UFSC sedia III Colóquio Merleau-Ponty

23/04/2014 09:26

O Programa de Pós-Graduação em Filosofia promove, de 14 a 16 de maio, o III Colóquio sobre Merleau-Ponty, com o tema “O que se pode criar hoje a partir do legado de Merleau- Ponty”?

Trata-se do maior e mais importante encontro de pesquisadores do pensamento de Merleau-Ponty em nosso país. O evento chegou a 3ª edição, tendo sua periodicidade trienal (a última edição ocorreu em João Pessoa e a anterior em Salvador). O evento tem ganhado cada vez mais respaldo e notoriedade, pois, em várias regiões do Brasil, principalmente nas universidades, estão sendo desenvolvidos vários projetos de extensão, os quais se ocupam de produzir a inclusão cultural no campo das Artes Integradas, da Filosofia, da Práxis Política e da experiência Clínica, tomando como matriz teórica as ideias do filósofo Maurice Merleau-Ponty. Estes projetos estão ligados a pesquisas filosóficas, as quais tentam pensar o sentido ético, político e antropológico do fazer artístico, da práxis política, da atividade clínica, dentre outras. Reunir estes profissionais, extensionistas e pesquisadores, tal como já ocorreu nas duas versões anteriores do colóquio, é uma ocasião preciosa para o desenvolvimento de novas tecnologias de produção de saberes e de práticas sobre a arte, a política e a clínica. Trata-se, portanto, de uma atividade que, a partir do preceito de indissociabilidade entre ensino, extensão e pesquisa, procura promover a integração das ações de inclusão desenvolvida por pesquisadores (da obra de Merleau-Ponty) e profissionais (ligados às artes integradas) à formação técnica e cidadã dos estudantes do curso de Filosofia, de sorte a favorecer o desenvolvimento e a difusão de novos conhecimentos e novas metodologias de ensino, pesquisa e extensão.

O evento prevê – além das apresentações artístico-culturais – a publicação dos vários debates sistematizados na forma de artigos científicos, os quais serão editados pela Revista Principia, em formato eletrônico, de sorte a contribuir de forma permanente com o crescimento das discussões acerca do filósofo no país.”

Inscrições e programação : www.merleaupontyemflorianopolis.blogspot.com.br

Tags: colóquioMerleau-PontyPrograma de Pós-Graduação em Filosofia

Café Philo aproxima Lacan e Merleau-Ponty nesta quarta

13/06/2012 17:04
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No Café Philo desta  quarta, 13,  o  filósofo Marcos Müller, da UFSC, trava diálogo entre pulsão de morte da psicanálise e o olhar da fenomenologia, aproximando Lacan e Merleau- Ponty. O evento acontece às 19h, na Sede do Museu Vitor Meirelles, no Centro de Florianópolis (próximo aos Correios).

Ele foi o filósofo da percepção, do efeito interpretativo sobre as sensações e da fenomenologia do ser em sua indivisibilidade entre corpo e alma. Mostrou que antes do olho há um olhar a instaurar sentido para tudo. Ao mesmo tempo em que reconheceu o primado da subjetividade no mundo da linguagem, proclamou os filósofos a se despirem dos seus véus para compreender o fenômeno, o objeto. Essa intersecção entre comportamento e filosofia fez de Merleau-Ponty o pensador francês mais revisitado pela psicanálise. Travar um diálogo entre Merleau Ponty e Lacan a partir da relação entre o olhar e a pulsão de morte é a proposta do filósofo, psicólogo clínico, analista gestáltico e professor da UFSC Marcos José Müller-Granzotto, que comanda na próxima quarta, 13 de junho, o 42º encontro do Café Philo.

Sob o título “Esquize e pulsão: o olhar segundo Merleau-Ponty”, a conferência começa às 19 horas, no Museu Vitor Meirelles, no Centro de Florianópolis e é seguida de debate. “Filosofar é reaprender a ver o mundo, voltar às próprias coisas”, ensinou Ponty. Ultrapassando a teoria clássica da percepção, o autor francês mostrou que a consciência se insere no mundo pela interpretação das sensações em um processo que integra e ressignifica todos os sentidos (visão, paladar, tato, audição). Nessa perspectiva, não há sensações puras: não há azul sem o céu, assim como não há mundo sem história, sem um campo de simbolismo anterior e produtor de significados ou sem o que o filósofo chamou de “intermundos”.

