Antropólogo italiano propõe o estupor na relação entre as culturas

30/03/2011 10:43

Se fosse para sintetizar o pensamento de Massimo Cavenacci, o oposto do dito popular “quem gosta de velharia é museu” exprimiria bem o que prega o antropólogo italiano. Não há nada mais atual do que colecionar as relíquias do contemporâneo. Ao falar sobre Os desafios do museu no século XXI, o catedrático da Universitá di Roma La Sapienza e professor convidado do Departamento de Psicologia da UFSC defendeu a polifonia dos museus, a exposição de acervos museais em espaços dinâmicos da cidade e a apropriação das tecnologias digitais para a autorrepresentação das culturas e identidades.  Em suma, o museu contemporâneo deve se constituir na mobilidade da vida urbana, incorporar as novas tecnologias e estar atento à pluralidade das culturas. A conferência atraiu uma plateia de cerca de cem pessoas, entre alunos, professores e comunidade em geral para o pequeno auditório do Museu Universitário na tarde da terça (29), abrindo o primeiro evento do ciclo de debates O Pensamento do Século XXI e da série Museu em Curso deste ano.

Fotos: Paulo Noronha/Agecom

Lançador de instigantes neologismos conceituais como “multivíduo performático” e “desnativização” o autor de A cidade polifônica – Ensaios sobre a antropologia da comunicação urbana mostrou que as posturas e performances de corpo são objetos privilegiados das coleções museológicas do presente e propôs que o museólogo suspenda o conceito de nativo, à medida que traduz um olhar colonialista em relação ao outro. “O museu deve favorecer a multiplicação da subjetividade”, afirmou. Dentro desse contexto, é fundamental repensar sua função na sociedade. E para isso, Massimo defende que “a identidade da cultura não pode ser só das raízes”, lembrando a expressão “from roots to routes” (de raízes para rotas): “O museu contemporâneo precisa mudar, de raízes para itinerários. As raízes bloqueiam a cultura, enquanto que os itinerários favorecem as subjetividades”. A artista plástica brasileira Nele Azevedo, de acordo com o antropólogo, exemplifica essa ideia. Criadora de mil homenzinhos de gelo que foram colocados na escadaria da sala de concertos da Gendarmenmarkt, em Berlim, para uma campanha da WWF sobre o aquecimento global realizada em 2009, viu sua obra durar cerca de meia hora. “É interessante pensar na força de um tipo de arte que, descongelando, vira água. Acredito que uma parte do museu deve ser temporária, pois assim ele sempre se renova”.

A renovação dos espaços que abrigam a arte contribuiria para que os espectadores – ou os “performáticos”, que seriam os observadores que interagem mais ativamente com as obras – pudessem experimentar diante do outro, do estranho e do diferente o “estupor”, definido pelo dicionário português Priberam como “efeito, geralmente imobilizante, de grande espanto ou surpresa”. Massimo afirma que o som da palavra o agrada, preferindo relacioná-la ao espanto, mas acredita que essa significação ainda não seja a mais adequada. “A arte precisa modificar a identidade das pessoas. Não posso ser o mesmo depois de interagir com ela”. Mas para que essa transformação possa acontecer, é necessário que o performático se permita se entregar ao estupor. “É o posicionamento corporal em relação ao que é desconhecido e que desejo encontrar. É um momento antes da contemplação, e meu corpo precisa se abrir – boca, olhos, nariz, ouvidos – para absorver a obra de arte”.

A câmera dentro da câmera dentro da câmera

O professor mostrou fotos feitas dos chamados nativos, em que são retratados de maneira inferior aos colonizadores, podendo criar um tipo de deslocamento ou de invasão – “e se pensarmos na definição de ´nativo`, que ´provém de determinado lugar´, um índio seria nativo na Europa?” – defendendo seu direito à autorrepresentação e à desnativização. “Fui convidado pelos Bororos, no início dos anos 1990, a participar do ritual de furação de orelhas, que acontece a cada sete anos. Cheguei com câmeras, e me deparei com três deles gravando a atividade. Meu papel clássico, então, estava em crise; eles precisavam ser os sujeitos que davam sentido ao próprio ritual. Coloquei, nesse momento, minha câmera atrás das deles, enquadrando-as, para registrar o contexto”.

