‘A ética do uso e da seleção de embriões’: Editora da UFSC disponibiliza e-book gratuito de tese premiada

26/06/2020 19:00

Nas últimas décadas foram desenvolvidas técnicas de uso e seleção de embriões humanos que podem ser utilizadas no futuro para a prevenção e cura de doenças como o câncer, mas também podem significar uma alavanca a preconceitos e a desigualdade social. O potencial das pesquisas de uso e seleção atual, todavia, somente pode ser analisado corretamente com a apreciação ética dessas técnicas e pesquisas. E é ultrapassando a utopia e a distopia que Lincoln Frias adaptou sua tese de doutorado, agraciada pelo Grande Prêmio Capes, no instigante livro “A ética do uso e da seleção de embriões”, publicado pela Editora da UFSC (EdUFSC).

Entre a utopia e a distopia

Imaginemos um futuro em que doenças como mal de Parkinson, diabetes e diversos tipos de câncer estejam superados. Um lugar em que as pessoas já nascem com grande probabilidade de quociente intelectual (QI) elevado, alta imunidade e com compatibilidade de doação de órgãos entre parentes elevada. Uma utopia.

O outro lado da moeda desse mesmo cenário, no entanto, também pode ser suposto: um cenário em que as camadas mais enriquecidas da sociedade sejam mais hábeis, inteligentes e saudáveis, em detrimento de uma população geneticamente modificada para trabalhos braçais e com baixa expectativa de vida. Uma distopia.

Entre ambos os cenários, no entanto, há fatos concretos decisivos à humanidade: nas últimas duas décadas têm sido desenvolvidas técnicas de manipulação genética que poderiam curar doenças degenerativas, cânceres, recuperar tecidos e órgãos comprometidos, entre outras possibilidades. Algumas dessas técnicas já estão em uso atualmente e permitem aos pais, por exemplo, escolherem características de seus filhos, como ouvido absoluto, cor dos olhos e pele e mesmo tendência a alto QI e compatibilidade para doação de órgãos. Para isso, no entanto, embriões humanos têm de ser manipulados ou selecionados. E é nessa complexa seara que Lincoln Frias desenvolveu sua pesquisa sobre a ética do uso e seleção de embriões atual, agraciada com o prêmio Capes, na área de Filosofia.

A ética do uso e seleção de embriões humanos

Na obra, o autor analisa os principais argumentos a favor e contra duas técnicas que envolvem a manipulação de embriões humanos: a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas (CTEHs); e a seleção de embriões para inseminação artificial.

A primeira consiste na reorganização biológica dos embriões, que até seu 14º dia são formados por CTEHs, o que lhes dá a capacidade de se transformar em qualquer um dos 216 tipos de células humanas. Com isso, as pesquisas poderiam se desenvolver até a cura de doenças, regeneração de tecidos e órgãos, ou mesmo retardar, tratar e curar doenças degenerativas, paralisias e deficiências como diabetes, infertilidade, etc.

A segunda técnica, a seleção de embriões, se desenvolve a partir da fertilização in vitro que casais com problemas de infertilidade recorrem. “Como a taxa de fracasso é muito grande, a fecundação do óvulo em laboratório é realizada para criar vários embriões, ao invés de implantar somente um. Nas últimas décadas, no entanto, foi desenvolvido o diagnóstico genético pré-implantação (DGPI), que possibilita verificar quais dos embriões criados em laboratório têm mais chances de ser bem-sucedido. A sofisticação que atingiu o DGPI nos últimos anos, porém, tornou possível extravasar a escolha por embriões mais aptos, permitindo conhecer predisposições a doenças e características genéticas. Com isso, torna-se possível escolher sexo, expectativa de estatura, QI, cor dos olhos, cor da pele, compatibilidade para futuras doações ou mesmo rejeitar características como nanismo, surdez, etc.” (p. 15)

Ambas as pesquisas, ainda em desenvolvimento, possuem, entretanto, limites éticos, ao que Lincoln Frias investigou que restrições morais são justificáveis em relação ao modo de lidar com embriões humanos criados em laboratório por fertilização artificial, com menos de 14 dias e que nunca estiveram em um útero. A análise foi realizada a partir da abordagem duas questões: (1) a pesquisa com CTEHs deve ser permitida, embora signifique a morte/destruição de embriões?; e (2) a seleção genética de embriões usando DGPI deve ser permitida?

Para responder à primeira questão, foram analisados os argumentos em favor do concepcionismo (a afirmação de que o embrião humano tem direito à vida desde a concepção), enquanto que a resposta à segunda questão envolveu a análise dos argumentos favoráveis ao antisselecionismo (a afirmação de que há algo de moralmente errado na seleção de embriões em geral) e ao restricionismo (a afirmação de que o DGPI deve ser permitido apenas para evitar doenças).

Na instigante obra, mesmo ao público leigo nos temas, as premissas éticas são didaticamente apresentadas, resultando em debate de grande qualificação filosófica e científica para responder a questões prementes ao presente e futuro da humanidade.

Serviço

O quê: A ética do uso e da seleção de embriões, 266 p.
Autor: Lincoln Frias
Quanto: R$36,00 (impresso) e E-book gratuito
Onde: Livraria virtual Edufsc (impresso) e Estante Aberta Edufsc (e-book)

 

Gabriel Martins/Agecom/UFSC

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