Escritora portuguesa finaliza temporada na UFSC com lançamento de livro

Ana Luísa Amaral durante o lançamento do livro “Ara”, na última segunda-feira, dia 30. (Foto: Herique Almeida/Agecom/UFSC)
Ana Luísa Amaral esteve na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) por 21 dias durante o mês de maio. Segundo ela mesmo define, um período “nevrálgico” para o Brasil, no qual o país assistiu à votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff no Senado e o seu afastamento. Além disso, mobilizações por todo o Brasil contra o machismo após a divulgação de um caso de uma adolescente de 16 anos no Rio de Janeiro que sofreu estupro coletivo. Foi nesse cenário que a escritora, pesquisadora e tradutora portuguesa, premiada internacionalmente e referência na área de estudos feministas e de gênero, visitou a UFSC.
Ana Luísa veio ao Brasil lançar seu romance “Ara”, publicado em Portugal desde 2013 e já premiado. Em sua temporada na UFSC, ministrou uma aula aberta sobre linguagem e estudos de gênero, um minicurso, uma palestra na biblioteca itinerante Barca dos Livros, e um evento de lançamento de seu livro. Em todas as ocasiões, houve grande público, e Ana Luísa foi rodeada de acadêmicos, pesquisadores, leitores e curiosos.
Muitos a perguntavam sobre o que achava do cenário político e social no Brasil. Em seus diálogos, Ana Luísa falou de feminismo, de impunidade e de política com a mesma poesia que aborda o amor, as diferenças e as linguagens em seus livros. No Brasil ela tem publicados os livros: “Vozes”, “Escuro”, “A Gênese do Amor”, e agora “Ara”. É autora de mais de 20 livros, de diversos gêneros, como poesia, livros infantis, traduções, entre outros. Os seus livros estão editados em vários países como França, Suécia, Holanda, Venezuela, Itália, Colômbia, México e Alemanha. Professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Ana Luísa integra a direção do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e coordena o Grupo Intersexualidades.
A visita de Ana Luísa Amaral à UFSC foi possibilitada por meio do Núcleo Literatual de pesquisa em literatura do Centro de Comunicação e Expressão (CCE), em parceria com o Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Na última segunda-feira, dia 30, ela conversou com a Agência de Comunicação da UFSC sobre a sua visita, o cenário político brasileiro e sua obra.

Ana Luísa fala sobre “Linguagem e Estudos de Gênero: silêncios, invisibilidades e estereótipos”, durante aula aberta no CCE. (Foto: Ítalo Padilha/Agecom/UFSC)
Agecom – Você chegou ao Brasil no dia 9 de maio, em meio a um momento complicado para o nosso país.
Sim, cheguei ao Brasil em um momento nevrálgico, até para a UFSC. Creio que foi um dia depois que houve a mudança de reitoria, e quando cheguei, vi um cartaz dizendo “Tchau, Queridas!”. Eu devo dizer que acho de uma imensa falta de gosto, e uma enorme arrogância, o que eu chamaria jactância, que é uma palavra antiga. É saber da própria impunidade, que é algo que me assusta.
Me parece é que, normalmente, quem tem esse tipo de atitude, não tem consideração pelos outros. E não terão pelo meio ambiente, muito menos pelas mulheres, pelos gays, pelos transexuais.
Quem é que tem medo disso? Por que é que isso faz medo? Por que é que faz medo a interrupção voluntária de uma gravidez por uma mulher que já tem vários filhos? Ou mesmo uma jovem que engravida? Por que é que faz medo uma pessoa gay? Um transexual? Porque isso interrompe a ordem social.
De alguma maneira, interrompe uma ideia de ordem social ao qual o próprio poder econômico está ligado. Por isso é que eu digo que está tudo interligado. As indústrias financeiras, as corrupções, os desvios de dinheiro, as imensas desigualdades que tem no Brasil.
Tens um país tão rico, tão bonito. Eu conheço Manaus, Brasília, Bahia, Rio Grande do Sul… o pouco que eu conheço do Brasil já é muito! O Brasil é tão belo, e eu sinto tanta identificação. Até porque nós partilhamos uma língua. E uma língua é uma identidade, uma língua constrói pontes.
O caso do estupro coletivo da adolescente no Rio de Janeiro acordou nas pessoas uma inquietude, uma revolta contra a cultura do estupro. Já houve manifestações e há mais planejadas. Como você acredita que essa cultura de violência contra a mulher se traduz nas agressões políticas e sociais?
Eu quero participar dessas manifestações! Vou querer ir para o meio da rua gritar com elas! O que aconteceu com aquela jovem, já ouvi pessoas dizerem que foi porque é mãe solteira. E isso? Ela até podia estar nua no meio da rua. Podia tê-los provocado, ter querido beijar a todos e depois dizer “chega, não quero mais”. Pronto! A partir do momento que ela diz “não quero”, não quer! Então é colocar esses homens na categoria de bestas desenfreadas, coitadinhos que não conseguem se controlar. E é mentira! Qualquer ser humano se consegue controlar. A ideia de que a vítima acaba de se tornar culpada é terrível.
