Presença feminina em pesquisas da UFSC cresce e traz prêmios à Universidade

31/03/2015 15:49

Em 2014, mais de 20 pesquisadoras receberam prêmios pelos resultados de estudos desenvolvidos na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Segundo levantamento feito na base de dados do CNPq em novembro de 2014, elas estão presentes em cerca de 57% dos 627 grupos de pesquisa da Universidade, certificados pelo CNPq: são 273 mulheres em cargo de liderança e 210 de vice-liderança, sendo 127 grupos parceria entre duas pesquisadoras. Além disso, o número de estudantes de graduação mulheres que são bolsistas subiu no ano passado de 51% para 56%, em um total de 740 bolsas de Iniciação Científica ofertadas pela UFSC.

Entre as premiadas estão a professora do Departamento de Bioquímica, Manuella Kaster, e a professora do Departamento de Ciências Morfológicas, Patricia de Souza Brocardo, vencedoras do “Para Mulheres na Ciência”. Além do reconhecimento recebido, as pesquisadoras também foram contempladas com 20 mil dólares, que poderão ajudar o desenvolvimento de suas pesquisas, com início em 2015.

Trajetória

Em comum entre as duas, há a curiosidade e a vontade de sempre descobrir algo a mais. Manuella Pinto Kaster, de 31 anos, é graduada em Ciências Biológicas pela UFSC e doutora em Neurociências, também pela UFSC. Já Patrícia de Souza Brocardo, de 39 anos, é graduada em Fisioterapia pela Universidade Regional de Blumenau (Furb) e doutora em Neurociências pela UFSC. As duas conciliam a carreira de professora na Universidade com a pesquisa, e garantem que estão conseguindo, aos poucos, ter um tempo reservado para o lazer. “A vida acadêmica é quase um vício para mim, mas consigo ir para a praia e andar de bicicleta nos fins de semana”, contou Manuella. Patrícia acrescenta que o lazer pode proporcionar um olhar diferente para a pesquisa e trazer resultados ainda melhores.

O caminho até o reconhecimento não foi fácil. Manuella, por exemplo, tentou vestibular para Fisioterapia antes de entrar nas Ciências Biológicas. Não passou, entrou na segunda opção, e, até o terceiro semestre da faculdade, ainda tinha dúvidas sobre a carreira. Então conheceu o Laboratório de Neurobiologia da Depressão, e o contato com os mestrandos e doutorandos a fez encontrar algo em que gostava de trabalhar. Para Manuella, descobrir-se no curso não foi a maior dificuldade encontrada, mas a distância e a saudade dos familiares. Foram quatro anos estudando em Portugal e, depois que retornou ao Brasil, mais seis meses nos Estados Unidos. “Agora estou tentando achar o meu lugar aqui na UFSC.”

Para Patrícia, a história foi diferente. Ainda durante a graduação em Fisioterapia, teve o seu primeiro filho. Para conseguir pagar as aulas à universidade, decidiu trabalhar em um hospital de Blumenau. De manhã, a pesquisadora se dedicava aos estudos; à tarde, ao trabalho, e, no tempo que restava, cuidava do filho pequeno. Nesse período, uma colega ofereceu um emprego para cuidar de uma senhora com mal de Alzheimer durante as noites. O salário seria maior, e as tardes ficariam livres para aproveitar com o filho. Durante essa experiência, a vontade de estudar o sistema nervoso aumentou devido ao convívio com a doença e suas dificuldades, o que lhe inspirou a seguir a carreira acadêmica. Para fazer o mestrado e o doutorado, a pesquisadora se mudou para Florianópolis. O pós-doutorado foi feito no Canadá, onde ficou por quatro anos; mas o desejo de voltar para o Brasil nunca a abandonou. “Sou muito patriota, descobri isso quando fui morar fora. Fui muito bem-acolhida no Canadá, mas mesmo assim quis voltar; era meio que uma dívida com a sociedade trabalhar e dar retorno aqui.”

Apesar de o número de pesquisadoras, no mundo, ter crescido 12% desde 1990, menos de um em cada três pesquisadores é mulher – aponta o relatório encomendado pela Boston Consulting Group. O preconceito é uma das barreiras que as pesquisadoras têm de contornar nesse ramo em que os homens ainda são predominantes. Na opinião de Manuella, as mulheres precisam se esforçar mais para conseguir o mesmo reconhecimento que o de um pesquisador, mas ela garante que jamais sofreu preconceito. Outro problema muito comum enfrentado são as piadas ofensivas. “Já escutei [piadas de mau gosto] não diretamente para mim, mas para pessoas conhecidas minhas. Piadas que dizem ‘Você mandou o projeto da pesquisa e junto enviou sua foto?’”, disse Patrícia.

