Laboratório de Neurometria e Biofeedback da UFSC oferece serviço gratuito para tratamento de estresse

17/06/2016 13:20

Um tratamento para abrandar ou suprimir sintomas de ansiedade, ataques de pânico, depressão, estresse pós-traumático, entre outros. Esse é o objetivo do projeto de extensão “Auxílio no tratamento do estresse por meio do biofeedback” desenvolvido pelo Laboratório de Neurometria e Biofeedback (Lanebi) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), vinculado ao Departamento de Ciências Fisiológicas (CFS) do Centro de Ciências Biológicas (CCB). O serviço é ofertado a estudantes, servidores e à comunidade externa.

© Pipo Quint / Agecom / UFSC

Foto: Jair Quint/Agecom/UFSC

“O emocional do indivíduo acaba se expressando organicamente – na tensão muscular, nas expressões faciais, nos vasos sanguíneos que se contraem ou se dilatam, nos batimentos cardíacos e no sistema nervoso. O que a gente faz é registrar esses parâmetros para modular determinada atividade por meio de um treinamento”, explica o coordenador do Lanebi, professor Odival Cezar Gasparotto.

O biofeedback, técnica de autocontrole, apresenta algumas vantagens elencadas pelo coordenador: não é uma intervenção farmacológica e, portanto, não há contraindicação – só precisa ser bem aplicada; apresenta efeito a longo prazo e não apenas no período de sua aplicação; não é uma técnica invasiva. “Todo mundo pode ter benefícios, mesmo quem não tem queixas”, informa. A média de custo de mercado de uma sessão de biofeedback se equivale a de uma sessão de psicoterapia. O tratamento ofertado na Universidade é gratuito.

Etapas do tratamento com biofeedback

Inicialmente, é feita uma avaliação do participante, com o intuito de obter informações relevantes para o tratamento, e há o preenchimento de formulários. Na sequência, ele realiza um eletroencefalograma (EEG) – exame que registra a atividade cerebral simultaneamente por meio de 20 eletrodos distribuídos no escalpo. “O nosso foco maior é na atividade cerebral, mas também temos condições para medir a função cardíaca e a condutância da pele – quando um indivíduo leva um susto ou está tenso, o sal do suor conduz eletricidade ao mesmo tempo em que a mão gela porque os vasos sanguíneos contraem. Essas e a atividade cerebral podem ser avaliadas e modificadas”, esclarece Gasparotto.

Após o exame, os dados passam por um tratamento matemático. “Antes da era digital, o que se obtinha era um traçado – representação​ gráfica – da atividade elétrica cerebral. Hoje ainda fazemos isso, mas muito mais, com os tratamentos matemáticos dos registros que denominamos análise quantitativa da EEG”, complementa. A partir dos valores numéricos, a equipe – composta pelo coordenador e pelo mestrando do Programa de Pós-Graduação em Neurociências (PGN), Matheus Mangini Bertuzzo  elabora gráficos e mapas das atividades cerebrais. O tratamento investiga o funcionamento das variações de potenciais bioelétricos nos neurônios. “Um neurônio se comunica com outro neurônio produzindo uma variação na sua carga elétrica. São centenas, milhares de neurônios executando essa mesma atividade. Essa variação é medida através da eletroencefalografia”, afirma o coordenador do Lanebi.

De acordo com Gasparotto, é possível identificar padrões. Uma pessoa ansiosa, por exemplo, pode apresentar excesso de atividade em uma determinada região do cérebro ou uma assimetria em relação a outra região. Na sequência, após identificado o padrão do indivíduo, é feita a comparação com uma normativa de um grupo de indivíduos hígidos –  saudáveis e sem nenhuma queixa , e é dado início ao treinamento. Os protocolos, utilizados duas vezes na semana por cerca de 1h30, são planejados a partir da avaliação do sujeito com tratamento específico e personalizado. O número de sessões varia de acordo com cada indivíduo. “Aquilo que é um desvio muito grande em relação à população normal, tentamos aproximar de valores associados ao bem-estar. Além da parte fisiológica, ouvimos bastante as pessoas, pois precisamos entender as suas aflições, mas não fazemos psicoterapia”, pontua.

ps 2Durante o treinamento, são conectados, no máximo, quatro eletrodos no couro cabeludo para mensuração de atividades específicas do cérebro do participante, que podem ser visualizadas simultaneamente por ele na tela de um computador posicionado a sua frente. O indivíduo aprende aos poucos, consciente ou inconscientemente, a controlar as atividades que estão sendo registradas pelos eletrodos e apresentadas na tela por meio de um processo que envolve interação homem-máquina.