A violência desse olhar estrangeiro que se estabelece na diferença entre o visível e o invisível no processo de percepção é o foco do colóquio do Café Philo, projeto coordenado pelo professor Pedro de Souza do Departamento de Línguas e Literaturas Vernáculas da UFSC, ao lado de Rogério Luiz de Souza, docente do curso de História, com apoio da Secretaria de Cultura.  Autor de vários artigos em revistas nacionais e internacionais sobre fenomenologia, psicanálise e Gestalt-terapia, o filósofo lança, às 20h da quarta-feira do dia 20 de junho, no Muro Temakeria Lounge, na Lagoa da Conceição, em parceria com a mulher Rosane Müller-Granzotto, também filósofa e piscanalista, o livro Psicose e Sofrimento. Na obra, os autores dedicam vários capítulos à discussão sobre o diálogo travado entre Lacan e Merleau-Ponty pela questão do olhar.

 

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Professor Marcos José Muller-Granzotto

Em viagem à Espanha, Marcos Müller, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e da disciplina de Ontologia e Fenomenologia do Curso de Pós-Graduação em Literatura da UFSC concedeu a seguinte entrevista por e-mail:

R.W. – Qual será o foco da sua conferência?

Marcos Müller: Quero apresentar e discutir a leitura que Lacan fez da distinção proposta por Merleau-Ponty entre o ‘olho’ e o ‘olhar’ e na qual Lacan reconheceu uma forma de designar o que ele próprio, por meio da noção de objeto, tentava apontar em Freud, precisamente, a presença da pulsão de morte como causa do desejo.

 

R.W. – Que aproximações são possíveis entre Lacan e Merleau-Ponty, sendo teóricos de linhas tão distintas, um da psicanálise, outro da fenomenologia?

Marcos Müller – Quando não se é dogmático, a distinção ou diversidade nos pontos de vista costuma ser muito benéfica para o tratamento de temas comuns, como parece ser o interesse de Merleau-Ponty e Lacan sobre Freud. Ainda que não se propusesse ao ofício ético de uma clínica, como é o caso de Lacan, Merleau-Ponty estava interessado em incluir, em suas discussões filosóficas sobre a indivisão entre a percepção e o pensamento, a tese de que, mesmo em nossa experiência perceptiva não estamos sozinhos; o que significa dizer que, nalgum momento, encontraremos um olhar do qual não somos protagonistas e diante do qual não temos alternativa que não seja a passividade. Essa forma de descrever a experiência de encontro com o olhar estranho em muito se aproxima, segundo a avaliação lacaniana, do encontro com o real da pulsão. E meu objetivo é aprofundar as consequências éticas dessa constatação no campo da clínica e do discurso filosófico.

 

R.W. – Que relação Merleau-Ponty estabelece entre o olho e o olhar?

Marcos Müller – O olho só pode ver à medida que faz dele próprio um partícipe do mundo visto. O que significa dizer que o olho, para ver, deve poder emprestar, às coisas mundanas, um aspecto visível, como delas recolher a tangibilidade, o som, o sabor… Há entre o olho e o mundo uma familiaridade, que permite a cada pequeno núcleo de visibilidade exprimir um invisível mais além do que cada núcleo encerra.

 

R.W. – Qual a diferença entre o olhar para Lacan e para Merleau-Ponty?

Marcos Müller – Lacan suspeita que Merleau-Ponty, nalgum momento, abdicou da tese inicial de que, diante do olhar estranho, sempre somos passivos. Para Lacan, é como se Merleau-Ponty por fim tivesse harmonizado esta relação, fazendo do olhar estranho uma versão de uma idéia ou princípio universal, que cada olho levaria consigo. Trata-se, segundo meu ponto de vista, de uma leitura equivocada de Lacan.

 

R.W – E qual é, afinal, a sua interpretação sobre o impacto do olhar estranho para Merleau-Ponty?

