Brasileiros consomem excesso de sódio em alimentos prontos e semiprontos

11/09/2012 09:25

Pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Nutrição (PPGN) e do Núcleo de Pesquisa de Nutrição em Produção de Refeições (NUPPRE), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), analisou 1.368 alimentos prontos e semiprontos para o consumo, utilizados em refeições de almoço e jantar e verificou que dois em cada três apresentava altos teores de sódio, ou seja, ofertava mais que 600 mg de sódio por 100 g ou 100 ml de alimento. As pesquisadoras analisaram os alimentos industrializados que fazem parte do dia a dia do brasileiro e que são incorporados nas refeições de almoço e jantar, em combinação ou substituição aos alimentos tradicionais, como o arroz e o feijão. Dentre os alimentos analisados, estão os pratos prontos, como pizza e lasanha, carnes cozidas, molhos (de tomate, para salada, de soja, mostarda, etc.), queijos, macarrão instantâneo, temperos completos, pós para sopa, embutidos e conservas. Tais alimentos passam por elevado grau de processamento, sendo conhecidos pela praticidade e conveniência de preparo.

Esta pesquisa é resultado da dissertação de mestrado defendida em agosto de 2012 pela nutricionista Carla Adriano Martins, sob orientação da professora Anete Araújo de Sousa e parceria das professoras Rossana Pacheco da Costa Proença e Marcela Boro Veiros, com bolsa de mestrado da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC). O objetivo da pesquisa foi analisar a informação alimentar e nutricional de sódio em rótulos de alimentos industrializados ultraprocessados prontos e semiprontos para o consumo comercializados no Brasil. Para isso, foi realizada uma coleta entre outubro e dezembro de 2011 em rótulos de alimentos com adição de sódio disponíveis à venda em um grande supermercado de Florianópolis, SC.

Na pesquisa, verificou-se que alimentos como os temperos completos poderiam ofertar, em 100g de alimento, até 9,35 vezes a quantidade recomendada para ingestão diária máxima de sódio, que é de 2000 mg sódio/dia. No caso em questão, o consumo de duas colheres de chá (5 g cada) desse tipo de tempero (uma no almoço e outra no jantar), praticamente alcançaria essa recomendação de ingestão diária do nutriente. Também foi grande a variação nos teores de sódio ofertados entre alimentos similares. No caso dos molhos de tomate, a diferença entre a menor e a maior oferta de sódio (mg/100 g) chegou a 306 vezes. Assim, em uma refeição do brasileiro pode haver uma combinação de diversos alimentos possivelmente ricos em sódio, como é o caso da macarronada (macarrão instantâneo, molho de tomate, tempero completo, azeitona e queijo ralado). Apesar de o sódio ser um nutriente essencial à saúde humana, o brasileiro o consome em excesso e parte dessa ingestão vem dos alimentos industrializados. Visando reduzir o teor de sódio em alguns alimentos industrializados, o Governo brasileiro assinou em 2011 um acordo com os representantes da indústria alimentícia. Porém, dos alimentos analisados nesta pesquisa, apenas o macarrão instantâneo e a maionese tinham suas metas estabelecidas no já citado acordo do Ministério da Saúde. Ressalta-se que apenas os exemplares de maionese cumpriam 100% da meta estabelecida pelo governo e que, mesmo cumprindo a meta, todos ofertavam alto teor de sódio (maior que 600 mg/100 g).

Para reduzir o consumo desse nutriente, as pessoas precisam conhecer suas maiores fontes na dieta e a rotulagem dos alimentos consiste em um meio de transmissão de tais informações. Contudo, as pesquisadoras observaram que a rotulagem de alguns alimentos analisados não apresentava informação nutricional de sódio e descrevia ingredientes com adição de sódio de forma incorreta e/ou incompleta na lista. Soma-se a isso a alta frequência de citação de ingredientes adicionados de sódio, como o sal de cozinha e o glutamato monossódico, além do fato de mais da metade dos alimentos da pesquisa apresentar, pelo menos, um aditivo alimentar com sódio na sua composição.

Para que as informações do rótulo cumpram o papel de informar e auxiliar os consumidores na hora da compra, elas devem ser claras e compreensíveis. No Brasil, a legislação de rotulagem vigente determina a obrigatoriedade da informação nutricional de sódio, que deve ser expressa em mg por porção de alimento, com percentual de valor diário (%VD) de referência calculado com base em 2400 mg de sódio. Contudo, destaca-se que o %VD estabelecido ultrapassa em 400 mg a recomendação de ingestão diária máxima para o sódio, citada anteriormente. Ainda, a forma como o sódio é apresentado na rotulagem nutricional não facilita a compreensão dos teores ofertados. Na pesquisa, as análises e comparações só foram possíveis pela conversão do valor de sódio em mg por porção para 100 g ou 100 ml de alimento.

Já a lista de ingredientes deve ser apresentada em ordem decrescente, ou seja, dos ingredientes mais utilizados para os menos utilizados e os aditivos devem ser descritos após os alimentos, sem importar a ordem de apresentação. Assim, para observar o teor de sódio dos alimentos industrializados, deveria bastar observar os alimentos que apresentassem o sal, ou outro ingrediente com adição de sódio, dentre os primeiros da lista, pois possivelmente eles ofertariam alta quantidade do nutriente. No entanto, não foi esse o resultado encontrado pelas pesquisadoras. Os alimentos que apresentavam o sal descrito entre as três primeiras ordens da lista de ingredientes poderiam ofertar alto, médio ou baixo teor de sódio. Como é o caso de uma fatia de pizza de calabresa vendida de forma individual, que ofertava alto teor de sódio (683 mg/100 g), mas citava o sal na 11ª ordem da lista. Assim, mesmo tendo outros ingredientes possivelmente ricos em sódio na sua composição (calabresa, queijo e azeitona), fica difícil essa identificação, em razão de o rótulo não exibir ao consumidor a composição de cada ingrediente detalhadamente.

Os dados da pesquisa são preocupantes, pois o excesso de sódio está relacionado ao desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como a hipertensão arterial e os problemas cardiovasculares. Além disso, os alimentos analisados são consumidos em duas importantes refeições do brasileiro. Neste sentido, destaca-se a urgência de redução do teor de sódio ofertado por tais alimentos, além da necessidade de aperfeiçoamento da forma de apresentação do sódio na rotulagem brasileira, em virtude da dificuldade de identificação e de comparação de alimentos ricos em sódio, em face da grande quantidade desse tipo de alimento encontrado na pesquisa e comercializados no Brasil.
Esta pesquisa é parte de um projeto amplo que analisou a informação alimentar e nutricional de sódio em rótulos de todos os alimentos industrializados com adição de sódio disponíveis à venda no local de coleta de dados. Portanto, futuras abordagens estão previstas voltadas para o teor de sódio em alimentos consumidos por crianças e adolescentes em refeições de lanches, assim como a comparação entre o teor de sódio em alimentos diet, light e convencionais.

Contatos: Carla Adriano Martins: (48) 9122-2219, Anete Araújo de Sousa: , Marcela Boro Veiros: e  Rossana Pacheco da Costa Proença:

Fonte: Nota para a imprensa de Carla Adriano Martins

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