Mesmo com essas dificuldades, as duas pesquisadoras afirmaram que hoje em dia é mais fácil fazer pesquisa científica no Brasil. O prêmio “Para Mulheres na Ciência”, recebido em agosto, mostrou para elas como o incentivo aos estudos está crescendo no país. Para ambas, o reconhecimento recebido com o prêmio trouxe ainda mais confiança para continuar suas pesquisas.

Conheça os projetos vencedores das pesquisadoras

Depressão

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Manuella Pinto Kaster. Foto: Divulgação/L’Oreal

Manuella Kaster trabalhou desde o terceiro semestre da faculdade no Laboratório de Neurobiologia da Depressão da UFSC. O interesse pelo assunto se deve à grande ocorrência da depressão e sua complexidade – dados da OMS, de 2012, mostraram que 350 milhões de pessoas no mundo têm a doença. A pesquisadora afirma que o diagnóstico atualmente é clínico, isto é, os sintomas do paciente são mapeados e, com base em suas respostas, ele é considerado depressivo ou não. A pesquisa “Marcadores moleculares e bioquímicos em saúde mental” tem previsão de dois anos e tratará das causas fisiológicas que levam o paciente a sentir esses sintomas, com o intuito de aprimorar o tratamento. “O diagnóstico [clínico] é bastante eficiente, mas não diz quais são as vias celulares afetadas, nem apresenta as variações biológicas e moleculares que ocorrem no corpo humano.”

A depressão possui diversos sintomas, como a anedonia, que é a perda da capacidade de sentir prazer, alteração no sono, prejuízos cognitivos, entre outros. Nem todos os pacientes apresentam os mesmos sintomas, porém eles acabam sendo diagnosticados com a mesma doença e o mesmo grau, o que, para Manuella, dificulta o tratamento.

O objetivo da pesquisa é analisar esses sintomas específicos e descobrir as suas causas fisiológicas correlacionadas a eventos biológicos como a liberação de hormônios ligados ao estresse. A princípio, o estudo será aplicado a 200 pacientes selecionados do Hospital Universitário (HU) da UFSC em um projeto que unirá o Laboratório de Pesquisa Fundamental da Neurociência e a parte de residência em Psicologia do HU.

Álcool e Gestação

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Patricia de Souza Brocardo. Foto: Divulgação/L’Oreal

O projeto “Efeitos do consumo de álcool durante a gestação na plasticidade hipocampal adulta: busca de novos alvos terapêuticos”, de Patrícia de Souza Brocardo, trata da Síndrome Alcoólica Fetal – quando a gestante ingere bebida alcoólica, podendo afetar o sistema nervoso e o desenvolvimento do feto. A pesquisadora irá examinar a prole de roedores que receberão doses de etanol durante a gestação e qualificar os diferentes sintomas apresentados de acordo com o período de ingestão. A intenção é mapear quais consequências são geradas em cada mês de gestação dos roedores.

A Síndrome traz algumas características comuns, como o lábio superior mais fino e os olhos mais distantes entre si do que o normal. Na adolescência, os pacientes costumam apresentar déficit de atenção e dificuldade no aprendizado. O estudo de Patrícia também analisará os benefícios da atividade física no tratamento da doença. De acordo com a pesquisadora, já é comprovado que praticar exercícios estimula a neurogênese, ou seja, a criação de novos neurônios. Com isso, ela pretende trabalhar na diminuição dos sintomas da Síndrome. “Os pacientes, geralmente, são hiperativos. A atividade física também pode ajudar a acalmá-los.”

Para Patrícia, um dos seus maiores incentivos é conscientizar as pessoas do perigo da ingestão de álcool durante a gestação. A maneira mais simples de evitar a Síndrome é divulgar suas consequências; porém, a pesquisadora alerta que, muitas vezes, isso não é suficiente, já que muitas mães não sabem que estão grávidas, ou possuem o vício e não conseguem parar durante o tempo necessário. Assim, o foco da pesquisa é aliar a atividade física à diminuição dos sintomas e à melhora do bem-estar das pacientes.

Mais informações:

Departamento de Bioquímica: (48) 3721-9692;
Patrícia de Souza Brocardo: (48) 3721-5043.

Ana Carolina Prieto/Estagiária de Jornalismo/DGC/UFSC

Claudio Borrelli/Revisor de Textos da Agecom/DGC/UFSC

Foto destaque: Alvarélio Kurossu / Agencia RBS