Vida UFSC: de filha cientista à mãe vestibulanda, a família de cinco irmãos e sua história com a UFSC

02/12/2019 10:45

Há 10 anos, Priscilla Barros Delben ingressava no curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Àquela altura não sabia, mas a porta pela qual cruzou não só permaneceria aberta, como se alargaria, possibilitando que novos perfis de pessoas ocupassem a universidade pública. A história se repetiu e, pela mesma porta que Priscilla entrou em 2009, também passaram suas irmãs: Vic, para estudar Artes Cênicas; Paola, para o curso de Psicologia; e Natasha, para cursar Física. 

Família Barros Delben no Reveillon. Em cima estão Priscilla, Natasha, Paola, Vic e Guilherme. Sentados estão Maria e Guilherme. Foto: Arquivo pessoal

Neste ano, o irmão Guilherme fará vestibular para Ciências da Computação e a mãe Maria para Medicina. Além da história transformada pela presença da UFSC, todos eles têm outras coisas em comum: a casa, o sobrenome e as dificuldades financeiras que, com muito esforço pessoal e graças à educação pública de qualidade, vêm sendo superadas ao longo dos anos. 

O pai Jorge Guilherme Barros Delben relembra quando ele, a esposa Maria Barros Delben e os cinco filhos vieram do Rio de Janeiro para Florianópolis, fugindo da crescente sensação de insegurança e em busca de melhores condições de vida para toda a família. “No início não foi nada fácil, não tínhamos reservas financeiras e nem conhecíamos a cidade”, conta. O primeiro contato com a UFSC, antes de ser pelo ensino, foi pela extensão: Maria sofria de artrite reumatoide severa, doença autoimune inflamatória que afeta articulações e órgãos internos, e que a impossibilitava de seguir trabalhando como confeiteira. 

Foi no Hospital Universitário (HU) que ela recebeu um tratamento experimental e conseguiu receber as injeções de alto custo, por meio da Farmácia Escola da UFSC. Hoje com 58 anos, Maria continua com o tratamento e se prepara para um novo desafio: neste ano, prestará o concurso Vestibular Unificado UFSC/UFFS visando a uma vaga no curso mais concorrido, o de Medicina. “Sou de uma cidade pequena do Maranhão e lá médico era muito raro. Mulher nem se fala. Quando criança, vi uma médica no postinho e fiquei encantada, desde então é meu sonho”, conta a vestibulanda que, um dia, almeja diminuir o sofrimento e ampliar a acessibilidade de atendimento médico à população. 

Vic, Maria, Natasha e Priscilla seguram objetos que as fazem relembrar suas trajetórias na UFSC. Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC

Nascimento de softwares, envelhecimento humano

O filho Guilherme também concorrerá a uma vaga na Universidade, mas no curso de Ciências da Computação. Trabalhando junto com o pai na recuperação de dados, Guilherme espera seguir na área de desenvolvimento de softwares e continuar o negócio que ajudou a construir. A irmã, Vic Barros Delben, iniciou a graduação em Artes Cênicas na UFSC e hoje estuda Teatro na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).  

Priscilla, assim como a mãe, queria cursar Medicina, mas no cursinho Pré-vestibular da UFSC descobriu que, para ser cientista o que ela realmente queria —, o curso de Ciências Biológicas seria mais adequado. Aos 27 anos, passou em primeira chamada, mas o vestibular não foi o único obstáculo. “O começo da faculdade foi um inferno porque a condição financeira em casa estava péssima, e o curso era diurno, dificultando muito manter um emprego”, relembra a bióloga. Com esforço e apoio da família, Priscilla conseguiu estágios de iniciação científica e uma bolsa monitoria, com a qual contribuía para a renda familiar. Mais tarde, foi bolsista no Laboratório de Células-Tronco e Regeneração Tecidual (Lacert/UFSC), onde ficou mais próxima do que sempre quis estudar: envelhecimento humano. Hoje, Priscilla está no doutorado e desenvolve uma pesquisa com células-tronco que pode prevenir danos celulares associados ao envelhecimento da célula.  

