Estudo da UFSC que transforma restos de peixe em adubo é premiado por multinacional francesa

19/05/2026 11:09

Guilherme estudou como biofertilizantes podem beneficiar produção de alface (Arquivo pessoal)

Uma pesquisa realizada na UFSC, que estuda o uso de biofertilizantes para a produção de alface, conquistou um prêmio na categoria Scale Up no Innovation Awards Roullier 2025-2026, que busca soluções inovadoras relacionadas à nutrição do solo, das plantas, dos animais e agroalimentar.

Guilherme Lenz, do Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas, teve sua empresa selecionada na seletiva nacional, no Brasil, e depois na categoria mundial, na França. Na UFSC, o estudo que ele realiza é orientado pelo professor Arcangelo Loss e aposta na valorização de resíduos de pescado na agricultura, por meio da produção e aplicação de biofertilizantes.

“Os trabalhos desenvolvidos avaliaram biofertilizantes produzidos a partir de resíduos de pescado, tanto na forma líquida quanto microencapsulada em pó, em experimentos conduzidos em casa de vegetação com cultivo de alface”, explica Guilherme.

De acordo com ele, os resultados demonstraram que os biofertilizantes podem sustentar a produtividade das plantas de modo equivalente à adubação convencional, o que indica seu potencial para reduzir a dependência de fertilizantes químicos. “Foi observado efeito bioestimulante, com melhoria em parâmetros fisiológicos das plantas, sugerindo maior eficiência na absorção e uso de nutrientes”, explica o pesquisador.

Outro impacto positivo do estudo premiado foi observado no solo, onde os biofertilizantes promoveram alterações positivas, aumentando grupos bacterianos e fúngicos associados à ciclagem de nutrientes, decomposição e biocontrole. Quando a adubação ocorre na forma mineral, há maior presença de microrganismos com potencial patogênico.

“De maneira geral, os resultados indicam que a utilização de resíduos de pescado como bioinsumos agrícolas pode contribuir simultaneamente para a valorização de resíduos e economia circular, manutenção da produtividade agrícola, melhoria da qualidade biológica do solo e promoção de sistemas agrícolas mais sustentáveis e resilientes”, pontua.

Na UFSC, o processo de produção dos biofertilizantes com resíduos do pescado foi validado em ambiente laboratorial junto ao Grupo de Estudos em Engenharia Hidráulica e Saneamento Aquícola (GEEHSA). Tradicionalmente, os resíduos da cadeia do pescado são destinados à produção de farinha e óleo de peixe, aplicações com menor valor agregado quando comparadas ao potencial biotecnológico desses materiais.

De acordo com o pesquisador, em muitos casos, parte desses resíduos também pode ser encaminhada para aterros sanitários ou descartada inadequadamente, gerando impactos ambientais e perda de recursos com elevado potencial de aproveitamento Por outro lado, apresentam alta concentração de proteínas, lipídios, aminoácidos e minerais, o que potencializa seu uso na agricultura.

Os estudos agronômicos foram executados em parceria com o Núcleo de Pesquisa e Extensão em Agroecologia (NEPEA), em casa de vegetação. Dois experimentos independentes, correspondentes as estações de verão e inverno, permitiram avaliar a consistência dos efeitos em diferentes condições sazonais.

As avaliações realizadas incluíram produtividade vegetal, estado nutricional das plantas, atributos químicos do solo e microbioma do solo por meio de sequenciamento molecular. “Os resultados indicam que os biofertilizantes atuam de forma integrada, influenciando não apenas a nutrição vegetal, mas também a qualidade biológica do solo”, aponta a pesquisa.

Com a conquista, a empresa de Guilherme receberá mentoria, com apoio de especialistas do Groupe Roullier para ajudar no desenvolvimento da sua solução, além de incubação técnica para acessar os equipamentos do Centre Mondial de l’Innovation do Groupe Roullier. O prêmio também possibilita acesso ao mercado, com a facilitação de experimentos e avaliações.

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