UFSC e Udesc colaboram para reconhecimento nacional de importante patrimônio audiovisual indígena

02/06/2026 12:15

Da esquerda para direita: Siã Huni Kuĩ, Enio Staub e Alberto Groisman
Foto: arquivo pessoal

Em um momento histórico para a memória dos povos indígenas e para o cinema brasileiro, o cineasta indígena pioneiro Siã Huni Kuĩ entregará seu acervo audiovisual à Cinemateca Brasileira, em cerimônia marcada para 11 de junho, às 16h, em São Paulo. O conjunto documental passará a integrar oficialmente a coleção da instituição, garantindo sua preservação e disponibilização para pesquisa e consulta pública.

A entrega do acervo representa a etapa final de um projeto iniciado em 2016 pelo Grupo Co-Operativo Acervo Siã (GCOAS). Naquele ano, foi elaborado um projeto de extensão para transferir e preservar o material audiovisual na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Desde então, o acervo foi armazenado no Departamento Artístico Cultural da universidade (DAC), onde passou por processos de catalogação, indexação e digitalização parcial.

O trabalho foi conduzido por uma equipe formada pelos pesquisadores da UFSC e da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Alberto Groisman e Rafael Gue Martini, pelo cineasta e restaurador Enio Staub e pelo próprio Siã Huni Kuĩ, além da colaboração de estudantes e do então diretor do DAC, Zeca Pires. A concretização da iniciativa contou também com apoio da Reitoria e da Pró-Reitoria de Extensão da UFSC, da Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu) e dos integrantes do GCOAS. Também contribuíram diretamente para a realização do ato histórico Irineu Manoel de Souza, Olga Regina Ziguelli, Gabriela Costa de Oliveira, Fabrício Augusto Menegon, João Rafael de Faveri Leacina, Luís Carlos Dutra Júnior, Fábio Silva de Souza, Gabriela Sousa de Queiroz e suas respectivas equipes.

O objetivo do projeto foi reconhecer a contribuição histórica de Siã, preservar e divulgar um acervo até então pouco explorado, composto por fitas VHS, Hi8, Mini DV, JVC DAT P120 XD, DVDs e outros formatos audiovisuais. Entre os registros preservados encontram-se importantes acontecimentos da história recente da Amazônia e dos movimentos sociais brasileiros. As imagens documentam a vida nos rios e na floresta, o movimento indígena, o movimento ambientalista e encontros históricos, como o Primeiro Encontro da Aliança dos Povos da Floresta, realizado em 1989. O acervo também reúne registros dos chamados ‘empates’, ações de resistência dos trabalhadores da floresta contra o desmatamento, incluindo a atuação do líder seringueiro Chico Mendes e de outras figuras centrais do movimento socioambiental desde a década de 1970.

Outro destaque do conjunto documental é o registro da histórica viagem realizada pelo cantor e compositor Milton Nascimento ao Acre, em agosto de 1989. A expedição reuniu lideranças indígenas e ambientalistas, entre elas Marcos Terena, Antonio Macedo e o próprio Siã Huni Kuĩ. O grupo percorreu diversas terras indígenas em uma demonstração de solidariedade aos povos da floresta, promovendo o diálogo entre indígenas, seringueiros e ribeirinhos. Especialistas envolvidos no projeto destacam o valor histórico, documental, estético e museológico do acervo. A incorporação à coleção da Cinemateca Brasileira marca um feito inédito: trata-se do primeiro acervo indígena acolhido institucionalmente pela entidade responsável pela preservação da memória audiovisual do país.

Conhecido também como José Osair Sales, Siã Huni Kuĩ é cineasta, agricultor, ativista e uma das principais lideranças do povo Huni Kuĩ, anteriormente identificado como Kaxinawá. Nascido em 1964 no Seringal Fortaleza, na região do Alto Jordão, no Acre, aprendeu a língua portuguesa aos 17 anos e dedicou sua trajetória à defesa dos direitos indígenas, especialmente à luta pela demarcação de terras.

Ao longo de mais de duas décadas, Siã construiu um vasto registro audiovisual da vida na floresta amazônica, documentando aspectos culturais, sociais e políticos dos povos indígenas, seringueiros e comunidades ribeirinhas. Seu trabalho tornou-se referência para novas gerações de realizadores indígenas, consolidando-o como um dos pioneiros do cinema indígena no Brasil.

Link do documentário:  Fruto da Aliança dos Povos da Floresta (Siã Huni Kuin 1987) – Documentário 

 

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