Dentre os sorrisos constantes só sai um tipo de reclamação: “as pessoas acham que a gente vive na selva”, queixa-se Ivalda. “E você já domou um leão?”, foi o que perguntaram a Basílio. Amira, Basílio e Ivalda são moçambicanos, e Eugênia veio de Angola. Os quatro fazem parte de um grupo de 22 alunos que viajaram da África, no início de janeiro, para desembarcar em Florianópolis, mais especificamente na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a fim de participarem do Curso de Iniciação de Investigação Científica.
Matriculados em universidades africanas, os estudantes puderam se inscrever no programa recém-firmado pela UFSC – através da Secretaria de Relações Institucionais e Internacionais (Sinter) – com a Capes, o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE). Selecionados por seus históricos escolares, todos os inscritos foram distribuídos nas diversas universidades brasileiras conveniadas, e a UFSC recebeu então os 22 estudantes, que se dividiram entre os centros Tecnológico (CTC), de Ciências Biológicas (CCB), de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), de Ciências Agrárias (CCA) e de Ciências da Saúde (CSS).
Pesquisas, trilhas e desfile – Como os africanos realizam o curso no período de férias, acabam perdendo um pouco em termos de socialização: a universidade cheia de alunos é algo que eles ainda não puderam vivenciar – e terão poucos dias para isso, pois embarcam de volta logo após o início das aulas da UFSC. O Departamento de Cooperação Acadêmica (Decad) da Sinter, no entanto, organizou atividades para que, no período em que não estão se dedicando às pesquisas em seus grupos específicos, possam conhecer a cultura brasileira e florianopolitana. “Através do Núcleo de Estudos do Mar (Numar), eles terão um curso a distância de quatro dias, e farão também pesquisa de campo nas praias de Daniela e Ingleses, percorrendo trilhas para analisarem de perto o ecossistema costeiro.
Além disso, estamos providenciando para que visitem as fortalezas da Ilha”, explica Elaine Cristina de Lima, chefe de expediente do Decad. Os africanos, no entanto, também têm se socializado por conta própria: a partir de moçambicanos que estudam na UFSC, conheceram a Consulado do Samba, escola do bairro Saco dos Limões, participaram dos ensaios e foram convidados pela diretoria a desfilarem na passarela Nêgo Quirido.
O médico Paulo Freitas trabalhou em Moçambique quatro anos depois de ter se formado. Coordenador do projeto de pesquisa em que estão Ivalda, Basílio, Amira e Eugênia, que tem como foco o estudo da experiência do parto, ele acredita que o intercâmbio de conhecimentos é muito rico. “É notável o interesse, a sede por aproveitar a experiência ao máximo. Está sendo bem melhor do que nosso grupo de pesquisa esperava. Chama a atenção a estrutura de ensino de países como Moçambique e Angola. Lá a obtenção de informações é muito limitada e contrasta com a facilidade que nossos alunos têm de acessar conteúdos do portal da Capes e de toda a literatura científica. Esperamos que esse programa possa ser permanente”.
Saúde pública como legado
O jeito tímido de Eugênia Ngambir (estudante de Enfermagem), Amira Issufo (Enfermagem e Saúde Materna), Ivalda Macicame (Medicina) e Basílio Guivala (Administração e Gestão hospitalar) logo dá lugar aos sorrisos e à simpatia quando contam da experiência que têm vivido no Brasil. Mais do que adquirir conhecimentos para suas próprias carreiras, eles pretendem também difundir o que aprenderam na UFSC. “Tem sido muito importante o que estamos pesquisando, porque queremos aplicar em nosso país. Dois de nós, inclusive, estão fazendo seus trabalhos de conclusão de curso (TCC) com o que têm absorvido no Brasil”, explica Amira.
Teoria X Prática – São vários são os pontos que lhes despertam o interesse. “Em Moçambique temos profissionais muito capacitados, mas não há estímulo à pesquisa. Até temos disciplinas que tratam de humanização, saúde pública, mas acaba ficando só no papel, mesmo”, relata Ivalda. Em Angola, de acordo com Eugênia, há metodologia de pesquisa, mas os recursos tecnológicos que conheceu na UFSC lhe ajudaram muito na elaboração de protocolos. “Vamos levar os softwares para casa”, salienta.