Quando um deputado, um político que está numa posição de representante do povo, investida de um determinado poder enquanto representante do povo diz que uma mulher nem merece ser estuprada, isso valida tudo. E é um homem que teve acesso a todos os privilégios na vida, e não lhe acontece nada, e continua a falar, é seguido e admirado, o querem para presidente. Quando isso acontece o que é que podemos esperar de uma pessoa que não teve acesso à educação, que ouve continuamente canções em que a mulher é diminuída, os próprios filmes, a televisão. É uma espécie de programação e é muito difícil fugir a essa programação.
E como lutar contra isso?
Em primeiro lugar, deve-se lutar pelo meio jurídico, pelas leis. Precisa-se de leis que punam de fato, que não permitam que um advogado, juiz ou quem quer que seja coloque a culpa na vítima.
Em segundo lugar, legislar de uma maneira muito efetiva contra o poder que têm as igrejas e seitas. As igrejas são ricas, não pagam impostos e legisla-se de acordo com o que elas dizem.
Em terceiro lugar, educar, pois a sala de aula transforma! Eu sei porque vejo acontecer sempre nas aulas de estudos feministas na graduação e pós-graduação os alunos e as alunas mudam, pensam diferente. E o que acontece é que a maioria desses estudantes vão trabalhar no ensino básico, fundamental e médio. E vão levar consigo esses ensinamentos.
A quarta medida é sensibilizar, não deixar, nem que seja com manifestações, com denúncias, não deixar que sejam passadas leis nas quais a palavra gênero não esteja. Há que se dizer aos homens: “isto pode ser sua namorada, pode ser sua filha”! O feminismo, para mim não é dizer “as mulheres são mais competentes que os homens”, “as mulheres são melhores que os homens”, “mulheres ao poder”. Não é nada disso! É uma questão de direitos humanos, em suas várias frentes – tem a ver com mulheres, com crianças, com respeito a todos aqueles e aquelas que se sentem discriminadas.
Vamos falar um pouco sobre a sua obra. O que é seu novo livro “Ara”, seu primeiro romance?
São vozes, narrativas, capítulos, que se vão interligando e construindo uma história que tem vários nós, vários laços que evoluem de um “eu” para um “nós”, de comunidade. É um romance sobre o amor, e sobre a linguagem, e sobre o poder e a política também. Embora nunca esteja ali a palavra política, mas veja você:
“Vergonha: a fome nas crianças, a fome desenhada, omnipresente. Crianças que nem pão, ou gesto, ou um olhar qualquer. Vergonha de haver fome. De olhar fome. Vergonha: só o ver, como estas coisas. A violência de ver, sem mãos para mudar. Essa, a vergonha.”
É política porque é uma denúncia, vergonha é isso. Vergonha é consentir. E quando se diz consentimento tem sentido positivo e negativo. Quando se diz, ela não foi estuprada porque deu seu consentimento, é um sentido positivo da palavra. Mas consentir também é calar-se diante de um problema. Vergonha é deixar acontecer, e isso é um ato ético, político e linguístico.
É um romance que não segue uma linha cronológica. Agora, há 3 anos que foi lançado em Portugal, vejo que esse romance se debruça sobre a língua. A língua pode ser um espaço de resistência mas também pode ser um espaço de invasão. Veja só:
“No que aprendi, tu não cabias. Nunca coubemos no que me ensinaram.Nunca me deram matéria verbal para falar de nós – por isso me confundo e falo do que sei há tantos anos. Desejando inventar palavras novas, formas novas, ao menos, de as juntar. Do amor que não é no centro desse círculo, o que eu posso dizer?”
É também uma utopia, porque é esta a língua que eu tenho. Eu tenho o português, de Portugal e vocês o brasileiro. Meu livro está em português de Portugal, com exceção de duas palavras! As únicas duas traduções de uma variante do português para outra variante. Eu escrevo em português e é essa a única língua que eu tenho.
Eu tenho sempre uma pequenina relação com o real de minha língua – é uma utopia, é também uma tentativa de construção de uma nova língua, sabendo que língua é um instrumento político também e que a palavra é ao mesmo tempo letal e redentora.
O que você achou dessa visita à UFSC?
Foi maravilhosa, adorei. Fiz imensas coisas aqui, muito mais do que o que estava inicialmente programado. Tive a oportunidade de contactar aquele que eu acredito ser o centro mais importante do Brasil em termos de estudos feministas, o Instituto de Estudos de Gênero (IEG). Eu trabalhei diversas frentes nesta visita: falei de poesia, de poéticas comparada; falei de estudos feministas; falei de estudos de tradução, que eu também traduzo poesia.
E ainda por cima vi essa incrível paisagem! Eu tenho andado ao redor desta ilha, e está lindíssima, é muito parecida com os Açores. Não me admira que os açorianos tenham gostado tanto daqui!
Mayra Cajueiro Warren
Jornalista da Agecom/UFSC
mayra.cajueiro@ufsc.br