Sistema desenvolvido em pesquisa da UFSC pode contribuir com redução de lesões em pacientes acamados

12/04/2021 13:45

Um sistema baseado na Internet das Coisas, inteiramente projetado e construído em uma pesquisa de mestrado, pode contribuir com os cuidados de pacientes acamados e ajudar a evitar a lesão por pressão, um problema comum e grave que afeta os enfermos. O trabalho Sistema para prevenção de lesão por pressão em pacientes acamados e sem mobilidade baseado na internet das coisas da saúde foi defendido pelo pesquisador Jamil Yahuza Felippe no Programa de Pós-Graduação de Mestrado Profissional em Informática em Saúde da UFSC. Ele utiliza a metodologia Design Science Research Methodology para propor um dispositivo e um software capazes de identificar e registrar rotinas de mudança de posição do paciente realizada pela equipe do hospital. A pesquisa tem orientação da professora Sayonara de Fátima Faria Barbosa.

Acervo do pesquisador

As lesões por pressão, segundo o pesquisador, atingem diretamente a qualidade de vida dos pacientes, gerando reinternações, dor, desconforto, doenças oportunistas e até mesmo a morte. Jamil convivia com casos assim atuando como servidor da Saúde Pública em Santa Catarina desde 1994. No estudo, ao analisar o problema com mais profundidade e consultar protocolos, registrou que elas podem ser ocasionadas pela frequência e rotina da execução da mudança de posição do paciente.

No Brasil, por exemplo, segundo dados trazidos pela pesquisa, entre 2014 e 2017 houve mais de 23 mil casos notificados destas lesões. “Minha vontade era fazer a diferença diretamente na vida dos pacientes”, aponta Jamil. “O curso expandiu meus horizontes para um universo de possibilidades. O volume de benefícios que a informática em saúde gerará para os pacientes é infinita”.

O pesquisador utilizou uma metodologia que consiste em seis etapas, das quais ele desenvolveu cinco: identificação e motivação do problema; definição dos objetivos de uma solução; design e desenvolvimento do artefato; demonstração do uso e avaliação. Uma vez definido o problema, a busca da solução passou pela utilização de um dispositivo do tamanho de uma moeda de cinco centavos.

A inovação projetada por Jamil é composta por um Beacon, que se comunica com um smartphone, e, através do acelerômetro de três eixos integrado ao Beacon, comunica-se ao aplicativo por meio do sistema Android, composto por uma arquitetura de softwares baseada em Linux. A conexão ocorre via Bluetooth, o armazenamento dos dados utiliza-se do banco de dados SQLite, sendo desenvolvido através do AndroidStudio.

“Esta pesquisa é focada em hospitais inteligentes, atendimentos inteligentes e E-HealthCare, que em países desenvolvidos já são uma realidade. Ela está ligada à automatização do registro e responsabilização de práticas, que atualmente são de responsabilidade do profissional que está cuidando do paciente”, explica.

O dispositivo é colocado no paciente e, a cada mudança de posição realizada pela equipe de saúde, o beacon com acelerômetro percebe a alteração. Via Bluetooth, emite o sinal de mudança ao celular, que recebe a informação, salva em um banco de dados e, depois, dispara o alarme no momento adequado para realizar o procedimento novamente.

O experimento realizado com o protótipo do dispositivo em um manequim de alta fidelidade demonstrou que a comunicação com o smartphone funcionou. Além disso, o aplicativo registrou corretamente todas as vezes em que houve a mudança na posição do paciente, realizando as gravações na base de dados. Os resultados dos primeiros testes mostraram que a tecnologia é prática, simples, durável e de baixo custo de manutenção. Também não há necessidade de fios, acoplamento a monitores ou equipamentos alimentados através de energia elétrica. Outras características importantes são a resistência à água e as certificações que garantem a não interferência em outros dispositivos eletrônicos.

Sistema foi testado com manequim de alta fidelidade

A finalidade de monitorar o Protocolo de Lesão por Pressão se insere no tema da segurança do paciente, mas também contribui com o trabalho de rotina das equipes multiprofissionais de saúde. “Me debrucei sobre os últimos estudos voltados para esta área e percebi que a grande maioria deles não se preocupavam com o aspecto mais barato, que é a prevenção”.

As pesquisas disponíveis até então se concentravam em descobrir quais as áreas do corpo eram mais afetadas, com soluções caras e complexas. “Para o paciente só existem ganhos, pois com o dispositivo em uso é possível monitorar se ele está sendo movimentado de maneira correta, no período de tempo estipulado, evitando-se assim as lesões”. Jamil reforça que a tecnologia pode ser utilizada tanto em hospitais e clínicas, quanto em pacientes acamados e sem mobilidade que estão em suas residências e são atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou por familiares que desejam monitorar a atividade dos cuidadores.

Tecnologia que salva vidas

O pesquisador lembra que o campo da informática da saúde deve contribuir cada vez mais com a qualidade de vida dos pacientes, particularmente daqueles que já estão enfermos, em tratamento. “Abre-se um universo de possibilidades, pois com a aplicação das inovações na área da saúde, utilização de padrões, podemos normatizar a coleta de dados, gerando informação e conhecimento”.

Também é possível, segundo ele, aumentar a precisão nos cuidados. “Podemos ter controle de praticamente tudo, desde os medicamentos tomados pelos pacientes, tipo de medicações, receituários, horários, consultas, uso de curativos e sua eficácia, evitando desperdícios e trazendo eficiência e eficácia no tratamento médico”, aponta.

Com a intensificação no uso de diferentes tecnologias, os pacientes podem, por exemplo, ser monitorados por georreferenciamento, identificando-se a evolução nos tratamentos. Também é possível monitorar visitas da equipe da família e calcular custos relacionados às atividades de saúde, gerando economia. Dentro dos hospitais, a utilidade se dá no monitoramento de leitos, verificação da eficiência do tratamento e demanda de insumos, exames e material humano.

O sistema criado na UFSC está em fase inicial de desenvolvimento. Com a dissertação defendida e publicada, neste momento, o pesquisador se concentra na validação da proposta por meio da apresentação em artigos científicos. “Existe a intenção, assim que for possível e que a pandemia permitir, de apresentar a solução para o Ministério da Saúde, com o intuito de disponibilizar para o maior número de pessoas, melhorando a qualidade de vida dos pacientes acamados e sem mobilidade”.

Amanda Miranda/Agecom/UFSC

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