Pesquisador fala sobre processo de adesão do Brasil ao observatório astronômico ESO

10/12/2013 09:34

Andreas Kaufer durante a palestra no Larim/2013. Foto: Laura Tuyama / Agecom / UFSC

Um dos destaques do Encontro da Regional Latino-Americana da União Astronômica Internacional (Larim/2013), organizado pela Pós-Graduação em Física da UFSC, foi a palestra de Andreas Kaufer, do Observatório Europeu do Sul (European Southern Observatory, ESO). Trata-se do consórcio formado por 14 países europeus – que operam no Chile dois dos maiores observatórios astronômicos do mundo, o de La Silla e Paranal.

Na palestra, Kaufer abordou a atual estrutura do ESO e o alto impacto da produção científica, feita a partir dos dados coletados e analisados: 25% dos papers produzidos pelos cientistas do ESO têm mais de 100 citações. Falou também sobre os projetos em construção, entre eles o European Extremely Large Telescope (E-ELT), que irá analisar espectroscopicamente a atmosfera, a fim de descobrir indícios de vida fora da Terra.

Foi este mesmo projeto que atraiu o Brasil para fazer parte do ESO. Em 2009 começaram as primeiras negociações, e por se tratar de um acordo entre países, a adesão depende da aprovação do Congresso Nacional, processo que está tramitando desde maio deste ano na Câmara dos Deputados. Caso seja aprovado, o Brasil irá arcar com um custo de 255 milhões de euros, quase 700 milhões de reais em 10 anos, e será o 15º Estado Membro do ESO – o primeiro não europeu.

A adesão do Brasil ao ESO tem gerado debate na comunidade científica brasileira. A Sociedade Brasileira de Física estima que 75% da comunidade astronômica brasileira apoiem o ingresso, enquanto 10% estejam contra. Os argumentos em contrário afirmam que o Brasil não terá como arcar com tamanho investimento, que a contribuição financeira ao ESO, calculada sobre do PIB de cada país, seria desproporcional em relação ao número de astrônomos do Brasil que poderiam se beneficiar da parceria, que os pesquisadores brasileiros terão que disputar pelo tempo de observação nos equipamentos e, sobretudo, que existem alternativas para desenvolver a Astronomia brasileira a um custo muito menor.

Nesta entrevista, Andreas Kaufer fala sobre o ESO, o que pode representar para o Brasil o ingresso neste consórcio e também sobre as ações em divulgação científica:

Como os cientistas e a sociedade brasileiros podem se beneficiar com a parceria no ESO?

Andreas Kaufer – Tornar-se um membro do ESO pode ter muitos significados. O mais óbvio é a colaboração científica. O Brasil já tem uma comunidade de pesquisadores muito forte, com cerca de 600 astrônomos e 60 institutos. Existem muitas ligações tradicionais com a Europa e os países membros do ESO no campo científico. Desse ponto de vista, a abertura para cientistas brasileiros é uma extensão quase natural dessa  colaboração, não apenas para a capacidade de observação, que o ESO pode prover com os telescópios, o acesso ao observatório ALMA  (sigla de Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), além de tempo de observação. Também permite mais trabalho com institutos da Europa, na elaboração conjunta de papers de pesquisa. O Brasil também pode começar a construir instrumentos para os telescópios que já existem e para os novos projetos, poderá enfocar na ciência que quer fazer, e também influenciar, como membro do ESO, no futuro programa da instrumentação dos observatórios.  Um exemplo do que a adesão ira permitir será a participação de institutos brasileiros na construção de instrumentos para o novo espectrógrafo CUBES. Outro aspecto é que no ESO, os grandes projetos e os telescópios são muito caros, na ordem de bilhões de euros. Mas é importante observar que não estamos gastando esse dinheiro em nós mesmos, e sim em indústrias e institutos dos estados membros. Ou seja, o dinheiro retorna para o país. Estamos cientes de que o Brasil é um país muito avançado em relação a alta tecnologia, como por exemplo na construção de aviões e em seu programa aeroespacial. Então, esperamos que com isso o Brasil seja capaz, rapidamente, de contribuir para o seu desenvolvimento industrial e técnico.

Como está o andamento do projeto da adesão do Brasil ao ESO junto à Câmara dos Deputados?

