UFSC desenvolve plataforma de código aberto para fortalecer economia solidária digital
Uma parceria recém-firmada entre o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) promete criar uma solução tecnológica voltada a cooperativas de trabalhadores por aplicativos, com o desenvolvimento de uma plataforma pública de código aberto voltada a esse público.
Iniciado em março deste ano, o projeto Ecosol Digital busca atender a uma demanda concreta e crescente de trabalhadores como entregadores, motoristas de aplicativo e artesãos, entre outros: a possibilidade de ter mais autonomia nas tomadas de decisão, precificação justa e transparência nos contratos de trabalho. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD 2024) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os trabalhadores plataformizados são cerca de 1,7 milhão de pessoas no Brasil.
A infraestrutura tecnológica do tipo white label (ou seja, altamente customizável) será voltada para cooperativas, associações e demais organizações de economia solidária digital que desejem possuir aplicativos próprios, diminuindo a dependência das plataformas de empresas que atualmente dominam o mercado. Do ponto de vista social, isso significa criar condições para que trabalhadores possam acessar tecnologias digitais que não apenas intermedeiem o trabalho, mas que também fortaleçam sua autonomia, sua renda e sua capacidade de organização coletiva. “Trata-se de uma mudança estrutural: não é apenas usar tecnologia, mas redefinir quem controla e se beneficia dela”, explica a professora do Departamento de Informática e Estatística Patrícia Plentz, coordenadora do Ecosol Digital.
A professora conta que o projeto nasce da percepção de que a transição digital do trabalho não pode continuar reproduzindo desigualdades históricas. “Hoje, grande parte das plataformas digitais opera sob uma lógica de concentração de poder e precarização das relações de trabalho, onde o trabalhador não participa das decisões nem da distribuição do valor gerado. O projeto propõe uma alternativa concreta a esse modelo”, afirma.
Algumas organizações que operam na lógica da economia solidária digital já contam com aplicativos próprios, como é o caso da cooperativa de motofretistas de Blumenau (SC). Seu líder, Rodrigo “Formiga” dos Santos, aponta que ter uma ferramenta como essa à disposição compensa muito no longo prazo, pois traz mais autonomia, transparência e a possibilidade de “pegar de volta” parte do lucro que as empresas obtêm às custas dos entregadores, apesar do maior trabalho inicial (comparado a trabalhar para grandes plataformas) — ter um app próprio significa precisar encontrar clientes, firmar parcerias, definir valores, cuidar da logística e de todas as outras etapas do processo. Outros desafios são a customização limitada que os aplicativos de empresas privadas oferecem e os altos custos com suporte tecnológico, que muitas vezes levam organizações a desistirem de usá-los.
Colaboração voluntária
O primeiro aplicativo a ser criado a partir da estrutura tecnológica desenvolvida pela UFSC será voltado para motofretistas ou entregadores. Nessa etapa, que terá a duração de 18 meses, o projeto contará com a colaboração voluntária da Associação Motasso, da Grande Florianópolis. A equipe irá se reunir com os trabalhadores para compreender as demandas, desenvolver o aplicativo e testar suas funcionalidades. Ao final dessa etapa, a plataforma será capaz de hospedar outros aplicativos voltados para fortalecer a economia solidária digital.
O professor Jean Hauck, que atua no Departamento de Informática e Estatística da UFSC e é membro do Ecosol Digital, explica o processo de construção da infraestrutura de código aberto que vai possibilitar o desenvolvimento do aplicativo: “Primeiro usamos a engenharia de domínio para identificar algumas das principais iniciativas de plataformas para a economia solidária ao redor do mundo. Em paralelo, utilizando uma estratégia baseada em Design Thinking, realizamos entrevistas com trabalhadores de aplicativos, buscando entender as suas principais dores e como uma plataforma white label desse tipo poderia ajudar a amenizá-las”.
Para o entregador Rodrigo dos Santos, há uma expectativa de que o projeto coordenado pela UFSC contribua para melhorar as condições de trabalho por colocar a tecnologia a serviço dos trabalhadores, além de se tratar de um investimento público, o que sinaliza disposição do governo federal para resolver alguns dos problemas enfrentados cotidianamente pela categoria.
Função de aprendizado
Além de produzir resultados de pesquisa que geram impactos na sociedade, o Ecosol Digital também tem propósitos pedagógicos. Ao envolver alunos de graduação e de pós-graduação, o projeto propicia experiências práticas que complementam a formação desses estudantes. “Essas experiências envolvem desde o desenvolvimento de hard skills, com a utilização das tecnologias mais atuais disponíveis no mercado, quanto soft skills, pela oportunidade de participarem de um trabalho realizado de forma coletiva, que requer habilidades de comunicação, gestão, trabalho em equipe, inovação, dentre outras”, explica o professor Hauck. Além de estudantes de Ciência da Computação e Automação, o projeto conta com pesquisadores da Sociologia do Trabalho e de Comunicação Social na equipe.
O financiamento do Ministério do Trabalho e Emprego ao projeto garante não apenas legitimidade institucional e recursos, mas principalmente conexão direta com políticas públicas nacionais voltadas ao trabalho e à economia solidária. Isso permite que a pesquisa desenvolvida dentro da universidade ultrapasse o ambiente acadêmico e se traduza em impacto concreto na vida dos trabalhadores.
De acordo com a professora Patrícia Plentz, essa articulação cria as condições necessárias para operar em escala nacional — algo essencial quando se fala de plataformas digitais. “A UFSC contribui com capacidade técnica, científica e de inovação; o MTE aporta diretrizes, capilaridade e alinhamento com as demandas reais do país. É essa convergência que torna possível desenvolver soluções tecnológicas robustas, socialmente orientadas e com potencial real de transformação”, finaliza.




















