“É um orgulho de verdade”: conheça a primeira médica iraniana formada pela UFSC

10/08/2026 16:30

Ingressante pelo Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), Sedigheh Anzani se formou em Medicina em dezembro de 2025. Foto: arquivo pessoal

Primeira iraniana a se formar em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sedigheh Anzani teve uma trajetória marcada por desafios, aprendizados e novas amizades. Ingressante pelo Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), Sedigheh realizou sua formatura em dezembro de 2025 e, em julho, recebeu seu diploma no gabinete da Reitoria. Pelas regras do PEC-G, deveria pegar o diploma e o histórico escolar na embaixada brasileira no Irã, mas, devido à guerra, obteve, excepcionalmente, autorização para receber a documentação acadêmica no Brasil.

A agora mestranda em Ciências Médicas chegou à UFSC em 2016, quando veio fazer mestrado no Programa de Pós-Graduação em Farmácia. Até então, não conhecia muito sobre o Brasil, mas tinha vontade de estudar fora, e aceitou a recomendação de um amigo que já conhecia o país. Já a UFSC foi sugestão de um trabalhador da embaixada brasileira no Irã, que indicou Florianópolis por ser uma cidade mais tranquila e pela boa colocação da universidade catarinense em rankings.

“Eu não sabia nada de português. Quando cheguei, aprendi português só por curiosidade, não era para ficar. Eu vim para ficar só dois anos, não era era para ficar mais do que isso, não era o que eu estava planejando. Depois mudou a minha vida totalmente, e faz quase dez anos que estou aqui”, conta Sedigheh.

“Cheguei aqui sozinha, tudo era diferente para mim, até a comida. Foi um choque cultural mesmo. E batalhei para mergulhar na cultura. Era um idioma novo, um sotaque diferente, que eu nunca tinha ouvido. No início, estava assustada, com um pé atrás. ‘Por que essa língua tem música? Como assim? Como eles se entendem?’ Aí fui atrás de aprender. Eu aprendi português aqui na UFSC”, complementa.

Em 2018, Sedigheh decidiu fazer uma nova faculdade, e se inscreveu para o curso de Medicina pelo PEC-G. Como parte da seleção, ingressou inicialmente na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Chapecó, em 2019, para aprimorar o português. Após ser aprovada no exame oficial brasileiro para certificação de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros, iniciou o curso de Medicina na UFSC, em Florianópolis, em 2020.

Além da adaptação cultural, Sedigheh enfrentou diversas dificuldades. Passou pelo período de pandemia em um país novo, longe da família, e por episódios de xenofobia e dificuldades financeiras, uma vez que os auxílios fornecidos pela universidade não davam conta do alto custo de vida de Florianópolis. “Foi uma batalha grande”, afirma.

Ela conta que, para não sofrer, buscou mergulhar na cultura brasileira. “Aí comecei a me comunicar com as pessoas, fazer muitas amizades, ter muitos amigos, e até consegui amigos internacionais aqui no Brasil. […] Depois de um tempo, eu virei brasileira”, enfatiza. 

Foto: arquivo pessoal

Logo após finalizar a graduação, ingressou no mestrado e está pesquisando sobre pacientes com epilepsia farmacorresistente, sob orientação da professora Katia Lin. Sedigheh, aliás, faz questão de ressaltar o apoio da docente. “Estou fazendo mestrado agora na área de Ciência Médica, com uma das melhores professoras do mundo, a doutora Katia. Eu adoro ela, e ela mudou a minha vida. Ela me ajudou bastante, e acho que isso é muito importante que fique registrado. Ela é muito jovem, mas foi como uma mãe para mim.”

“Eu fiz um sacrifício para me manter nesse curso, para não perder a oportunidade grande que a UFSC me deu. Agradeço à UFSC, que me abraçou no momento em que precisei, realmente me deu oportunidade. Eu nunca vou esquecer essa oportunidade. Quando cheguei no Brasil, sempre cuidava pelo nome do Irã, porque sou representante do meu país. […] Agora que me formei, a mesma sensação que tenho pelo nome do meu país, tenho pelo nome da UFSC. Tento fazer o meu melhor nos atendimentos, porque no meu jaleco eu tenho nome da UFSC. […] Vejo responsabilidade no nome da UFSC. É um orgulho de verdade.”

PEC-G e entrega do diploma

O PEC-G é o mais antigo programa de cooperação educacional internacional do Brasil, criado oficialmente pelo governo brasileiro em 1965. É administrado pelo Ministério das Relações Exteriores, por meio da Divisão de Temas Educacionais, e pelo Ministério da Educação, em parceria com Instituições de Ensino Superior em todo o país. A UFSC participa do programa desde os anos 1970. 

As normas preveem que o estudante-convênio egresso do PEC-G receberá, obrigatória, pessoal e gratuitamente, seu diploma, ementas e histórico escolar na missão diplomática brasileira onde se inscreveu. Com a autorização especial concedida a Sedigheh, a entrega do diploma foi feita em cerimônia no gabinete da Reitoria no dia 30 de julho.

Da esquerda para a direita, o reitor Amir Oliveira; Sedigheh Anzani; a mãe de Sedigheh, Parvaneh; a vice-reitora Felipa Amadigi; e a coordenadora do PEC-G na UFSC, Elisa Schemes. Foto: divulgação/UFSC

Estiveram presentes, o reitor da UFSC, Amir Oliveira; a vice-reitora, Felipa Amadigi; o secretário de Relações Internacionais, Diogo Robl, a diretora da Secretaria de Relações Internacionais (Sinter), Francis Tourinho; a chefe de gabinete, Cátia Regina Silva de Carvalho Pinto; a coordenadora do PEC-G na UFSC, Elisa Schemes; e a mãe de Sedigheh, Parvaneh, que veio ao Brasil em dezembro para a formatura e ainda não conseguiu voltar, devido à guerra.

“Em um momento em que o país da Sedigheh enfrenta tantas adversidades, entregar este diploma é, para a UFSC, um gesto de profunda emoção e esperança, pois reafirma nossa convicção de que a educação, a ciência e a cooperação entre os povos são caminhos capazes de transformar vidas e construir a paz”, afirmou Felipa.

“É uma grande satisfação para a UFSC concluir mais uma trajetória de formação por meio do PEC-G. A cooperação internacional faz parte da missão da nossa Universidade, e acreditamos que o conhecimento aproxima povos, fortalece o diálogo e contribui para a construção de um mundo mais justo. Parabenizamos Sedigheh Anzani por essa importante conquista e nos orgulhamos de fazer parte dessa história”, reforçou o reitor.

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