Partos e traições – A humanização praticada no Hospital Universitário é o que mais estimula Amira. Assim como em diversas regiões do interior do Brasil, em Moçambique também há crenças relacionadas ao parto, fator que contribui para a alta incidência de nascimentos caseiros. “Existem sogras que não deixam as noras terem seus filhos no hospital. Elas querem acompanhar o parto de perto, pois acreditam que se o trabalho for complicado é porque a esposa traiu o marido. E no meio daquele sofrimento todo ainda ficam perguntando: ´Com quem!?!, com quem!?!`”, explica. As parteiras tradicionais também são muito populares em algumas regiões em que as famílias não abrem mão de dar à luz o filho através das mãos das pessoas que já trouxeram ao mundo a mãe, o tio, e até mesmo os avós. Para melhorar as condições dos partos caseiros, o Ministério da Saúde de Moçambique está oferecendo cursos de capacitação e fornecendo os materiais às parteiras.
Sorrisos a mães e bebês – Amira brinca, dizendo que quando for chefe de maternidade vai obrigar todos os funcionários a sorrir, para criar uma atmosfera agradável às futuras mamães. Ela e seus colegas já solicitaram autorização para assistir a um parto no HU. “Fiz estágios em maternidades em Moçambique, e não víamos nada de humanizado por lá”, relata.
Capulanas para acolher as parturientes – As condições de trabalho dos africanos, de acordo com os estudantes, também não são das melhores. “Só o fato de já haver um lençol limpo na cama quando a mãe chega para o parto faz uma grande diferença. Lá, muitas vezes as luvas são reesterilizadas, e as mulheres, para darem à luz, desenrolam a capulana do próprio corpo para servir de lençol”. Capulana, esclarecem eles, é um tecido africano que serve como saia, vestido, calças ou turbante. Basílio teve a chance de testar pessoalmente o atendimento do Hospital Universitário. “Um dia passei mal. Fui até o HU e achei o máximo. Aqui o paciente se sente à vontade”.
O experiência no Brasil não se ateve só à pesquisa. Os alunos visitaram os postos de saúde onde puderam ir a campo. “Eu sempre quis fazer medicina clínica, para tratar de doentes nos hospitais, mas aqui aprendi a trabalhar com a comunidade, e acho que agora darei um novo direcionamento à minha profissão”, atesta Ivalda. Amira concorda. “Trabalhamos no Centro de Saúde da Armação, e lá os agentes vão às casas dos doentes, fazem cadastros, servem de elo entre a comunidade e o centro de saúde. Eles conhecem os pacientes. Se algum deles falta, eles descobrem o porquê. E a principal preocupação é com a prevenção”.
O relacionamento com os professores é algo que os alunos levarão para a África. “Eles fazem tudo com amor à profissão. A vontade deles era que nós ficássemos mais tempo”, conta Basílio. E vocês, gostariam de ficar mais alguns meses? “Em se tratando da parte de aprendizagem sim, mas a saudade de casa vai crescendo…”, conclui.
Carnaval sem feriado – A saudade, no entanto, vai aumentar mais um pouquinho. Antes de voltarem eles ainda conhecerão o carnaval de Florianópolis. “Alguns moçambicanos que vivem aqui nos levaram ao ensaio da Consulado do Samba. Fomos, desfilamos, gostamos muito, e no outro dia voltamos. Então conhecemos a direção da escola, que nos convidou para o desfile”, explica Ivalda. Empolgados, eles contam que, dos 22 alunos, apenas seis não vão ao Nêgo Quirido porque não gostam de carnaval. “Moçambique e Angola têm carnaval, mas não é tão organizado e nem tem todas essas fantasias”, explica Basílio. “Ah, e em Moçambique o carnaval não é motivo de feriado”, completa Amira.
Além da experiência profissional e das lembranças do carnaval e das praias, a bagagem levará também as impressões positivas dos brasileiros. Ivalda é quem assegura. “Estou com muita vontade de desenvolver um projeto. Aqui pude ter uma outra ideia do mundo. A partir do contato com os brasileiros, tenho mais vontade de seguir em frente. Percebo que é possível, é só ter vontade”.
Por Cláudia Schaun Reis/ jornalista na Agecom