Pesquisa internacional com participação da UFSC revela possíveis pares de planetas ‘errantes’ na Via Láctea
Um estudo publicado na semana passada na revista Astronomy & Astrophysics com a participação do professor Roberto K. Saito, do Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), traz novos avanços na compreensão de uma das populações mais misteriosas da nossa galáxia: os chamados planetas errantes.
Utilizando o telescópio VISTA, do Observatório Europeu do Sul (ESO), uma equipe internacional de astrônomos identificou 17 pares de candidatos a planetas livres – objetos que não orbitam nenhuma estrela – em uma associação estelar jovem próxima. Entre eles, foram encontrados vários sistemas candidatos formados por pares de planetas que parecem viajar juntos pelo espaço.
Diferentemente dos milhares de exoplanetas já conhecidos, que orbitam estrelas distantes, os chamados free-floating planets (FFPs) – ou planetas errantes – vagam de forma independente pela Via Láctea. Embora se acredite que sejam numerosos, esses objetos ainda são pouco conhecidos. Questões fundamentais permanecem em aberto: quantos existem? Como se formam? Surgem como estrelas ou são ejetados de sistemas planetários jovens? E, especialmente, com que frequência aparecem em pares?
Para investigar essas perguntas, os pesquisadores mapearam o plano sul da Via Láctea utilizando os levantamentos VVV (VISTA Variables in the Via Lactea) e sua extensão VVVX. Com isso, identificaram candidatos a planetas errantes na associação estelar Lower Centaurus Crux (LCC), localizada entre 150 e 650 anos-luz de distância do Sol e com cerca de 20 milhões de anos. Entre esses objetos, foram encontrados 17 sistemas candidatos binários — pares de objetos com massa comparável à de planetas gigantes que parecem se mover juntos pelo espaço.
A descoberta foi possível graças à combinação de imagens em infravermelho com medições precisas de movimento obtidas pela missão Gaia. A observação em infravermelho permite atravessar a poeira que obscurece grande parte da Via Láctea. Nas condições da LCC, os dados são sensíveis o suficiente para detectar objetos com massas semelhantes às de planetas gigantes. As imagens de alta qualidade do VISTA permitem distinguir claramente os pares candidatos, sugerindo que sistemas ainda mais compactos podem existir e serem identificados em estudos futuros.
Mundos promissores
Parte do fascínio desse estudo está na natureza incomum desses objetos. Não há equivalentes diretos no Sistema Solar. Eles não podem ser vistos a olho nu como estrelas ou galáxias e, diferentemente dos planetas tradicionais, não orbitam uma estrela. São, literalmente, mundos à deriva.
Os resultados também abrem uma nova fronteira de pesquisa. O levantamento VVV/VVVX demonstra seu potencial para ampliar significativamente o número de planetas errantes conhecidos, revelando uma população da galáxia até então pouco explorada.
Cientistas não descartam a possibilidade de que alguns desses planetas possam apresentar condições favoráveis à habitabilidade. Caso experimentem aquecimento por forças de maré – um processo já observado em luas de planetas gigantes no Sistema Solar – esses objetos poderiam manter calor interno mesmo sem uma estrela próxima. Isso ampliaria significativamente as possibilidades de ambientes habitáveis na Via Láctea.
Próximos passos
Já estão planejadas novas observações. Estudos espectroscópicos com o instrumento KMOS, instalado no Very Large Telescope (VLT), devem ocorrer no âmbito do levantamento VVVX-GalCen, com início previsto para 2026. Essas análises permitirão refinar as propriedades físicas dos objetos identificados.
No futuro, instalações como o ALMA, o Extremely Large Telescope (ELT) e o Wide Survey Telescope (WST) poderão investigar esses planetas com ainda mais detalhes, incluindo suas atmosferas e possíveis fenômenos como auroras.
Embora os objetos tenham sido identificados há cerca de três anos, a equipe dedicou esse período à verificação cuidadosa dos dados antes da divulgação dos resultados. O estudo destaca não apenas o impacto duradouro dos levantamentos públicos do ESO, mas também a existência de uma vasta população de mundos ainda pouco conhecida.
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