Pesquisa aponta risco cardíaco em crianças e adolescentes portadores de HIV

22/12/2014 13:40

Uma pesquisa desenvolvida no Departamento de Pediatria da Universidade Federal de Santa Catarina avaliou o risco cardíaco de crianças e adolescentes com AIDS. Nos casos analisados, houve evolução da aterosclerose, doença responsável por formação de placas de gordura nas artérias, e alteração na distribuição de gordura corporal. O estudo foi desenvolvido por Isabela Giuliano, professora do Centro de Ciências da Saúde (CCS), e ocorreu em duas etapas. Na primeira, entre outubro de 2005 e abril de 2006, foram avaliados 83 pacientes do Hospital Joana de Gusmão com idade entre 7 e 18 anos. Já na segunda parte da pesquisa, feita em 2009, reavaliaram-se 26 dos 83 casos. Essa etapa contou com a participação do bolsista PIBIC Felipe Alpert, do curso de medicina da UFSC.

Infográfico de Luiza Gomes/Estagiária de Design/DGC/UFSC

A primeira parte do estudo, com os dados de 2005, foi publicada na tese de doutorado de Isabela Giuliano. “Até a minha tese, se achava que a causa da aterosclerose eram as drogas [remédios usados para o tratamento do HIV], que elas aumentavam o colesterol e isso evoluía para a aterosclerose. Mas nós descobrimos que a causa da doença é a inflamação. Então, ninguém queria publicar [a tese] porque ia contra todas as ideias anteriores”, conta a pesquisadora.

O estudo demonstrou que o IMC – Índice de Massa Corporal – aumentou, durante esses quatro anos, de 16,3 para 18,1. Essas medidas são consideradas normais dentro dos padrões da Organização Mundial de Saúde. Ainda assim, houve alteração na distribuição de gordura corporal, explicada pelo aumento do índice tronco-membros. A espessura médio-intimal aumentou 0,075 ao ano. Se o índice continuar a crescer desse modo, os pacientes chegarão a um estágio grave, com risco de infarto ou derrame, quando tiverem 37 anos.

O colesterol total também cresceu – de 158,9 para 172,3 -, devido, principalmente, ao aumento do VLDL, colesterol responsável pela formação de placas de gordura. O HDL, colesterol “bom”, também teve pequeno aumento. Segundo Isabela Giuliano, isso ocorreu porque o HDL é indicativo de inflamação, assim, o crescimento está relacionado à melhora devido ao tratamento de quatro anos.  Já o LDL, colesterol “ruim”, diminuiu, mas foi associado a desnutrição dos pacientes, conforme a pesquisadora.

Houve redução da fração de encurtamento, fator ligado a contração do coração, o que “demonstrou um padrão de insuficiência cardíaca esperado para pessoas com doenças mais avançadas”, de acordo com Felipe Alpert. Também ocorreram alterações na relação ondas E/A, associada ao relaxamento do órgão.

Em 2007, o estudo recebeu o 1º lugar na quarta edição do prêmio AIDS Responsabilidade Social, realizado pelo Aguilla Instituto Saúde Brasil. Essa premiação é dada anualmente para projetos que estimulam a prevenção da doença ou que ajudam na melhora da qualidade de vida dos portadores de HIV.

A pesquisa “Perfil de risco cardiovascular de crianças e adolescentes com HIV/AIDS”, conhecida como PERI, foi realizada em parceria com o Instituto do Coração da Universidade de São Paulo (USP).  A entidade forneceu equipamentos, como os usados para o exame de espessura médio-intimal, durante a primeira etapa do projeto.

PERI é desenvolvida por membros do Núcleo de Pesquisa em Epidemiologia e Doenças Crônicas Não Transmissíveis, uma equipe interdisplinar da UFSC. Participam desse núcleo dezenove pesquisadores. O estudo também integra o grupo nacional Doença Sistêmica e o Coração, com 37 membros e liderado por Bruno Caramelli, professor da USP.

Isabela Giuliano estuda a possibilidade de continuar com o projeto. “Nós temos planos de seguir com a pesquisa e, pelo menos, a cada quatro anos, examinar esses pacientes”, explica.

Mais informações:  Isabela Giuliano: (48) 37219536
Tamy Dassoler/Estagiária de Jornalismo/DGC/UFSC

Infográfico de Luiza Gomes/Estagiária de Design/DGC/UFSC