Marcos Müller – Nossa participação nessa reversibilidade visível/invisível encontra um ponto de detenção, um escoamento impossível de integrar quando nos deparamos com o olhar estranho, que vem lá do fundo de invisibilidade, como se, mais além da visibilidade da tela, a montanha (invisível) que alcançamos ver, nos devolvesse um olhar que não é nosso e mais além do qual não podemos ir, nem sequer dele fugir.  E é nesse momento que, para Merleau-Ponty, a carnalidade da experiência encontra, pela primeira vez, com uma dimensão ética, entendendo-se por ética a passividade diante do estranho.

 

 

SERVIÇO

Quando: 13 de junho, às 19 horas

O quê? 42º Café Phillo (Lacan e Merleau-Ponty)

Quem: filósofo e psicanalista Marcos José Müller-Granzotto

Onde: Sede do Museu Vitor Meirelles, Centro – Florianópolis/SC (próximo aos Correios)

Quanto: Gratuito, aberto ao público.

Contatos conferencista:

Por Raquel Wandelli/ Coordenadora de Comunicação Social da SeCult/UFSC

, 9911-0524 e 3721-9459 – www.secarte.ufsc.br



Esquize e pulsão: o olhar segundo Merleau-Ponty (uma síntese da conferência)

Por Marcos José Müller-Granzotto

 Em excelente estudo intitulado Uma libra de carne, Charles Shepherdson (2006, p. 97) discute a relevância de certas reflexões de Maurice Merleau-Ponty (sobre a estrutura do olhar) para a consideração lacaniana da pulsão de morte no contexto do Seminário XI – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (Lacan, 1964).  Shepherdson interessa-se particularmente pelo momento em que Jacques Lacan interrompe a primeira sessão desse seminário para então se ocupar de um tema que, na obra póstuma O visível e o invisível, Merleau-Ponty descreveu nos termos de uma diferença entre o olho e o olhar: mais além da visibilidade do mundo, no seio daquilo que emerge como horizonte de invisibilidade, um olhar vem me surpreender, denunciando minha passividade a uma vidência estranha.

 

Lacan reconheceu, na noção merleau-pontyana de olhar estrangeiro, uma possível indicação daquilo que Freud denominou de pulsão de morte; como se, para Merleau-Ponty, a co-presença daquele olhar estrangeiro viesse denunciar – qual pulsão de morte – minha própria divisão (castração) e, por conseguinte, o que exigiria de mim eu me fazer objeto ao Outro. E na esteira da prudência analítica de Lacan (1964, p. 77-78) – ora convencido da absoluta novidade introduzida pela noção merleau-pontyana de olhar, ao menos em relação à tradição filosófica, ora desconfiado de que tal noção denunciaria a presença de um vidente universal platônico, do qual nosso olho seria uma versão – Shepherdson revela-se também muito cuidadoso, o que não o impediu de concluir pela distância entre Merleau-Ponty e as expectativas da psicanálise lacaniana. Afinal, conforme sugere Lacan (1964, p. 71), a descrição merleau-pontyana do encontro com o olhar dá a entender certa experiência de “satisfação”, tal qual aquela que sucede na realização de um desejo – satisfação esta que não se confunde com o gozo (jouissance) característico do encontro com a pulsão de morte.

 

E o que gostaríamos de questionar nesta conclusão lacaniana – seguida por Shepherdson – não é tanto a sugestão de que, em Merleau-Ponty, o enfrentamento ao olhar estranho pudesse ensejar algum tipo de satisfação. Em muitos lugares, Merleau-Ponty relaciona o olhar estranho à experiência de encontro com o insondável, com o que não faz sentido, qual outrem – de sorte que aí não pode haver satisfação. Mais problemático, todavia, é a sugestão – em momento algum demonstrada por Lacan ou por Shepherdson – de que, em Merleau-Ponty, o olhar estranho poderia valer como “substância” ou “elemento” primordial, que precederia o sujeito, qual seu lugar de “nascimento, sua origem, chora e assim por diante” (Shepherdson, 2006, p. 120).

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