Vestibular UFSC 2017: Matheus Cunha

07/10/2016 08:01

MATEUS_Vestibular_2017

Matheus Cunha – Estudante de Licenciatura em Educação do Campo

“Eu ingressei na Universidade a partir de uma política de ação afirmativa, meu curso de Licenciatura em Educação do Campo já é fruto de uma política afirmativa da diversidade, inclusive. Com o curso, se abriu espaço na Universidade para pessoas que de certa maneira não teriam acesso.

Eu me denomino um militante, não um ativista. É uma construção. Sou militante por todas as causas contra a inferiorização, seja por raça, ou sexualidade. Eu sou homossexual, assumido, sem problema nenhum. O que me faz querer participar dos movimentos é a questão do acolhimento. Quando eu sofro um preconceito, sofro muito mais por ser tatuado do que por ser homoafetivo. É isso que me faz querer lutar e querer entrar nos movimentos. Eu me vejo como um exemplo da diversidade, eu posso ser muita coisa: posso ser militante pelos povos do campo, pelos grupos LGBT, pelos negros, pela educação.

A maioria dos meus colegas estão hoje na Universidade para fazer a diversidade acontecer de verdade. Eu não sou do campo, mas faço um curso voltado para essas pessoas. Convivemos juntos oito horas por dia. Muitos deles são mais acanhados, então eu acabo sendo o porta-voz, a pessoa que vai gritar na Reitoria, declamar um poema. Isso me movimenta, me faz sentir vivo.

O curso de Licenciatura em Educação do Campo é de 2009, já tem quatro turmas formadas, e mais quatro em formação. O curso veio para firmar uma transformação, uma mudança, desde a questão da produção dos alimentos até paradar visibilidade para o campo, para a evasão que está acontecendo. Não existem mais escolas do campo, o ensino fundamental principalmente vem sofrendo muito. O curso vem como contrapartida ao meio de produção capitalista, à industrialização e ao sufocamento desses pequenos povos. O curso abrange camponeses, ribeirinhos, comunidades quilombolas, pessoas que têm uma ligação com a natureza e um projeto de uma sociedade diferente. O que está muito presente no curso é a compreensão do contexto da diversidade. Trabalhamos a contextualização das coisas antes de emitir opiniões. É uma formação por um projeto de escola comunitária.

Se não fosse o curso de Licenciatura em Educação do Campo nem eu, nem meus colegas teríamos acesso à Universidade. Dificilmente alguém do meu perfil ou do perfil dos meus colegas teriam entrado em outro curso. Eu estudei sempre em escolas públicas, antes de entrar na Universidade, por ter tido a condição de vida que eu tive, eu queria abdicar de viver uma vida no sistema capitalista. Eu sou todo tatuado porque eu decidi que queria viver de vender meu artesanato, porque para mim não faria sentido entrar para estudar em um curso que não agregaria para o que eu escolhi para a minha vida. Minha concepção de Universidade era de um espaço extremamente careta, formal, onde eu não conseguiria me enquadrar e que nunca teria espaço para mim. Aí eu conheci a Licenciatura em Educação do Campo e vi que isso era possível. Vi que existem várias outras pessoas assim como eu. É algo muito satisfatório pessoalmente e coletivamente.

Eu sou o primeiro de quatro irmãos a ter acesso à universidade pública. É muito gratificante, eu tenho certeza que vou sair daqui carregado de muito mais conhecimento, desenvolvimento, experiências. Eu estou fazendo isso não para reproduzir um sistema de consumo, de ganhar dinheiro, mas para poder levar uma ideia diferente para as escolas.

Os jovens que estão pensando no vestibular, independente de quem seja, rico ou pobre, negro ou branco, eles têm que procurar esse acesso à Universidade, porque é um direito deles. A Universidade proporciona subsídio para me manter aqui, mesmo com todos os entraves e dificuldades. É um direito de todos, devem pelo menos tentar. Se temos à disposição isso, temos que batalhar para conseguir ter acesso.

Tem uma fala do Che Guevara que eu gosto muito que diz ‘que a universidade se pinte de negro, e mulato, de operário, de camponês’. É isso que eu desejo, que a universidade seja um foco de diversidade mesmo, em todos os sentidos.”

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