A imensidão do espaço e a solidão no gelo

Sua irmã, Paola Barros Delben, passou por experiências semelhantes: ao ingressar no curso de Psicologia, que é integral, precisou “se desdobrar” em três estágios para continuar contribuindo na renda familiar e permanecer na Universidade. “O que poderia ser algo ruim, na verdade, me oportunizou aprender bastante e foi um diferencial na formação”, afirma Paola, que estagiou obrigatória e voluntariamente no HU, Laboratório de Educação a Distância, Núcleo Multiprojetos de Tecnologia Educacional, Laboratório de Educação Cerebral, entre outros

Paola desenvolveu seu projeto original de pesquisa na graduação sobre redução da probabilidade de acidentes e adoecimentos dos participantes do Programa Antártico Brasileiro. Desde então, participou de sete expedições à Antártica representando o Laboratório Fator Humano onde, atualmente, desenvolve seu doutorado e lidera um grupo de pesquisa interdisciplinar sobre fator humano em ambientes polares. “Sempre estudei em escola pública e espero usar essa trajetória como exemplo quando fizer parte da minha pesquisa na NASA ou na Agência Espacial Europeia. Ainda que demore um pouquinho, eu vou chegar lá”, planeja. 

A filha Paola, o pai Guilherme e o filho Guilherme. Foto: Henrique Almeida/Agecom/UFSC

A irmã mais nova, Natasha Barros Delben, seguiu o caminho das irmãs e se inscreveu para o vestibular da UFSC em 2015. Era a terceira tentativa, desta vez bem sucedida: entrou para o curso de Física. Natasha conta que escolheu a carreira porque “sempre quis compreender mais profundamente como funciona o mundo em que vivemos“.  No início do curso, Natasha teve dificuldades em acompanhar as disciplinas por conta da carência educacional que sentia. Seu ensino médio foi concluído por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), para que ela, com o diploma em mãos, pudesse trabalhar e ajudar na renda familiar, na época em que o pai se recuperava de um acidente vascular cerebral. 

Atualmente ela concilia o curso com o emprego de caixa em uma lotérica e aulas de ballet clássico, em uma escola de dança onde é bolsista. Entre as experiências universitárias que a marcaram, Natasha cita a iniciação científica voluntária no Laboratório de Física, a participação na Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão (Sepex), a organização da 4ª Semana Acadêmica da Física e a construção da greve estudantil, neste ano. “Houve um rasgo de paradigma, agora não somos mais uma família com uma ou poucos universitários. Somos o exemplo de que não existe uma data de validade para seguir os sonhos, nem número de tentativas”, conclui Natasha. 

O pai, Guilherme, apesar de ter clientes de recuperação de dados na Universidade e trabalhar na região da UFSC, é por meio das histórias dos filhos que mantém um contato mais estreito com a instituição. “Agradecemos por existir entidades como a UFSC. Com certeza não teríamos condições econômicas de oferecer a nossos filhos uma educação de qualidade à altura da proporcionada pela UFSC”, diz. Para Maria, a UFSC se resume em três palavras e na extensão do próprio lar: “nossa segunda casa”.

Karina Ferreira / estagiária de jornalismo / Agecom / UFSC

O Projeto Vida UFSC é uma iniciativa da Agência de Comunicação da UFSC que nasceu com o propósito de demonstrar um pouco da construção coletiva da Universidade: o cotidiano, a rotina, o trabalho e a percepção das pessoas que compõem a comunidade universitária. O objetivo é retratar um pouco da realidade cotidiana desse ecossistema educacional dinâmico e pulsante, cuja soma de esforços gera resultados para toda a sociedade. Esta é a primeira matéria em texto da série que já existe em formato audiovisual. Os vídeos podem ser acessados aqui.

 

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