Estudo da UFSC traz história da vitivinicultura pela perspectiva socioambiental

25/09/2019 12:30

A vitivinicultura é a atividade econômica que se baseia no cultivo das uvas e na sua potencial utilização para a fabricação de vinhos. “Da terra à mesa: uma história ambiental da vitivinicultura nas Américas” é tema de projeto da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que vem sendo desenvolvido pelo historiador Gil Karlos Ferri, coordenado pela professora Eunice Sueli Nodari, em parceria com a Stanford University.

O pesquisador contextualiza que a UFSC é pioneira e referência, dentro e fora do país, em pesquisas em História Ambiental. Destaca que, em julho de 2019, a instituição sediou a terceira edição do congresso mundial, considerado o principal evento da área. Lembra que “este campo de pesquisa surgiu na década de 1970, por meio de debates com historiadores, primeiramente nos Estados Unidos e, em seguida, na Europa, que passaram a investigar o passado da humanidade, percebendo o cenário e as transformações ao longo do tempo, com viés socioambiental”. No Brasil os trabalhos iniciaram na década de 90 e na Universidade, nos anos 2000. A professora Eunice Nodari teve papel relevante na inserção da Universidade na discussão acadêmica.

Gil Karlos Ferri. Foto: divulgação

Ferri acrescenta que a “História Ambiental extrapola as fronteiras geopolíticas e se ocupa em compreender a própria terra, seus usos e significados para os seres humanos”. Apesar da exaustão na utilização dos recursos naturais, o pesquisador dessa área “prefere apontar que o homem causa mudanças na natureza, e não danos, pois não necessariamente a relação entre os sistemas sociais e os sistemas naturais é desastrosa ou problemática”.

O crescimento da produção e do consumo de uvas e vinhos no mundo, nas últimas décadas, vem conferindo especial importância ao setor vitivinícola. Em seus estudos, Ferri busca compreender as interações entre grupos humanos, espaços geográficos e espécies viníferas, do ponto de vista da História Ambiental Global. Em artigo de sua autoria, publicado em maio de 2019, explica a história do vinho no mundo, a produção em Santa Catarina e no Brasil, e a trajetória da vitivinicultura, cujo início data de 1532.

O vinho no mundo

O vinho, produzido a partir da fermentação das uvas, surgiu, provavelmente, há cerca de 7 mil anos na região do Cáucaso, Ásia Menor. Por meio das migrações e trocas comerciais entre os povos, a bebida ganhou destaque em culturas como o Antigo Egito, Fenícia, Grécia e Roma, chegando à cultura ocidental, sobretudo, através da importância da bebida na mitologia judaico-cristã. No século XX o vinho tornou-se uma commodity de estratégica relevância econômica e social. Este interesse é justificado por sua milenar importância simbólica e cultural, bem como, notadamente, seu alto valor agregado.

Para muitas culturas, o vinho é considerado um alimento. Além disso, pesquisas têm demonstrado aspectos positivos do consumo moderado do vinho para a saúde, relacionando a bebida com a prevenção de doenças, a longevidade e uma melhor qualidade de vida.

O vinho no Brasil

No Brasil, a produção de uva e vinho tornou-se um negócio expressivo com a imigração italiana, pesquisas tecnocientíficas e incentivos governamentais. No século XIX, a produção vitícola teve impulso com a importação de variedades europeias, americanas e híbridas introduzidas nas áreas de colonização italiana do país, como a Serra Gaúcha e o Sul de Santa Catarina. Em consequência do crescimento do mercado consumidor, a partir da década de 1970 verifica-se uma modernização da vitivinicultura brasileira. Entre as principais regiões produtoras, destacam-se a Serra e a Campanha Gaúcha, o Vale do Rio São Francisco, o Norte do Paraná, o Noroeste de São Paulo e o Norte de Minas Gerais.