Além dessa multiplicidade cognitiva, que é potencializada também pela internet, Massimo já disse, em entrevista ao blog overmundo, que gosta de ”utilizar o artigo no singular, e o pronome no plural, isto é, o eus”. “O conceito de multivíduo, para mim”, continua, “é um conceito mais flexível, mais adequado à contemporaneidade. Por que significa que multivíduo é uma pessoa, um sujeito, que tem uma multidão de eus na própria subjetividade”. Esse eus também foi representado através de imagem que mostrava uma mulher se despindo da própria pele abrindo zíperes que tinha espalhados pelo corpo, revelando outras camadas epidérmicas. “Como o museu enfrenta o pós-humano, isto é, a arte digital? Que tipo de experiências podemos desenvolver? Quantas peles a gente tem? Há um número limitado? Quais as diferenças entre corpo e tecnologia?”, questiona.

Museu & cinema

Tahuany Coutinho, de 24 anos, é caloura de Museologia e assistiu à palestra. “Gosto da possibilidade de perceber o museu não simplesmente como um espaço onde as obras são expostas, mas sim como oportunidade de transformação através do contato com a arte”. A estudante conta que alguns professores do curso defendem o ponto de vista do antropólogo, e ressalta que o “museu não deve ser para alguém e sim com alguém”. Quase formada em Artes Cênicas, Tahuany veio de São Paulo com a intenção de se graduar em Cinema, mas acabou optando por Museologia por causa do viés antropológico do curso. No entanto, vê semelhanças entre os dois, quando pensa na importância do museu se valer de recursos, como os audiovisuais – como fazem os museus paulistas da Língua Portuguesa e do Futebol -, para envolver os performáticos.

Os projetos ´O Pensamento no Século XXI` e ´Museu em Curso` foram concentrados em torno dessa conferência para evidenciar os desafios das instituições museológicas hoje. Na continuidade do projeto Museu em Curso, a cada mês, será realizada uma palestra voltada para as diversas áreas da teoria e da prática museológica.

Mais informações: 48 3721-8604 ou 9325 ou ufsc.mu.museologia@gmail.com.

Por Cláudia Schaun Reis/Jornalista na Agecom e
Raquel Wandelli/Jornalista na SeCArte

Tags: antropologiacomunicaçãomuseologia

Massimo Canevacci abre série “Museu em Curso”

25/03/2011 15:32

O antropólogo italiano Massimo Canevacci abre, na terça-feira, 29, o primeiro evento do ciclo de debates  ´O Pensamento no Século XXI` e da série ´Museu em Curso` deste ano. A conferência “O Museu no Século XXI” ocorrerá das 16 às 18 horas, no auditório do Museu Universitário Professor Oswaldo Rodrigues Cabral, na UFSC, em parceria com a Secretaria de Cultura e Arte (SecArte), Pró-Reitoria de Pós-Graduação (PRPG) e Associação dos Amigos do Museu. Professor da Facultade Scienze della Comunicazione “La Sapienza”, de Roma, e professor visitante da UFSC, Canevacci abordará as possibilidades de apropriação das tecnologias digitais na representação da cultura urbana e na arquitetura contemporânea.

Referência internacional na área de comunicação museal, Canevacci atua desde 1984 no Brasil como pesquisador convidado para desenvolver pesquisas, conferências e cursos em universidades. Sua pesquisa, orientação didática e publicações se desenvolvem em torno da comunicação visual, arte digital, etnografia urbana e indígena, culturas da juventude, antropologia teórica e trocas entre antropologia e outras áreas do conhecimento. Atualmente coordena o projeto Carpe-Code, sobre metrópole comunicacional, design expandido, etnografia ubíqua e realidade aumentada.

Autor de A cidade polifônica, da Studio Nobel (1993), considerada uma obra fundamental para compreender a antropologia urbana através da mídia e da arquitetura, Canevacci dirigiu até 2001 a revista Avatar de etnografia, comunicação e arte visuais. Também publicou Comunicação Visual, pela Brasiliense, Fetichismos Visuais, da Ed. Atelier; Sincretismos, uma exploração das hibridações culturais, da Studio Nobel e Culturas Extremas, da DpA. Em processo de tradução no Brasil pela editora Annablume, escreveu La linea di polvere, publicado em Roma pela Meltemi (2007), como fruto de pesquisa que realizou sobre a cultura dos índios Bororo.

