Qualidade na comunicação científica é tema de palestra na Biblioteca da UFSC

20/02/2014 11:04

Professor Piotr Trzesniak falou sobre os desafios para editores de publicações científicas. Foto: Jair Filipe Quint / Diretoria-Geral de Comunicação / UFSC

Editores de revistas científicas, professores e estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina reuniram-se no auditório da Biblioteca Central na última terça-feira, 18 de fevereiro, para conhecer as experiências e relatos do professor Piotr Trzesniak, da Universidade Federal de Itajubá, que há vários anos atua na área de comunicação científica. Além de editor há mais de 30 anos, o professor Piotr faz parte do comitê científico da Rede de Revistas Científicas da América Latina e Caribe, Espanha e Portugal (RedALyC), e já participou de comitês do CNPq, Capes e SciELO, entre outras entidades.  O evento foi promovido pelo Portal de Periódicos da UFSC.

Sua palestra abordou a profissionalização, internacionalização e sustentabilidade financeira das publicações científicas. E destacou o que considera o maior desafio para os editores: oferecer o melhor conhecimento que está sendo produzido na sua área.

Para Piotr, o caminho para a qualidade passa pela responsabilidade dos editores em publicar apenas os artigos que tenham bons pareceres dos revisores. Depois de submetido a uma revista, um artigo passa pelo menos por um editor e dois pareceristas, na chamada revisão pelos pares. “Um bom parecer deve ser construtivo, deve ajudar a pesquisa a se completar”, explica o professor Piotr. “A revista deve ter um um corpo científico que atue de fato”, completa.

Para os editores que buscam internacionalizar suas publicações, Piotr alerta que as parcerias com revistas do hemisfério norte têm se mostrado bastante ineficientes. “Em 35 anos vi isso acontecer com sucesso apenas uma vez”, afirma. Na sua opinião, as revistas devem ter como grande missão estabelecer iniciativas Sul-Sul. ”O acesso livre ofereceu ferramentas para que as revistas do Sul pudessem crescer, ganhar força e assim competir com as do hemisfério norte”, explica.

Piotr defende uma saída para internacionalização por meio de parceria de instituições de diferentes países. “As revistas devem se esforçar para superar o feudo, associar-se a outras da mesma área e trabalhar em parceria”, defende. Alternativas para promover a visibilidade externa seriam  investir na indexação, usar as mídias sociais como canais de divulgação, além de estabelecer parcerias com acadêmicos do exterior, tanto para angariar artigos internacionais quanto para divulgar a revista.

A sustentabilidade financeira também é o desafio de muitas revistas. As soluções, segundo o professor Piotr, podem estar na doação espontânea, na retaguarda institucional múltipla, em parcerias com universidade e sociedades científicas. Ele defende também a cobrança de tarifa de publicação, a ser paga pelos autores. “Para o autor não significa pagar para publicar e sim para ter acesso a todos os outros artigos que estão na revista”. O professor reforça a necessidade de consolidar o movimento de acesso aberto.

Qualidade do conteúdo

Para Piotr, o conhecimento de uma área não pode avançar apenas com os fast articles, que ele chama de ‘hambúrgueres’ do conhecimento. “Precisamos da ciência lenta também”. Foto: Jair Filipe Quint / Diretoria-Geral de Comunicação / UFSC

Tema para o qual o professor Piotr tem dedicado atenção, a qualidade do conteúdo é o grande desafio para os editores de revistas científicas. “É a publicação de artigos de qualidade que faz a área avançar”. Para o professor, os editores devem ficar atentos aos grandes exterminadores do conhecimento, como por exemplo desprezar a qualidade na hora de avaliar e focar apenas em números, como a quantidade de artigos publicados. “Focar em número e não olhar a qualidade é um grande erro. Ele é responsável por mais de 99,999% dos fast articles, os hambúrgueres do conhecimento”, explica. “Não é antiético, mas mata o conhecimento, pois nenhuma área vai sobreviver só com hambúrguer, tem que ter ciência lenta também”.

Piotr citou também as práticas antiéticas da área: os ‘frankenscritos”, que são a junção de fragmentos de artigos já publicados; os esquartejados (salames), que são as pesquisas das quais o autor consegue ‘arrancar’ vários artigos de igual natureza, quando na realidade renderia apenas um artigo; os aventureiros, que escrevem qualquer coisa sem fundamento; e os que estão organizados na aparência mas não são bons ou têm resultados de pesquisa manipulados. “Ao final, a responsabilidade pela qualidade é do editor, e reflete as escolhas dele em relação aos pareceristas e à forma de tramitar os artigos. A responsabilidade do editor não é agradar o autor e sim publicar o conteúdo de melhor qualidade”.

Piotr falou também sobre os chamados artigos “monstros”, os que apenas têm metodologia, mas não tem epistemologia ou terminologia. “Epistemologia é perguntar se o artigo agrega um conhecimento novo e promove um efetivo avanço. Assim como a terminologia, é o que faz o conhecimento avançar”. No campo da epistemologia, Piotr citou os autores Taketani/Osada, que desenvolveram um estudo que permite descobrir como fazer as pesquisas certas, para maximizar o avanço do conhecimento em relação ao esforço investido. Concluiu sua palestra com uma breve apresentação sobre a taxionomia, criada por ele e pelos professores colombianos Tatiana Plata-Caviedes e Oscar Alejandro Córdoba-Salgado, que ajuda os editores a avaliar e analisar projetos de pesquisa, artigos e pareceres científicos.

Novos modelos

Quando questionado sobre iniciativas como o da revista Plos One, cujo processo enfoca apenas a análise da metodologia da pesquisa, deixando que a parte epistemológica seja avaliada pelos próprios usuários, Piotr considera-se cético em relação ao modelo. “É atribuir o ônus ao leitor, que deverá avaliar se o artigo tem algo a acrescentar. Neste momento ainda acredito que a comunidade fica mais bem servida com a revisão pelos pares, que fazem um papel importante em avaliar se aquele trabalho é relevante, se não é repetido. Mesmo assim acho que novos modelos devem ser experimentados”.

Sobre o uso de revistas científicas para aumentar a visibilidade de universidades, Piotr diz que é uma forma superada e limitada de chegar a esse fim. Para ele, um caminho interessante para as instituições seria investir em repositórios de artigos. “Não nesses repositórios de tudo, que viram ‘depositórios’ e ninguém sabe o que tem lá dentro. Mas tornar disponíveis os artigos que já foram publicados em revistas científicas, de forma a ampliar o acesso aberto”. É o que vem sendo feito pela Universidade do Minho, pela Universidade de Brasília e pela Universidade de São Paulo.

Ao final da palestra, Piotr compartilhou suas ideias para o futuro da comunicação científica e os novos formatos para o artigo. “Se um livro pode ter várias versões, por que não um artigo? Meu sonho é que o artigo possa ter links para versões em diversos idiomas e para todas as versões daquele artigo, que foram modificadas conforme ele foi sendo estudado, criticado e reconstruído.”

Veja também:

Qualidade de Conteúdo, o Grande Desafio para os Editores Científicos

- RepositóriUM: Repositório Institucional da Universidade do Minho

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Laura Tuyama / Jornalista da Agecom / UFSC

Fotos: Jair Filipe Quint / Diretoria-Geral de Comunicação / UFSC