O vinho em SC

No Estado de Santa Catarina, a produção de uva e vinho se relaciona com a história dos fluxos de colonização do território. Apesar de algumas iniciativas pontuais em épocas anteriores, a viticultura em Santa Catarina só progrediu com a colonização italiana dos vales atlânticos, a partir de 1875, e com a migração de ítalo-brasileiros para o meio-oeste, a partir da década de 1910.

A mais recente fronteira vitivinícola de Santa Catarina é a região de altitude do Planalto Serrano. Em seus vinhedos predominam as variedades Vitis Vinifera, para produção exclusiva de vinhos finos, plantadas entre 900 e 1400 metros de altitude. Diferente das regiões tradicionais, onde a vitivinicultura se desenvolveu em função da imigração italiana, no Planalto Catarinense ela foi baseada em pesquisas científicas, investimento de empreendedores e apoio técnico especializado.

Até a implantação de vinhedos no final do século XX, a região do Planalto Catarinense tinha na agropecuária e no extrativismo vegetal suas principais atividades econômicas. Se compararmos com o Rio Grande do Sul, em Santa Catarina a produção de vinhos finos teve um despontar mais tardio. Percebendo o diferencial das condições edafoclimáticas do Planalto, a partir da década de 1970 o Governo de Santa Catarina passou a apoiar iniciativas para o cultivo de espécies de clima temperado, como as videiras, com o Programa de Fruticultura de Clima Temperado (Profit). Embora este tenha contribuído para o interesse dos produtores no cultivo de variedades europeias, foi somente nas décadas de 1990 e 2000 que o cultivo dessas variedades foi amplamente impulsionado pelo incentivo governamental e investimentos privados.

Um dos experimentos considerados determinantes para a vitivinicultura de Vitis vinifera nas terras altas de Santa Catarina foi iniciado em 1991, através da um projeto financiado pelo Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e executado pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Este experimento identificou a aptidão do Planalto Catarinense ao cultivo de videiras para a produção de vinhos finos. Percebendo esse potencial mercadológico, no final da década de 1990, alguns empresários investiram nos primeiros vinhedos de elevada altitude no estado. Até 2013, 590 vinhedos tinham sido implantados, totalizando uma área de 332,35 hectares, distribuídos em 53 propriedades.

A paisagem bucólica dos vinhedos é o principal elemento que os turistas associam ao vinho. Deste modo, transformações espaciais que levem a descaracterização desta paisagem vitícola poderão ocasionar a perda desta representação simbólica para os moradores locais, turistas e consumidores dos seus vinhos alhures. Pode-se inferir a necessidade simbólica e mercadológica da preservação dos remanescentes dos campos nativos e das florestas de araucárias, bem como a harmonia espacial e ambiental entre os cultivares exóticos (videiras) e os seres vivos nativos da região.

A serra catarinense é uma região do estado com o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e as vinícolas, aos poucos, têm proporcionado um dinamismo econômico e o papel dos pesquisadores é perceber como esta introdução desses cultivos vem alterando a fauna e flora. Para o historiador, “o Brasil precisa (re)conhecer seu passado de ocupação e usos da terra, para compreender a importância atual e futura de seus recursos naturais e vislumbrar a sustentabilidade nestes espaços através, quiçá, do enoturismo”.

Linha do tempo

1532

As primeiras videiras foram trazidas para o Brasil em uma das expedições do português Martim Afonso de Souza. Brás Cubas, membro da expedição, tentou plantá-las na Capitania de São Vicente e perto de Cubatão, mas o clima da região não colaborou.

1551

Brás Cubas insistiu no cultivo das videiras, passando a plantá-las na região do planalto, na Vila de Piratininga, que viria a se tornar São Paulo. E assim, conseguiu elaborar o primeiro vinho brasileiro.

1626

A chegada dos jesuítas na região das Missões impulsionou a vitivinicultura no Sul do Brasil. A introdução de videiras no Rio Grande do Sul ficou por conta do Padre Roque Gonzales de Santa Cruz, com a ajuda dos indígenas para a elaboração dos vinhos.

