso tomar muito cuidado, especialmente “pela fragilidade que se encontrava por conta da umidade e, posteriormente, da exposição dos ossos ao ambiente com oxigênio. Ao menor toque alguns ossos se quebravam”, conta Luciane.

No Sambaqui do Rio Tavares III, muitas vezes foi necessário “sugar” a água: um saca-areia para guarda-sol foi adaptado e seringas serviram para retirada de água próxima e no entorno dos ossos. Outra dificuldade era a lama grudada nas áreas articulares entre os ossos; a arqueóloga conta que teve que ir até a farmácia comprar mais seringas e agulhas para com elas injetar álcool absoluto entre as áreas articulares a fim de facilitar a separação entre os ossos.

Trabalho de campo. Foto: Isabeli Micheli Vieira/Geoarqueologia

Esqueleto após ser evidenciado. Foto: Luciane Scherer/MArquE

A evidenciação e retirada do esqueleto durou três dias de trabalho. O crânio e a coluna vertebral foram retirados em bloco pelo risco de perda de material e pela hora já adiantada, pois já passava das 21 horas e era necessário finalizar a retirada do esqueleto. Neste último dia ele foi levado ao MArquE, chegando por volta das 22 horas.

Em laboratório o esqueleto levou cerca de três semanas para secar, e todos os ossos foram colocados em uma mesa dentro de uma sala com ventilação natural e longe dos raios solares. Também em laboratório os sedimentos do crânio e coluna vertebral foram retirados. Após secagem e limpeza, os ossos estão sendo inventariados.

O endosso institucional da escavação do Sambaqui do Rio Tavares III foi fornecido pelo MArquE à empresa Geoarqueologia Pesquisas Científica. Além do coordenador da pesquisa, o arqueólogo Osvaldo Paulino da Silva, integram a equipe: Cassiano Silveira dos Santos (historiador e arqueólogo), Juliana Betarello (arqueóloga), Luis Marcelo Balvoa (antropólogo), Ana Bueno (mestrando em arqueologia), Marcelo Kremer dos Reis (auxiliar de campo) Natáia Betarello (técnica em arqueologia), Sandro Henrique da Rosa (gestor ambiental), Fábio José Lago (geógrafo), André Carduz Guimarães (graduando em geologia)

Luciane destaca a importância de uma equipe multidisciplinar para análise dos materiais encontrados em sítios arqueológicos em função dos diversos aspectos a serem investigados. Por exemplo, biólogos podem identificar ossos e dentes de animais e que darão informações valiosas aos arqueólogos não apenas sobre a alimentação e as possíveis formas utilizadas para caçar e pescar. “Estes dados poderão ser trabalhados e contextualizados incluindo as possíveis escolhas de alguns ossos e dentes na confecção de adornos funerários e instrumentos de uso cotidiano. Enfim, a arqueologia é multidisciplinar”, afirma Luciane.

Impactos

Detalhe do crânio. Foto: Pipo Quint/Agecom

Uma das surpresas da escavação foi encontrar um esqueleto completo, em boas condições, naquele local. É um sítio bastante impactado pela própria rodovia e pelas construções em anos recentes. “Os seres humanos buscam os melhores lugares para se viver, tanto hoje, como há mais de dois mil anos”. Luciane conta que conversou com uma das moradoras antigas da região. “Ela contou que, quando criança, era comum encontrarem ossos humanos”.

Muitos dos sambaquis, que dão pistas sobre a ocupação pré-colonial do litoral catarinense, foram destruídos a partir da chegada do europeu e “lamentavelmente este processo perdurou intensamente até pelo menos a década de 1980. As peças bonitas como, por exemplo, os zoólitos (esculturas feitas em pedra) foram coletadas e guardadas muitas vezes por colecionadores; já os ossos humanos, lamentavelmente, foram destruídos”, aponta Luciane.

Caetano Machado/Jornalista da Agecom/UFSC

Fotos: Pipo Quint/Agecom/UFSC