Andreas Kaufer – Estamos acompanhando cuidadosamente as informações publicadas no site do Congresso, e muito felizes que as duas primeiras comissões tenham sido positivas em relação à adesão do Brasil ao ESO. As esperanças continuam para as próximas duas comissões. Embora não exista previsão de data, esperamos que este processo termine logo, especialmente antes das próximas eleições. Sabemos que no período eleitoral não sobra tempo para esse tipo de debate, o que é normal. Estamos otimistas agora, pois a segunda comissão foi a científica, que estava observando o valor científico da entrada do Brasil no ESO, e eles foram positivos. Esse é o tom da mensagem, na nossa opinião, de que há uma base científica para o ingresso.

Existe uma crítica de parte dos cientistas brasileiros em relação à participação na ESO, com o argumento de que o país faria um investimento muito alto que beneficiaria poucos cientistas. Como você comenta essas críticas?

Andreas Kaufer- Certamente é um grande investimento. Existem outras opções para investir o dinheiro em ciência. Neste sentido, não cabe ao ESO ou a mim comentar a decisão de integrar o consórcio. Mas posso apenas dizer que o Brasil é um país grande e que se desenvolve de forma extremamente rápida. Todos no mundo estão olhando para o Brasil e para a China atualmente. No caso da Ciência, diria que é preciso olhar para o futuro e para onde serão realizados os grandes desenvolvimentos. Na minha palestra mostrei alguns exemplos do que o ESO já tem a oferecer e no que está trabalhando para o futuro. Isso abre um caminho para o Brasil que não está acessível em nenhum outro lugar. A pergunta que os cientistas têm que se fazer é: o que o Brasil deixará de ganhar caso perca esta oportunidade de integrar o ESO, uma vez que esta chance não ocorrerá mais muitas vezes? Entendo as preocupações. Não há nada ruim em uma boa discussão. Mas, ao final, caso a decisão pelo ingresso do Brasil seja positiva, posso ver vários benefícios, incluindo ganhos às indústrias do país.

Em sua palestra, o professor afirmou considerar a comunicação como algo crítico para o futuro da Astronomia. O senhor poderia destacar algumas ações realizadas pelo ESO para popularizar a ciência?

Andreas Kaufer – No passado, a Europa não foi muito bem-sucedida em tornar públicas as suas descobertas cientificas. Quer dizer, não havia uma cultura de se dirigir ao público para explicar o seu trabalho. Os colegas norte-americanos são mais fortes neste campo. A Europa e o ESO, em particular, têm despendido muitos esforços nos últimos anos em falar com o público em diferentes mídias, não apenas nos jornais. Atualmente você tem que ir às mídias sociais, estar no Facebook, no Twitter, para se comunicar particularmente com a geração jovem. É esse público que queremos que esteja interessado na ciência. Em particular, em Astronomia, que tem uma grande vantagem, pois podemos utilizar imagens muito legais, que despertam emoções e sentimentos. Podemos usa-las para transmitir explicações mais científicas e provocar as pessoas a pensar “Por que isso é assim?”.  Existem muitas formas de popularizar a Ciência, como filmes, animações, notícias e também transmissões ao vivo do observatório.  O ESO tem investido em todos esses recursos. Temos feito um pouco menos em educação científica para escolas, pois este é um domínio de outras pessoas que podem fazer melhor do que nós. Os professores podem obviamente obter nossas publicações. Outro aspecto importante é que na Europa somos 50 Estados-Membros, que falam diferentes línguas. O ESO tem feito um grande esforço em traduzir toda essa mídia e materiais para o maior número de línguas possível, incluindo o português. Claro que sabemos que a língua da ciência é o inglês, mas não podemos esperar que o público de diferentes países fale esta língua. Acho que este esforço de tradução é muito importante e é feito por voluntários em seus países, para que seus compatriotas possam compreender.

O que a adesão ao ESO pode significar para a sociedade brasileira?

Andreas Kaufer – Acho que em todos os países da Europa, América Latina incluindo o Brasil, ainda precisamos realizar um grande trabalho para fazer o público entender a importância da ciência. De modo geral, queremos que as crianças nas escolas fiquem empolgadas com a ciência: que elas estudem, contatem os cientistas, sejam capazes de explicar ciência para seus pais e mais tarde para seus próprios filhos. Isso representa um desenvolvimento cultural muito grande. A ciência tem muito a ver com a cultura, nosso entendimento do mundo e do universo. É um desenvolvimento muito importante para a sociedade em qualquer lugar. Se a parceria com a ESO puder ajudar o Brasil nesse aspecto, já terá sido um grande sucesso.

Laura Tuyama / Jornalista da Agecom / UFSC

Revisão: Alita Diana e Claudio Borrelli/ Agecom/UFSC

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