1640

Foi realizada a primeira degustação orientada no Brasil, relatada na 1ª Ata da Câmara de São Paulo. A intenção era padronizar os vinhos para comercialização.

1732

Imigrantes portugueses passaram a povoar a zona litorânea do Rio Grande do Sul, formando colônias em Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre. Eles trouxeram mudas das ilhas dos Açores e da Madeira, mas o cultivo era apenas para consumo próprio.

1789

Percebendo a multiplicação das iniciativas em vinhos no Brasil, a corte portuguesa proibiu o cultivo de uva no país, em uma tentativa de proteger a própria produção.

1808

No ano da transferência da coroa portuguesa para o Brasil, com a vinda da família real, a proibição do cultivo da uva foi derrubada e novos hábitos em torno do vinho foram inseridos no país. A bebida passou a ser consumida durante refeições e servidas em reuniões sociais para imitar os costumes dos nobres.

1875

O grande salto na produção nacional de vinhos ocorreu com a chegada dos imigrantes italianos que trouxeram muito conhecimento técnico de elaboração, além da cultura de consumo. Isso elevou a qualidade da bebida e deu importância econômica para a atividade. Em Santa Catarina, destaca-se a colonização italiana nos vales atlânticos, sobretudo a região Sul do Estado, com as colônias de Urussanga e Nova Veneza.

1910

Chegada dos primeiros colonos italianos no oeste e meio-oeste catarinense, provenientes do Rio Grande do Sul, com a abertura da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande.

1916

Início da mecanização da vitivinicultura em Santa Catarina, com desengaçadeiras braçais e a ampliação das áreas de cultivo com varietais exclusivamente híbridos/americanos.  

1950

Chegaram ao Brasil vários produtores de vinho estrangeiros, entre eles a Georges Aubert, a Casa Moët & Chandon, a Martini e a Heublein. Com eles vieram também novas tecnologias, tanto na produção dos vinhos quanto no cultivo das uvas, iniciando um novo ciclo de produção no país.

1960

Início dos investimentos no cultivo de variedades de uvas europeias em Santa Catarina, predominantemente castas italianas, tais como Barbera, Bonarda, Canaiolo, Malvasia, Trebianno, Peverella e Moscato.

1970

Com o Programa de Fruticultura de Clima Temperado (Profit), o Governo de Santa Catarina passou a fomentar a introdução de variedades de uvas francesas como Cabernet Sauvignon, Merlot e Riesling. 

1990

A abertura econômica forçou a mudança e a renovação das vinícolas brasileiras. O acesso a diferentes estilos de vinhos e a concorrência com os importados levaram os produtores a aumentar a qualidade.

2000

Amparados por pesquisas tecnocientíficas, sobretudo da UFSC e da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), empresários com capital acumulado em diversas áreas decidem investir na produção de vinhos finos no Planalto de Santa Catarina.

2005

Visando o fortalecimento da marca das vinícolas e de seus produtos no mercado, em 2005 os empresários do setor fundaram a Associação Catarinense dos Produtores de Vinhos Finos de Altitude (Acavits), atualmente denominada Vinho de Altitude Produtores e Associados.

2010

A região de Urussanga obtém o primeiro certificado de Indicação Geográfica Protegida (IGP) do Estado de Santa Catarina, reconhecendo a peculiaridade socioambiental dos Vales da Uva Goethe para a produção desta variedade de uva.

2019

A vitivinicultura está se consolidando em diferentes regiões, do Sul ao Nordeste do país, fazendo com que cada região invista no desenvolvimento do enoturismo e na afirmação de uma identidade própria.

O artigo na íntegra pode ser conferido neste link.

Mais informações pelo e-mail:
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Fotos: Vinho de Altitude

Edição: Rosiani Bion de Almeida/Agecom/UFSC

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