Ponte Hercílio Luz possibilitou travessia de Florianópolis para o século 20

13/05/2026 06:59

Construção da Ponte Hercílio Luz, em registro de 1925. Foto: Acervo Blog Carlos Damião

Mais do que concretizar a ligação física entre a capital e o continente, a Ponte Hercílio Luz foi decisiva para que Florianópolis chegasse, finalmente, no século 20. A análise é do arquiteto e urbanista Dalmo Vieira Filho, estudioso da área de patrimônio histórico e planejamento urbano e professor aposentado do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC, onde atuou por quase 40 anos.

“A ponte foi a inauguração da modernidade em Florianópolis”, sintetiza o professor. Nos anos 1920, o Brasil ainda era um país essencialmente agrário, ruralista, que tentava superar aspectos remanescentes da herança social e econômica do período colonial e do império. “Florianópolis era uma cidade ainda semi-urbana, e a vida, a economia, a realidade giravam em torno do mundo agrícola”, analisa. Havia o pequeno núcleo urbano da região central, no entorno da atual Praça XV de Novembro, com as repartições públicas, comércio e residências; e as freguesias, pequenas comunidades rurais isoladas, onde se vivia da pesca e da produção artesanal de farinha e cachaça, principalmente. A ponte foi idealizada em meio a esse contexto, como forma de modernizar uma cidade provinciana, pequena, pouco expressiva e com baixa densidade populacional.

Dalmo Vieira Filho, professor aposentado do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC e servidor aposentado do Iphan. Foto: TV UFSC

Era o século do automóvel, e sem uma ponte a cidade ficaria para trás na aquisição dos avanços proporcionados por essa máquina – e isso poderia levar, inclusive, a uma perda de prestígio político. “Se percebeu que acabaria vingando a ideia de que a cidade deixasse de ser a capital do Estado. E aí veio a Ponte Hercílio Luz, que foi uma obra realmente transformadora. É ela que abre, para Florianópolis, o século 20 e os potenciais do século 20”, analisa Dalmo Vieira Filho.

Pode ser curioso imaginar como a população da cidade teria reagido a uma imensa estrutura de ferro, um “monstrengo” importado de metal, uma parafernália comprada fora do país e que começou a ser instalada por um contingente imenso de operários. Isso quebrava de forma chocante as características daquele então vilarejo bucólico e isolado. “Mas, apesar de ser esse objeto estranho que invade a realidade e muda o espaço com sua presença, o grande diferencial é que ela conquista o afeto, a admiração das pessoas. E se torna o símbolo do estado”, observa o professor.

“Torre Eiffel brasileira”

Dizer que a ponte inaugurou a modernidade em Florianópolis é algo válido, também, do ponto de vista arquitetônico. Dalmo explica que as características da Ponte Hercílio Luz são representativas da noção de beleza que passava a vigorar naquele período, quando a funcionalidade das coisas se tornava preponderante em relação à aparência. Na época, persistia uma noção de beleza relacionada à decoração efusiva, aos motivos historicistas, com enfeites e ornamentos. As primeiras ideias modernistas passam a defender que a beleza está na funcionalidade das coisas, independentemente de detalhes decorativos: hangares de aviões e navios, por exemplo, são feitos para funcionar, e não para serem bonitos.

“Mas a função, quando ela é bem planejada, bem estruturada, se traduz em beleza. É uma nova noção de beleza. Ela é, a Ponte Hercílio Luz, um dos exemplares mais significativos dessa mudança das noções de beleza, que vão depois se intensificar com o Art déco, e é aí que o modernismo vai praticamente se padronizar no mundo. Ela é um monumento decisivo nas obras, nas realizações existentes no Brasil. É uma espécie de Torre Eiffel brasileira”, considera o professor Dalmo.

Tombamento nacional

Ponte Hercílio Luz durante o processo de restauração, em 2017. Foto: Acervo Blog Carlos Damião

Na década de 1980, a perda temporária da sua principal funcionalidade – integrar o sistema viário da capital, ligando ilha e continente – desencadeou um debate em torno do valor da Hercílio Luz como patrimônio histórico e da viabilidade de sua recuperação. O tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi, para Dalmo, um passo pragmático decisivo para garantir da gestão pública o compromisso com a restauração e reativação do monumento. E representou, também, uma mudança de visão em relação ao que é patrimônio histórico. Vigorou por muito tempo a visão de que as coisas antigas do Brasil colonial é que deveriam ser preservadas – vilas, igrejas, fortalezas. “Nesse período se trouxe à tona debates como o tombamento do Maracanã e da ponte Hercílio Luz, à época, talvez, um dos maiores bens tombados pelo Iphan”, recorda ele, que atuou como arquiteto no Iphan por quatro décadas e foi superintendente do órgão em Santa Catarina.

O consenso mais importante a favor do tombamento, relata, era o de que o símbolo de Santa Catarina havia se transformado em um objeto de apropriação nacional. Porém, a questão da interdição era algo que pesava na decisão. O Iphan negociou com o governo do estado e obteve o compromisso de que a administração estadual se responsabilizaria pela restauração e manutenção do monumento. Em 5 de agosto de 1998, concretizou-se o tombamento, por meio do Processo 1137-T-85, inscrito no Livro do Tombo Histórico sob o número 547.

Com a reabertura, a ponte Hercílio Luz voltou a integrar o cotidiano de milhares de pessoas em seus deslocamentos diários, passeios e lazer, tornando possível aquela que, na avaliação do professor Dalmo Vieira Filho, é uma das experiências urbanas mais belas do Brasil. Ainda há espaço, porém, para que se aprimore qualitativamente esse cotidiano, na visão do arquiteto. “A ponte Hercílio Luz é o lugar em que Florianópolis pode celebrar sua condição de ilha capital, sua relação com o mar”, sugere, observando o potencial das duas margens, a insular e a continental, para implantação de espaços de convivência e lazer. Outro potencial subaproveitado, considera, é a ideia de utilizar a ponte para aprimorar o transporte coletivo urbano, num contexto em que, nas grandes cidades do mundo, têm sido cada vez mais frequentes as iniciativas que desencorajam o uso do automóvel individual em favor dos deslocamentos coletivos.

“No nosso cotidiano, nós não aproveitamos o potencial da ponte na medida que ele deveria ser aproveitado”, considera o professor, que frisa também a importância de se pensar o futuro da Hercíio Luz, para além da percepção da estrutura como um símbolo afetivo que cumpriu sua função prática por muito tempo. “Às vezes as pessoas veem os objetos antigos, os objetos que são patrimonializados, como desempenhando ou tendo desempenhado um papel ilustre no passado. E a gente esquece o que é essencial, que essa força também é um indicativo de potencial de futuro”, enfatiza.

Ana Paula Lückman | ana.paula.luckman@ufsc.br
Jornalista | Agecom/UFSC

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