Urina sem antibióticos como alternativa para fertilizantes

08/12/2014 10:30

Pesquisa realizada por Raquel Cardoso de Souza, integrante do Grupo de Estudos em Saneamento Descentralizado (Gesad) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mostrou que é possível retirar mais de 70% dos antibióticos presentes na urina. Esses compostos, quando entram em contato com o solo, podem causar resistência microbiana, ou seja, a seleção das bactérias mais resistentes, que se tornarão difíceis de serem eliminadas. Por isso, o estudo “Avaliação da remoção de amoxicilina e cefalexina da urina humana por oxidação avançada (H2O2/UV) com vistas ao saneamento ecológico” analisou a retirada dos antibióticos para que a urina fosse utilizada como fertilizante. O grupo começou a estudar a urina porque já vinha desenvolvendo pesquisas envolvendo o saneamento sustentável, uma prática que utiliza excretas humanas no solo. Esse tipo de saneamento se baseia no banheiro seco, que separa fezes e urina para que sejam reutilizadas, e não usa água para o transporte de excrementos. Coletar a urina e utilizá-la como fertilizante traria benefícios como a diminuição do consumo de água, redução dos gastos com energia e tratamento de esgoto, além de ser uma alternativa de fertilizante mais barata.

A pesquisadora aplicou o método H2O2/UV, um tipo de processo oxidativo avançado (POA). A luz ultravioleta (UV) é responsável pela quebra das moléculas da água oxigenada (H2O2), formando espécies de oxigênio (EROs) que reagem com os antibióticos. Duas amostras de urina foram analisadas – uma fresca e outra armazenada – e submetidas a esse método com diferentes concentrações de H2O2 durante 60 minutos, o que serviu para a retirada dos antibióticos amoxicilina (AMX) – um tipo de penicilina – e cefalexina (CFX), utilizados no tratamento de bactérias comuns. A melhor eficiência ocorreu com a H2O2 na concentração 928 mg/l. A AMX foi removida 77,97% na urina armazenada e 45,53% na fresca; já a CFX teve índices de remoção de 75,49% e 78,46% respectivamente nos tipos de urina armazenada e fresca. As diferenças entre os dois tipos de urina decorrem do pH (potencial de hidrogênio, que mede o índice de acidez): a armazenada apresenta pH mais alto (menor acidez); por isso, em geral, tem melhor rendimento.

O estudo também analisou o uso somente da luz UV no processo. Raquel afirma que “os resultados não são tão bons quando comparados com os primeiros. A associação de H2O2 com luz UV mostrou eficiência de remoção 10 vezes maior do que só com luz UV.” Ainda foi analisado o método H2O2/UV em soluções aquosas – o resultado teve altos índices de remoção, chegando a serem retirados até 99,51% de CFX.

Uma equação para obter 100% de eficiência na eliminação de antibióticos foi elaborada, assim como as concentrações ideais de água oxigenada para isso. Uma eficiência melhor do que a obtida na pesquisa poderia ocorrer se fossem utilizados outros métodos, como o foto-Fenton e o TiO2, mas, em ambos os casos, seria gerado um resíduo que precisaria ser eliminado. No uso da H2O2, isso não ocorre. Outra alternativa seria usar ozônio (03 ) com luz UV, mas o Gesad não possuía equipamentos disponíveis para realizar esse procedimento.

As dúvidas a respeito do reuso da urina para fertilizantes seriam a presença de medicamentos e suas consequências, e se o H2O2 removeria os nutrientes. Na pesquisa, só foram analisados a bactéria Escherichia coli, que não foi detectada depois do processo, e os antibióticos; então, de acordo com a pesquisadora, seria preciso mais estudos para verificar se a presença de medicamentos iria afetar as plantações. A respeito dos nutrientes, o estudo comprovou que eles continuam inalterados durante todo o processo.

A pesquisa de Raquel Cardoso não foi a única a abordar o saneamento sustentável: Alexandra Demenighi, mestranda em Engenharia Civil pela UFSC, desenvolveu em 2012 um projeto para a implantação de banheiros secos. Ela diz que ainda há resistência ao uso do equipamento, porque as pessoas consideram uma “volta ao passado” utilizar um sistema sem água para transporte dos resíduos; no entanto, ressalta que é uma opção melhor do ponto de vista ecológico.

Tamy Dassoler e Ana Carolina Prieto/Estagiárias de Jornalismo/DGC/UFSC

Claudio Borrelli/Revisor de Textos da Agecom/DGC/UFSC