Com o objetivo de demonstrar a viabilidade de tecnologias e materiais alternativos para a habitação popular, o Núcleo de Pesquisa em Construção do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) está construindo no campus universitário o protótipo de uma construção sustentável. O projeto tem a colaboração de profissionais de diferentes áreas e vai mostrar possibilidades como instalações elétricas otimizadas para baixo consumo de energia, uso de painéis solares para aquecimento da água e painéis fotovoltaicos para geração de energia, além de reutilização de água do lavatório e chuveiro. A iniciativa conta com recursos da Financiadora de Estudos e Pesquisas (FINEP), CNPq e Caixa Econômica Federal, através do Programa de Tecnologia de Habitação (Habitare). O protótipo está sendo construído ao lado do novo prédio do Departamento de Engenharia Civil.
Além de apresentar inovações em sua concepção e projeto, a ‘casa modelo’ está sendo construída com materiais alternativos. Entre eles, blocos de concreto produzidos com adição de cinzas da Termoelétrica Jorge Lacerda. Um outro concreto alternativo, onde a brita natural é substituída por pequenos pedaços de entulho da construção e demolição, e um concreto de alto desempenho, produzido com adição de cinzas da casca de arroz, também estão sendo usados. Com o emprego
destes materiais, o Núcleo de Pesquisa em Construção Civil vai demonstrar alguns dos principais resultados obtidos no projeto ‘Aproveitamento de resíduos sólidos para uso em conjuntos habitacionais de baixo custo’, financiado pelo Programa Habitare/FINEP.
De acordo com a professora Janaide Cavalcante Rocha, uma das coordenadoras do projeto, a idéia do protótipo é trabalhar
com materiais alternativos em um sistema de pré-moldados para
a habitação popular, o que pode reduzir custos e agilizar a construção de moradias. “A pré-fabricação pode auxiliar a evitar excessos e a buscar maior controle de qualidade da habitação”, explica a professora. O protótipo tem cerca de 40 metros quadrados e foi planejado para possibilitar a ampliação por parte do morador. A idéia leva em conta pesquisa realizada em conjuntos habitacionais populares da Grande Florianópolis, que mostram que em geral os moradores realizam alterações na construção original. Só que sem
orientação, estes ‘puxados’ em geral trazem problemas estéticos, de segurança e de privacidade. Prevendo o atendimento ‘disciplinado’ dessa necessidade, uma janela do protótipo pode se transformar em porta (o cálculo estrutural foi reforçado para atender a esta necessidade), permitindo a construção de uma laje que pode gerar tanto um ambiente no segundo piso quanto no térreo. “Assim o morador tem a possibilidade de construir mais um quarto ou uma oficina de
trabalho”, explica a professora.
Ao lado do protótipo de blocos de concreto que já está sendo erguido, será construído outro com madeira de reflorestamento. “O uso de materais diferentes vai permitir a avaliação do desempenho acústico e de iluminação, entre outros aspectos, estudos que deverão dar continuidade às pesquisas que buscam o reaproveitamenteo de materiais na construção civil e a melhoria da qualidade da habitação de
interesse social”, explica a professora.
Além de contar com financiamento do Programa Habitare, a iniciativa conta com outros parceiros. Entre eles, a Tractbell Energia, que colabora também com financiamento em um projeto PID (Pesquisa e Desenvolvimento) para desenvolvimento dos estudos para reaproveitamento das cinzas de termoelétricas em materiais para construção civil; da Toniolo Pré-Moldados, que produziu os blocos pré-moldados com cinzas e a Minercal, empresa que colaborou com os testes das argamassas, além da empresa Manske, de Santo Amaro, que está
colaborando com a pré-fabricação da escadas, pois o protótipo tem dois pisos.
Construção Sustentável
O protótipo vai contar com:
– Instalações elétricas otimizadas para baixo consumo de
energia;
– Instalações com reaproveitamento de água de chuva;
– Instalações elétricas com uso de fonte energia alternativa:
painéis solares para aquecimento de água e painéis
fotovoltaicos para geração de energia no local;
– Instalações hidro-sanitárias otimizadas para consumo mínimo
de água e com reutilização de água residuária servida no
lavatório e chuveiro;
– Instalações esgoto com tratamento e reaproveitamento;
– Sistema de drenagem pluvial com monitoramento das águas
percoladas.
Mais informações:
– Profª. Janaide Cavalcante Rocha, Fone: 0xx48 331-5169
E-mail: ecv1jcr@ecv.ufsc.br
– Prof. Luiz Prudêncio, Fone: 0xx48 331-5188 /331-9723
E-mail: prudenciouk@hotmail.com
Saiba Mais
Cinzas de termoelétricas
Alguns dos melhores resultados das pesquisas para
reaproveitamento de resíduos para a Construção Civil
realizados na UFSC vêm sendo alcançados com a cinza pesada de
termoelétricas. As pesquisas comprovam seu potencial como
matéria-prima para a construção, tanto pelo desempenho
mecânico apresentado pelos componentes fabricados, quanto
pela disponibilidade desse resíduo. Os estudos vêm permitindo
a produção de blocos, cimentos e briquetes de pavimentação
com adição de cinzas.
No Brasil, estima-se uma disponibilidade de 3 milhões de
toneladas/ano de cinzas, composta de 65% a 85% de cinzas
volantes e 15% a 35% de cinzas pesadas. Em Santa Catarina, a
produção de cinzas no Complexo Termoelétrico de Jorge
Lacerda, localizado entre os municípios de Capivari de Baixo
e Tubarão, é estimada em 818 mil toneladas/ano.
Foram também realizados estudos de viabilidade econômica e
eles mostraram que os componentes com adição de cinzas podem
ter custo até 40% inferior aos convencionais. Com a
construção do protótipo, a equipe passa a uma nova etapa dos
estudos, que são os testes de desempenho em uso, verificando
questões como o conforto térmico e umidade de paredes
construídas com os componentes fabricados com adição de
cinzas.