Pesquisa da UFSC estuda incoerências na Matemática em Braille

24/02/2016 11:26

Pessoas com deficiência visual aprendem Matemática usando Livro Didático em Braille (LDB), formulado com base no Código Matemático Unificado para a Língua Portuguesa (CMU). A pesquisadora Daiana Zanelato, que foi professora, durante dois anos, de dois estudantes cegos, percebeu as dificuldades dos alunos para compreender alguns conteúdos. Com base nesta experiência, durante o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Daiana analisou o uso do CMU e seus impactos na aprendizagem escolar.

Na dissertação “Da Tinta ao Braille: estudo de diferenças semióticas e didáticas dessa transformação no âmbito do Código Matemático Unificado para a Língua Portuguesa  (CMU) e do Livro Didático em Braille”, orientada pelo professor Méricles Thadeu Moretti, a pesquisadora demonstra as contradições entre a matemática em tinta – para alunos que enxergam – e a em Braille, que podem dificultar a formação dos estudantes e a explicação de um professor. Isso ocorre porque muitos símbolos no CMU não são utilizados com frequência nas apostilas de matemática, gerando confusão. Na unidade do Código que trata de índices são apresentadas seis posições diferentes, mas apenas quatro são frequentemente aplicadas.

Daiana usou três exemplos para demonstrar as incoerências, como destacado abaixo:

Símbolo principal — Z

1

 

 

 

Das seis posições acima, as mais comuns no ensino fundamental são a 3 e a 6 (posteriores ao símbolo principal). Fonte: Brasil (2006a, p. 25).

A expressão 2 em matemática em tinta se torna 3 em Braille, o que altera o sentido e o resultado da questão.

Por exemplo: 4 é transcrita como 5

Foi verificada também a ausência de explicação sobre o conjunto matemático dos irracionais. “A maioria estuda regularmente todos os conjuntos numéricos. Não tem como excluir os irracionais para os alunos com deficiência visual”, argumenta. Outro problema encontrado foi o número de símbolos que a matemática em Braille contém: uma expressão feita com nove números transcritos, no Braille pode se transformar em 19. “O aluno cego começava a ler [uma expressão], terminava e não sabia mais o que o exercício pedia. Então tinha que ler e reler, o que torna o aprendizado fatigante”, explica.

Exemplo de Expressão Algébrica em tinta Quantidade de símbolos em tinta
 6  9

 

Exemplo de Expressão Algébrica em Braille Quantidade de símbolos em Braille
 7 19

Legenda: quantidade de símbolos em Braille pode cansar alunos. Foto: quadro elaborado pela pesquisadora

A vontade de facilitar o aprendizado destes estudantes fez com que Daiana desenvolvesse instrumentos que ajudassem no ambiente escolar. Foi assim que surgiram os planos cartesianos em cartolina e também em descansos de panelas. “Fui a uma loja comum no centro de Florianópolis, olhei aquele objeto e pensei que seria um gráfico perfeito para os alunos cegos!”, conta entusiasmada. Exercícios e lições de casa especiais também foram elaborados, a partir das dificuldades encontradas no livro didático, para estimular a autonomia  dos alunos na resolução de problemas. A pesquisadora ressalta, porém, que esses materiais foram adaptados por ela experimentalmente, sem vínculo com seu mestrado, e que não há ainda comprovação científica sobre os seus benefícios.

Foto: Daniela Caniçali/Agecom/DGC/UFSC

Daiana desenvolveu instrumentos para ajudar no ambiente escolar. Foto: Daniela Caniçali/Agecom/DGC/UFSC

Para a professora, a solução para as incoerências seria uma revisão no conteúdo do CMU, que teve sua edição mais recente aprovada pelo Ministério da Educação (MEC), publicada em 2006. Daiana acredita que um número maior de profissionais na área de Matemática na elaboração do Código seria o suficiente para diminuir os erros. Em 2006, doze pessoas participaram da elaboração do Código, sendo apenas uma formada na área.

A pesquisadora continua os seus estudos, agora no Doutorado em Educação Científica e Tecnológica da UFSC, onde pretende elaborar um material didático voltado para os alunos cegos. “Precisamos verificar as necessidades deles e não desenvolver apenas a transcrição de um livro de um aluno que enxerga para um que não enxerga”, conclui.

Ana Carolina Prieto/Estagiária de Jornalismo/Propesq/UFSC

Foto: Daniela Caniçali/Agecom/DGC/UFSC