Os projetos ´O Ciclo Pensamento no Século XXI` e ´Museu em Curso` foram concentrados em torno dessa conferência para evidenciar os desafios das instituições museológicas hoje. “Vivemos um tempo em que as mídias e as identidades se multiplicam e modificam o espaço urbano, de modo que os registros de memória e de cultura precisam levar em conta processos de identidade cada vez mais sazonais e fragmentados”, lembra a secretária de Cultura e Arte Maria de Lourdes Borges. Na continuidade do projeto Museu em Curso, a cada mês, será realizada uma palestra voltada para as diversas áreas da teoria e da prática museológica.

Serviço:

O quê: Museu em curso, palestra com Massimo Canevacci
Quando: 29 de março, das 16h às 18h
Onde: Auditório do Museu Universitário da UFSC
Quanto: Entrada franca
Informações: 48 3721-8604 ou 9325
e-mail: ufsc.mu.museologia@gmail.com
Serão fornecidos certificados

Divisão de Museologia
Museu Universitário Professor Oswaldo Rodrigues Cabral – UFSC
Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima – Trindade – CEP 88.040-900 – Florianópolis – Santa Catarina – Brasil
Telefones: 48 3721-8604 / 6473 / 9325

Por Raquel Wandelli/  Jornalista na SeCarte
(048) 37219459 e 99110524
raquelwandelli@yahoo.com.br
raquelwandelli@ufsc.br

Foto: Overmundo

Tags: antropologiacomunicação visualetnografia urbana e indígena

Educação e identidade cultural dos pataxós é tema de exposição

18/03/2011 17:18

As fotos, feitas por Sonny Thoresen, estão vinculadas ao projeto de pesquisa “Índios no Sul da Bahia”, coordenado por Augusto Oliveira, doutorando no PPGAS da UFSC

Abre nesta segunda-feira, 21 de março, na Galeria da Ponte do CFH, a exposição fotográfica Ser pataxó: educação e identidade cultural, de Sonny Thoresen e Augusto Oliveira, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da UFSC. A exposição é resultado da dissertação de mestrado de Augusto Oliveira.

As fotos, feitas pelo fotógrafo sueco Sonny Thoresen, estão vinculadas  ao projeto de pesquisa “Índios no Sul da Bahia”, coordenado por Augusto. A Aldeia Indígena Nova Vida-Fazenda Bahiana,  localizada a cerca de 18 km da sede do município de Camamu, é fruto de uma dissidência, ou cissiparidade, ocorrida na Reserva Caramuru-Paraguaçu para sair da violência a que estavam submetidos os indígenas na região dos municípios baianos de Itaju do Colônia, Pau Brasil e Camacã.

O processo histórico vivenciado pelo povo Pataxó pós-criação da Reserva Caramuru-Paraguaçu efetivou-se com a fusão de diversas etnias (grupos Baenã, Borun, Kamakã-Mongoyó, Kiriri-Sapuyá, Pataxó e Tupinikim) e mesmo de miscigenação com elementos étnicos não-indígenas mesclados como um único povo. Sua trajetória histórica comum caracteriza-se por uma postura de resistência e de sobrevivência física e cultural, em face à sociedade dominante e ao extermínio imposto pelo conquistador através de processos genocidas e/ou da convivência forçada com instituições nacionais voltadas para promover a segurança do processo colonizador, e edificação da sociedade e do território brasileiros como um todo homogêneo ou, noutras palavras, voltados para a política da integração nacional.

A Reserva foi criada pelo Decreto número 4081 de 19 de setembro de 1925, e pela Lei número 1916 de 09 de agosto de 1926, que lhe assegurava 50 léguas quadradas para gozo dos índios, e que menciona como tendo direito às terras os Tupinambá e Pataxó ou outros ali habitantes, fossem  Macro-Jê ou Tupi, compreendendo  o primeiro as etnias Baenã, Borun, Kamakã-Mongoyó, Kiriri-Sapuyá e Pataxó, e o segundo, a etnia Tupinikim. Cabe salientar que acreditava-se na possibilidade de haver outros grupos indígenas arredios ainda não conhecidos.

A exposição Ser pataxó: educação e identidade cultural é promovida pelo Núcleo de Antropologia Visual e Estudos da Imagem (Navi) e pelo PPGAS.

A Galeria da Ponte, localizada no segundo andar do prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), é um espaço destinado a exposições fotográficas provenientes do trabalho de campo de pesquisadores.

Serviço:
Exposição fotográfica Ser pataxó: educação e identidade cultural
Local: Galeria da Ponte – CFH/UFSC
Visitação: de 21 de março a 22 de abril
Mais informações: Augusto Oliveira: augustofagundeso@yahoo.com.br

Tags: antropologiaíndios
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