Pesquisa da UFSC aponta que uso regular de corticoide ao longo da vida pode afetar o crescimento corporal

Animais passaram por três ciclos de tratamento e receberam uma injeção diária por cinco dias consecutivos. Fotos: João Hasse/Agecom/UFSC
Um estudo realizado no Laboratório de Investigação de Doenças Crônicas (Lidoc) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) indica que um medicamento utilizado no tratamento de inflamações e alergias pode afetar o crescimento corporal. A pesquisa foi realizada em ratos em três fases da vida – equivalentes à infância, à adolescência e à vida adulta.
O medicamento estudado, o corticoide dexametasona, é um anti-inflamatório sintético amplamente utilizado na prática clínica. Esse fármaco causa efeitos colaterais como, por exemplo, o aumento do risco de desenvolver diabetes ou o acúmulo de gordura no fígado.
Embora os efeitos nocivos do uso contínuo do remédio sejam conhecidos, pouco se sabe sobre o impacto de tratamentos com intervalos ao longo da vida, como o uso periódico, por exemplo, sempre que uma doença crônica (como a asma) volta a atacar. A hipótese dos pesquisadores era que a exposição repetida ao medicamento, desde a infância, agravaria os distúrbios metabólicos na idade adulta.
Entretanto, ao contrário do que os cientistas esperavam, os animais que receberam o medicamento desde a infância até a idade adulta não apresentaram a maioria dos efeitos colaterais metabólicos observados nos ratos que receberam o corticoide apenas na fase adulta, como intolerância à glicose, acúmulo de gordura no fígado e aumento dos níveis de insulina. “O animal exposto primeiro na infância e depois na adolescência desenvolveu uma adaptação ao medicamento, que parece resistir ao efeito quando chega à vida adulta. Essa exposição poderia exigir aumento da dose para obtenção dos mesmos efeitos de alguém que foi exposto apenas quando adulto”, explica Alex Rafacho, professor do Programa de Pós Graduação em Farmacologia da UFSC e coordenador do estudo.
Por outro lado, observou-se que o uso intervalado de dexametasona, iniciado na infância e mantido ao longo do desenvolvimento, reduziu o crescimento corporal nos animais em que o medicamento foi aplicado desde a infância. Quando adultos, estes ratos apresentaram peso menor do que aqueles que receberam as doses apenas na fase adulta.
Segundo Rafacho, os resultados encontrados chamam a atenção para a importância de se considerar todo o histórico dos pacientes. “A abordagem clínica não está perguntando aos adultos se foram expostos na infância, ela costuma considerar apenas os sintomas atuais do paciente”, afirma.

Carolina de Moraes Silveira Peixe desenvolveu o estudo em seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UFSC
“A exposição lá na infância poderia explicar por que determinados adultos precisam de uma dose maior de determinado fármaco. Mas não necessariamente os clínicos, os médicos, saberão isso. Porque ninguém está perguntando para uma pessoa de 50 anos se, quando ela tinha 10 ou 5, ela foi exposta a uma medicação X”, complementa o professor.
A pesquisa, resultado da dissertação de mestrado de Carolina de Moraes Silveira Peixe, do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da UFSC, foi orientada pelo professor Alex Rafacho. O trabalho teve a colaboração dos professores Alexandre Giusti-Paiva (UFSC), Silvana Auxiliadora Bordin e Paulo Henrique Evangelista Silva, ambos do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP). Os resultados da pesquisa foram publicados em artigo na revista científica Biochemical Pharmacology.
Luiz Cucco | agecom@contato.ufsc.br
Estagiário da Agecom | UFSC



