Com retorno – daí o termo feedback – visual ou auditivo, como fazer um carrinho ir para frente ou continuar a ouvir uma música, o participante estará condicionado à modificação das funções orgânicas em treinamento. “O indivíduo aprende a modificar essas funções e a orientá-las para níveis mais harmoniosos; adquire ou recupera o bem-estar e a saúde. Em última instância, a pessoa aprende a se autorregular”, explica o coordenador do Lanebi. “Com a repetição, o cérebro começa a trabalhar mais ou menos um circuito cerebral, com a recompensa de ouvir um som ou evoluir em um jogo ou nas cenas de um filme, por exemplo, à medida que atinge o estado que se busca. O filme ou a música trava ou apaga se ele não avança”, afirma.

Dessa maneira, o indivíduo adota um novo padrão fisiológico como consequência de alterações morfológicas nos circuitos cerebrais, que incluem a formação de novas sinapses ou conexões entre os neurônios. “O organismo reconhece o que é mais saudável e tenta manter este novo padrão. Temos tido bons resultados. É muito frequente, até no início do tratamento, pessoas darem retorno de mudanças. Há casos em que as pessoas obtiveram melhora no quadro de insônia já na primeira sessão. As pessoas conseguem atingir uma qualidade de vida melhor”, afirma Gasparotto.

A neurometria é a base de um neurofeedback – modalidades de biofeedback  e pode ser utilizada, também, para melhorar o desempenho cognitivo, a memória, a atenção, a expressão corporal na dança ou a expressão musical. O biofeedback é indicado para melhora de desempenho e de atividade profissional. Nos Estados Unidos, é uma prática difundida. “Lá, algumas escolas têm programas para melhorar o deficit de atenção dos alunos e o governo tem programas para aplicar nos seus soldados. Nos últimos anos, foram investidas quantidades milionárias em projetos. Estamos nos empenhando para desenvolver a técnica em Santa Catarina. Aplicabilidade para os projetos nós temos bastante, mas falta financiamento”, lamenta o professor. Atletas, atiradores de elite, lutadores karatê e executivos são alguns grupos que costumam fazer uso da técnica. De acordo com Gasparotto, há registro de contribuições do biofeedback também para os sintomas de insônia, autismo – no desempenho e na socialização -, foco ou atenção, cognição, epilepsia, agitação motora e recuperação de sequelas de traumas ou isquemias cerebrais.

As atividades do Lanebi no campo de neurofeedback tiveram início em 2010. Biomédico e fisiologista, Gasparotto possui uma trajetória nas áreas de orientação animal, eletrofisiologia em animais, estresse e eletroencefalografia em humanos. “Não posso afirmar com precisão, mas creio que a técnica do biofeedback não deve ter mais do que 10 anos no Brasil​​. No exterior, ela teve início na década de 60 e também demorou para ‘decolar’”, informa.

Avaliação da EEG sem biofeedback

É possível fazer uma avaliação da EEG sem o biofeedback, como participante voluntário para projetos de pesquisa. “​Estamos terminando um projeto de pesquisa para a caracterização de ondas alfa em condições de repouso, onde discriminamos a contribuição ​​da condição dos olhos –  abertos ou fechados – e da luminosidade para o padrão cerebral. Alfa é a faixa de onda – entre 8 e 12 ciclos por segundo – que predomina no indivíduo em repouso e com os olhos fechados. A abordagem é em ciência básica, mas de interesse também para a clínica”, destaca o coordenador. A participação é de cerca de 2h30. “Os voluntários hígidos, ou sem sintomas, estarão colaborando para a ciência e para que o biofeedback se torne mais eficiente”, finaliza Gasparotto.

Os interessados em contribuir com a pesquisa ou em fazer o biofeedback devem entrar em contato com a equipe pelo e-mail ou pela página http://lefc.paginas.ufsc.br/.

Bruna Bertoldi Gonçalves / Jornalista / Agência de Comunicação / UFSC /